sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A Esquina - Capítulo 4

Fernando jamais perdoou Rodrigo pela situação com a intercambista. Conforme, quase dez anos depois, já com ela casado, ele confidenciaria a Natália, "jamais", por suas próprias palavras, "sairia de sua boca o gosto amargo daquela 'traição'". No dia em que ele a ela tal frase disse, mesmo tanto se dando mais de ano antes do fatídico acontecimento na esquina, o que o potencializaria numa proporção simplesmente incomensurável, Natália, já não mais, àquela altura, conseguindo negar para si mesma a paixão que às escondidas do mundo lhe consumia, sentiu a cega e grossa faca da culpa atravessar-lhe o peito e sair vermelha pelas costas. Naquela mesma noite, a que se seguiu ao dia em que tal frase ouvira, no escuro, de costas para o marido que, a despeito do relembrado amargo restante da traição do ex-amigo, já parecia dormir, protegida pelo escuro, sem emitir qualquer som, Natália chorou. Chorou, chorou, chorou, chorou e chorou. Chorou um choro que, doravante, por mais que na maior parte do tempo sem soluços ou lágrimas, para sempre ela sozinha choraria.

Ainda quanto a Fernando, ainda no que se refere à atitude de Rodrigo com relação a Heather, no dia em que ela pegou o avião de volta para a Austrália, ele, Fernando, enquanto toda a família no aeroporto dela se despedia, em casa, sozinho, chorando amargamente o amargo de sua jamais tanta como até então amargura, decidiu paremptoriamente que não mais voltaria a falar com aquele que um dia fora, com aparência tão verdadeira, seu melhor amigo, seu até então único, grande e aparentemente tão verdadeiro amigo. Já quanto a ela, Heather, a intercambista, amargamente ele a odiou. Como jamais odiara, a odiou. Com um ódio que jamais concebera em si mesmo haver, a odiou. E tanto era o jamais concebido ódio que havia em si, que, lembrando-se dos planos que por ela fizera, ir um dia para Perth, ter com ela um dia em Perth, com ela para sempre um dia em Perth, ainda sobrou o bastante para, auto-envergonhado de sua másculo-ingenuidade, e com a boca seca de um fel-biliar amargor, profunda e derrotadamente odiar também a si mesmo. E Fernando passou aquela tarde chorando. E odiando. E odiou. E chorou, chorou, chorou, chorou e chorou.

Apenas para nunca mais ter que olhar para a cara de Rodrigo, a para ele agora cínica e falsa cara de Rodrigo, Fernando mudou para o turno da noite no último ano da faculdade, e, para uma inevitável mas, após sabido o porquê, compreensiva tristeza de seus pais, não participou, no início de 93, dos eventos comemorativos da formatura de sua turma. Apenas após quase dez anos, num casual encontro no museu, após o qual, conforme dito, ele disse à esposa aquela frase que transversalmente a esfaqueou, Fernando voltou a ver aquela cara, aquela para ele cínica, falsa e remontante a um passado a ser esquecido, cara de Rodrigo.

Gugu Keller   

12 comentários:

  1. Mais uma vez venho minhas dúvidas, meus medos e meus sentimentos =)Estou amando cada capítulo...

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  2. Obrigado, Natália! É uma honra para mim que esteja acompanhando!
    GK

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  3. Gugu! Esse teu livro tem me surpreendido mais a cada dia!
    Mais personagens... Mais enigmas... Tudo que eu queria era esse livro inteiro em minhas mãos para sanar todas as minhas curiosidades!!!
    E essa história da Natália e do Rodrigo... Já começamos a entender em porque, talvez, ou pelo menos um pouco do porque ela sentia tanta culpa...
    E o Rodrigo com o Fernando... E o Fernando com a intercambista... Uaal! O que será que vem por aí!?!
    Estou louca para saber a continuação!
    Acho que não é necessário dizer o quanto estou adorando, né?
    Está se saindo muito bem!

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  4. Obrigadíssimo mais uma vez, Manoela! Pois é... Aos poucos as costuras vão se montando, né? Mas este ainda foi o terceiro capítulo, e a previsão é de que sejam 52! De todo modo, sinta-se à vontade para, também, se qeiser, sugerir alguma continuidade que vc ache interessante!
    GK

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    1. Ou melhor, este foi o quarto!
      GK

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    2. Nossa, 52?! Isso é ótimo, terá muita história ainda então! Mas me diga, de onde o número?
      Sim, sim, sugerirei se tiver alguma ideia! :)

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    3. Querida... É que 52 é o número de semanas do ano!
      Thanx and kisses!
      GK

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  5. UAUUU!!! Agora que tive tempo de ler com atenção esses dois últimos capítulos!
    Acabei relendo tudo de novo só para me certificar dos detalhes!
    São capítulos que não me deixam pausar a leitura!
    Adoro isso!
    Aguardo sempre pelas postagens ;)
    Boa semana querido ;)

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  6. Obrigado! No final desta semana, teremos o quinto!
    GK

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  7. Sou da opinião da Manoela, bom mesmo, era ter o livro na mão!
    Cada vez gosto mais da sua escrita e criatividade!
    Aguardo o próximo capítulo :)
    Beijo
    Sónia

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  8. Obrigado, Sônia! Um pouco de paciência e, prometo, vc o terá!
    GK

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