sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A Esquina - Capítulo 1

São Paulo.

Sábado, 19 de julho de 2008.

Natália olha pela janela do 12° andar. Através do vidro, observa a cidade cinza, seca e fria numa tarde típica de inverno. Relembra aquela noite fatídica e, autopiedosa, analisa num amargo flashback a vida que tem levado nos últimos cinco anos, se é que de vida, pensa, o pode chamar. Dor, desespero, privação e, por outro lado, desejo. Um louco e rebelde, muitas vezes quase incontrolável, desejo. Desejo, desejo, desejo, desejo. Muito, muito, muito desejo. E, sempre dele conseqüente, culpa. Culpa, culpa, culpa, culpa. Tanto quanto o desejo, culpa. Uma constante, insistente e dilacerante culpa.

O perfume agradável e sedutor que Rodrigo usa, provavelmente mais por toda essa situação tão acumulada dentro dela do que pelo seu próprio aroma, parece-lhe ter tomado conta do ambiente. Natália o respira e treme. Nunca pensou que um perfume um dia lhe causasse vontade de chorar. Precipício. Ela olha pela janela e vê uma esquina. E pensa na esquina. E pensa que talvez pulasse. E oxalá caísse sobra a esquina. A esquina que vê, qualquer esquina, a daquela noite, aquela esquina. E tomara, pensa, tudo tivesse sido diferente. Tomara aquela esquina, a daquela noite, tivesse sido o fim. Não o fim que foi. Um outro fim. Um fim em que tudo tivesse acabado. Mas um tudo tudo, e não apenas o tudo que acabou mas que fez começar todo esse nada tão angustiantemente torturante.

Um minuto, dois, três. Mesmo sem ainda o ver, de pé ele no meio do quarto, Rodrigo sabe que, de pé ela ainda diante da janela, Natália chora. Ele não vê as suas lágrimas mas, como se uma chuva quente vidro afora fossem, inconfundivelmente as pode sentir. Quatro minutos, cinco, e ele lhe diz...

- É melhor eu ir...

Faz-se uma pausa. Ela não reage. Ele acrescenta...

- Quem sabe um outro dia...

Outra pausa. Quatro segundos, cinco, e lentamente ela se vira. A proficuidade das lágrimas, ele agora vê, impressionam. Banham bochechas, queixo e já pescoço. Igualmente já tendo em seu íntimo uma considerável hipótese de pranto, Rodrigo se sente, ninguém jamais o saberá, também culpado por entrementes ter o pênis em ereção. Mas, perto dela, de culpa ele não sabe nada. Ela sim, uma vez mais, e mais do que jamais, por ter a vagina inadiavelmente umedecida, sente uma culpa meio que espada, a, de um modo insaciável, com brutalidade a furar e fazer sangrar, vísceras, mucosas e tecidos.

Outros segundos, cinco, dez, quinze talvez, que decerto a ambos pareceram durar horas, e ele diz, num tom de já despedida...

- A gente se fala...

Um olhar recíproco. Precipício. Esquina. Esquiva. Mais um, dois, três segundos/horas e ele se vira empenhando um primeiro passo na direção da porta. Natália sente um tranco no peito. Como se se rasgasse corpo e alma, a alma afinal janela abaixo e o corpo enfim quarto e mundo adentro, ela parte para cima de Rodrigo como uma fera faminta diante da presa. Quase assustado mas de óbvio bom grado, ele, que já ia rumo à saída, sente os passos bruscos e para ela de novo se vira. Ela literalmente pula contra ele e o beija com loucura e violência, num encontro entre as bocas que quase chega a quebrar dentes. Empurra-o contra a parede, onde ele se encosta, e o segue a beijar com indescritível desespero. Literalmente morde-lhe lábios e línguas, e crava-lhe as unhas no pescoço a ponto de lhe fazer sanguinolentamente avermelhar. Orelhas, cabelos, ombro, braços. Tanto ela o quer, que quase já o devora. Beija, morde, apalpa, arranha, soca. Sua, baba e lacrimeja. Chora quente seu desejo contido e desesperado. A camisa que ele usa tem cinco botões, três dos quais a estão fechando. Em dois puxões ela os arranca todos, e a traz para baixo de um modo que, se Rodrigo não colaborasse com a operação, decerto a rasgaria, faria-a em trapos. Ela passa as unhas contra a barriga dele. Sente os pêlos, pele, calor. Ofegante, olha-lhe dentro dos olhos com um olhar que quase o atravessa e sai pela nuca. Um olhar que ele nunca viu e nem ela se saberia capaz de protagonizar. Agora ela baixa a sua mão direita e, por sobre a calça jeans que ele usa, aperta o volume pétreo. Faz com tamanha força que, se ele não entendesse e não fizesse parte da louca razão de tudo aquilo, indignado decerto protestaria de dor. Então, como se se rendesse à rendição mais necessária de sua vida, Natália se deixa cair de joelhos diante de Rodrigo, e, qual abrisse uma torneira ao meio-dia do mais escaldante dos dias, desabotoa o cinto, e a calça, e a puxa um palmo abaixo, e também a cueca, e eis o volume diante de si, a poucos centímetros de seus lábios.

Natália ergue o rosto e ainda olha para Rodrigo, que, baixando o seu, devolve-lhe o olhar. Uma nova troca de um algo indescritível, inominável, indizível, um último olhar entre condenado e carrasco, numa intimidade tal que a ambos faz ambos. E, como quase, ou do que quase pouco mais, havia feito naquela noite, Natália abre sua boca e, entregue afinal, faz nela entrar o que tem tanto, e por tanto tempo, tão desesperadamente desejado.

Gugu Keller 

18 comentários:

  1. Meu Deus, que belo texto! Suas palavras foram bem colocadas e ainda descreveu São Paulo, a cidade que sou apaixonada!

    beijos

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    1. Obrigado, Raíssa! Trata-se de uma nova experiência que estou empreendendo! Ficarei feliz e honrado se vc acompanhar e comentar!
      GK

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  2. (suspiros)
    ......
    Acho que vou precisar do Capítulo 02 com antecedência.
    ....
    Excelente ;)

    Um ótimo fim de semana ;)
    Beijos!

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  3. Obrigado, Taís! Espero que goste até o fim...
    GK

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  4. Muito bom! Um que de "Escuridão"

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    1. Pois é... Será este um estilo meu de que não consigo fugir?
      GK

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  5. Incrível, excelentíssimo começo! Perfeita a mistura de mistério com a mais prazerosa sensação do ser humano: o desejo. Impossível não nos tornar a ofegar.
    Considero a maior perfeição quando ideias são colocadas de formas diretas e tão bem escritas que passam muito distante da vulgaridade.
    O mistério da esquina me atiçou muito. Espero ansiosa pela continuação...

    :)

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  6. Obrigadíssimo, Manoela! Levará um certo tempo, adianto-te, para que o mistério seja revelado, mas isso faz parte da tática para prender o leitor, entende?
    Bjs!
    GK

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    1. Perfeitamente! :)
      Mas essa espera é sempre prazerosa. :)

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    2. Farei o possível para que assim seja, até porque a história terá muitas outras vertentes...!
      GK

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  7. Excelente texto estou esperando pra saber quem é esse casal misterioso.
    bj

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  8. Obrigado, Yasmim! No momento propício, tudo será descortinado...!
    GK

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  9. Ainda não tinha passado aqui nesta "Esquina", (adorei!) voltarei para o desenrolar da história!

    Beijo
    Sónia

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  10. Obrigado, Sônia! Os capítulos serão postados com a freqüência média de uma semana, ok?
    Bjs!
    GK

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  11. Parece q vc escerve sobre mim! rs Não só pelo nome da personagem, mas pelo o q ela é, como é... Incrível... O.o rs

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  12. Ajude-me então a desenvolvê-la, minha amiga! Tuas opiniões serão muito bem-vindas!
    GK

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  13. Que intenso!
    Estou curiosa para saber mais sobre a história deles!

    Beijo!
    Isabela

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  14. Obrigado, Isabela!
    Os capítulos seguem, um por semana!
    GK

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