sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A Esquina - Capítulo 2

Sexta-feira, 12 de julho de 2002.

Até pela natureza de sua profissão, psicóloga, Ana Clara sempre foi alguém de índole extremamente liberal. Já atendeu, e ainda atende, tanto em seu consultório quanto no trabalho que desenvolve numa entidade pública que cuida de menores infratores, pessoas com os mais diferentes tipos de comportamentos e de problemas, de modo que o pequeno susto que levou ao dar com aquela figura tão feminina diante de si deveu-se única e exclusivamente ao fato de que, em virtude do nome, João Felipe Cordeiro dos Santos, ela obviamente esperava ter com um homem. De qualquer forma, sua experiência de já alguns anos permitiu-lhe disfarçar a surpresa com eficiência, e ela soube deixar desde logo à vontade o novo paciente, cuja figura chamava muito a atenção não apenas pela já citada feminilidade, mas também, e sobretudo, pela beleza. De fato, ele, ou ela, era lindíssima, ou lindíssimo. Acostumada, ao cabo de apenas uns poucos segundos, à nova situação, Ana Clara até já sentia em seu íntimo um quê de empolgação por estar diante de uma experiência profissional nova, ela que tanto sempre amou a psicologia, a mais fascinante, como ela mesma sempre diz, das profissões, vez que já trabalhou com vários pacientes homossexuais, ou bissexuais, mas nunca, como agora lá estava diante de si, um travesti.

- Tudo bem? - perguntou Ana Clara com um sorriso a tentar quebrar a até certo ponto natural timidez do primeiro encontro.

- Tudo bem! - respondeu o travesti que, após uma pequena pausa, perguntou a Ana num tom como a facilitar o desembaraço da situação... - Ficou surpresa ao me ver?

- Pois é... Pelo seu nome, João Felipe, eu não imaginava...

- Eu entendo. Vira e mexe, eu passo por situações assim...

- Mas fique tranqüila, viu? - disse confortadora enfim Ana ao travesti, referindo-se a ele já no feminino e meio que pondo um ponto final em qualquer possibilidade de constrangimento em virtude de sua tão visível opção. - Isso não tem nenhum problema no que se refere a nós desenvolvermos um trabalho, caso isso venha a ocorrer...

- Ok!

- Agora, você certamente tem um outro nome... As pessoas não te chamam de João Felipe, eu imagino...

- Eu uso o nome Andréa!

- Andréa?

- Sim! É como todos me chamam!

- Inclusive a tua família?

- Eu tenho uns problemas com o meu pai, sabe?

- Hum-rum.

- Mas, fora ele, todo mundo me chama de Andréa!

- Certo! Bem... Antes de você me falar sobre o que te trouxe a procurar a minha ajuda profissional, eu só preciso te fazer uma pergunta que é praxe num consultório de psicologia, tá?

- Sim! Sem problema!

- Quem foi que te indicou o meu trabalho? É que, se você for muito próxima de alguém que eu já esteja atendendo, aí pode ser necessário que eu te encaminhe para um colega, entende?

- Entendo. Mas não será preciso. Ninguém me indicou. Eu sempre passo na frente aqui e vi a placa na porta...

- Ah, sei...

- Aí, como eu não conheço ninguém que pudesse me indicar um psicólogo, e na placa aí na porta tem o número do telefone, eu resolvi marcar uma hora...

- Entendi. Está ótimo, Andréa! Sinta-se então à vontade para me falar sobre a razão, ou as razões, que te fizeram me procurar...

O travesti ficou sério. Fez uma longa pausa enquanto olhava bem dentro dos olhos de Ana Clara. Como se tomasse coragem, respirou fundo. Sensível e acolhedora, a terapeuta fez um importante adendo à sua última fala...

- Só uma coisa, Andréa... Nós estamos sob sigilo profissional, tá? Qualquer coisa que seja dita aqui, mesmo que você não volte, ficará apenas entre nós, ok?

- Ok! Obrigada!

- Então, fique à vontade!

Mesmo diante daquela profissional tão ao mesmo tempo séria e cativante, Andréa, acostumada mais do que ninguém às pérfuro-cortantes lâminas do preconceito humano, ainda algo hesitou, até que, afinal, para um alívio que ela própria não saberia descrever em seu coração, disse a Ana Clara...

- Doutora... Eu sou soropositiva! Eu tenho aids!

Gugu Keller 

14 comentários:

  1. Sentei aqui, nesta "Esquina", tomei meu café, enquanto me apercebia do problema da Andréa.
    GK, fiquei com vontade de ler mais!
    Alem das visitas que lhe faço, quase a diário, sexta feira cá estarei, para um novo capítulo!
    Deixo um beijo

    Sónia

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  2. Obrigadíssimo, Sônia! Esclareço que, como já disse, os capítulos serão em média semanais, e, como os dois primeiros foram em duas sextas-feiras, a tendência é que assim continue. Faço, contudo, esta ressalva porque pode acontecer de haver uma sexta em que eu não tenha disponibilidade para escrever, entende? Mas, se não for na sexta, pode ser no sábado, na quinta etc...
    Bjs!
    GK

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    1. Importa sim, que a história continue...
      Um beijo
      Sónia

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    2. Agora que comecei, nada me deterá!
      Bj!
      GK

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  3. Respiro fundo para sempre ter paciência e esperar o próximo capítulo.
    Muito bom meu querido, muito bom!

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    1. Que bom que está gostando, Taís!
      Mas, se o caso for, pode criticar também, ok?
      GK

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  4. Depois de ler este segundo capítulo, senti algo que não sei descrever realmente o que seria, com relação à continuação da história, com relação a o que o travesti soropositivo ou quem sabe a psicóloga tem a ver com o tão instigante primeiro capítulo... ou será que nada tem a ver?
    Espero ansiosa pela continuação!!

    Abraços!

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  5. Pois é... A princípio eu não contaria nada e manteria o suspense. Contudo, já que a proposta desta minha empreitada é justamente a de que todos acompanhem e participem do processo de criação, adianto-te que as duas vertentes da história se encontrarão num acontecimento que se dará numa certa esquina. Daí, o nome do livro!
    Bjs!
    GK

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    1. A tua resposta pode ter-nos saciado essa dúvida, mas agora abriu outras maiores ainda... aumentou o suspense!!

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  6. Se eu te disser que fico feliz por vc se sentir ainda mais em suspense, vc me perdoa? Mas, por outro lado, eu sinto aumentar minha responsabilidade no sentido de que o trabalho fique bom...
    GK

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  7. Oi tive que retornar, estava perdendo partes da história, adorei, agora vou lendo capítulo por capítulo. Oh muito bom!

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  8. Obrigadíssimo, amiga!
    Fique sempre à vontade!
    GK

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  9. Eu já havia notado há muito tempo o quanto você escreve bem, mas a cada dia me surpreendo ainda mais! rs Parabéns pela escrita, muito boa mesmo!

    E agora fiquei ainda mais curiosa com essa história... Quero descobrir a ligação entre os personagens! rs

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  10. Obrigadíssimo!
    Siga a história e verá que tudo se costura!
    GK

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