sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A Esquina - Capítulo 3

Trêmula, ao ter, como um sol a se pôr no horizonte do céu da sua boca, a glande a tocar-lhe a goela, Natália sente, misturado à culpa que alhures sempre lhe insiste, um imenso e intenso prazer a crescer e crescer. Prazer quase alívio, é como se ela se sentisse milagrosamente resgatada, içada, ressuscitada, enfim salva ao tocar uma bóia em meio à solidão oceânica de seu cotidiano desde a esquina. E já não é só a glande que lhe toca a garganta. É a vida que novamente lhe toca o corpo, o tempo que lhe volta ao relógio, o porquê afinal frente ao quê. Ela sorve, absorve, saliva, sibila. Engata-se, envolve, engole. Com as mãos de Rodrigo a agora afagar-lhe a cabeça e envolver-lhe os cabelos, Natália se entrega novamente, e finalmente, quer crer, de corpo e alma, ao doce vai-e-vem da existência, ao dulcíssimo enfim reecontrado vai-e-vem de uma vida, a sua, que há muito, muito, muito, não ia nem vinha. E eis enfim, Natália pensa, e sente, e, entregue, experimenta, sua boca cheia. Sim, ainda, e sempre, e talvez para sempre, cheia de culpa. Mas também cheia de prazer, cheia de Rodrigo, cheia de pênis. Sim. Pênis. Pênis de Rodrigo. Pênis, prazer, culpa. Loucura, lucidez, vida. Vida, vida, vida. Morte, morgue, sucção.

Três, cinco, oito, doze minutos. Ruidosamente, Natália traz lábios afora o membro róseo do seu amor. Como se se aliviasse de um descontrolado incêndio intra-tórax, também ruidosamente expira. Levanta o rosto rumo ao dele e novamente os olhares se cruzam. Como aquelas duas ruas, se cruzam. Como a vida dela, a dele, e a de Fernando, e a da doutora Ana Clara, naquela esquina, naquela noite, se cruzam. E Natália por um instante vê com nitidez que, sim, sua vida é mesmo um cruzamento, uma cruz, o cru, uma cruzada, o pênis de Rodrigo a poderosa lança com que doravante lutará contra os todos tantos inimigos, tantos todos tamanhos toda parte.

O novo olhar é trocado de um modo que, claramente para ambos, cada um agora tem para si em definitivo os olhos do outro. Um segundo, três, cinco e, após Rodrigo trazer-lhe carinhosamente para cima com as mãos em suas axilas, eis Natália novamente de pé diante dele. Olhos, halos, hálitos. Beijo. Beijo. Lábios, língua, beijo. Um segundo, três, cinco. Vinte. Vinte e cinco.

Rodrigo livra-se de seus sapatos e meias, e enfim da calça e cueca que à altura de seus tornozelos haviam ficado. Chamando-a com e pelos olhos, ele agora, mantendo as pernas para fora com os pés a tocar o chão, deita-se na cama no centro do quarto e, sem as dizer, faz Natália escutar duas breves palavras no imperativo...

- Chupa mais!

Mesmo não ditas, ela as ouve de pronto e, tomada por aquele prazer que mistura o da sua entrega com o de simplesmente se entregar, agora ajoelha-se entre as coxas abertas abrigo diante de si. Neste ângulo, o pênis lhe parece ainda maior, mastro, máximo, master monstro manso, e pensa, tentando de pronto sem êxito evitar pensar, que ele, o pênis de Rodrigo, conforme descoberto naquela noite, é muito maior do que o de Fernando, e culpa, e culpa, e culpa. E, ajoelhada, novamente ela o chupa. E culpa, e culpa, e culpa. E chupa, e chupa, e chupa. Joelhos no chão, ela chupa. Pés no céu, ela chupa. Céu no chão, ela é culpa. E chupa. Esquina, esquiva, escuro, explosão. Faixa, fluxo, farol, fatal, felação.

Gugu Keller

12 comentários:

  1. Nossa... o que teus capítulos ímpares têm de saborosos, têm de enigmáticos ein!!
    Estou cada vez mais curiosa e vidrada neste teu livro. Ao mesmo tempo em que tenho medo tenho ânsia do que ainda vem por aí!
    Estou adorando!

    Beijos!

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  2. Obrigado, Manoela! É um comentário que me deixa muito feliz, na medida em que, se além de agradar, o texto consegue criar ansiedade pela sua continuidade, temos uma boa receita para que seja exitoso, não acha?
    GK

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  3. Com certeza. Esse é o retrato de um livro bom. :)

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  4. E, com certeza, teus comentários em muito ajudarão a o assim manter.
    GK

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  5. Escreveu sobre mim! rs Me fez lembrar de certos episódios da minha vida... rs "E a culpa"...

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  6. Obrigado por ter lido, Natália! Espero que essa semelhança com a tua vida tenha feito o texto do teu agrado! Ficarei feliz se continuar seguindo a história e postando qualquer opinião que venha a ter!
    GK

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  7. Nossa vou seguir sempre! Cada capítulo é como um capítulo da minha vida... Essa "vida de minhas retinas tão fatigadas".

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  8. GK, cada capítulo é mais envolvente que o anterior!
    Agora vou passar de imediato ao próximo, feliz de ter já mais um para ler!
    Beijo
    Sónia

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  9. Esse tinha lido já, mas não resisti, reli, tua escrita é excitante!

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  10. Capítulo bem envolvente, como os anteriores! Caliente e misterioso! rs

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  11. Obrigado! Espero ir assim até o final...
    GK

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