sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A Esquina - Capítulo 5

- Eu sou soropositiva! Eu tenho aids!

Sem desviar seus olhos dos olhos verdes do travesti, Ana Clara fez, não o pode evitar, uma pequena pausa. Tendo já, também por conta de sua experiência na entidade em que paralelamente ao consultório atua, atendido pacientes soropositivos, ela sabia que a sua primeira reação àquela tão complicada revelação seria de suma importância para a continuidade do trabalho que, naquele momento, com aquela primeira entrevista, se iniciava. Contudo, apesar da óbvia gravidade do quanto lhe fora confidenciado por Andréa, esta não parecia a respeito tão abalada como, de modo tristemente marcante, Ana Clara vira outros estarem ao lhe relatar a mesma situação. Assim, após aquele silêncio de talvez um segundo e meio, com o máximo de naturalidade possível, perguntou a terapeuta ao travesti...

- Há quanto tempo?

- Dois anos, mais ou menos...

- Você está com que idade?

- 24!

- E como você descobriu?

Andréa explicou que, juntamente com outro travesti, Mércia, com quem divide um apartamento, costumava, desde que começou a se prostituir, aos 18 anos, semestralmente fazer o teste. Até que, no momento por ela acima referido, deu positivo. Disse que sempre usou camisinha com os seus clientes, mas que, de vez em quando, aparecia um ou outro que insistia no contrário, oferecendo para tanto quantias irrecusáveis, e que, provavelmente, foi num desses tiros a esmo, não raro embalados por maconha, álcool e anfetaminas, que ela se contaminou. Questionada por Ana Clara, ainda que neste primeiro momento apenas de modo superficial, acerca de sua opção pela prostituição, Andréa explicou que a dura realidade dos travestis não costuma lhes oferecer muitas outras.

- Se eu tivesse outro caminho, - arrematou - jamais teria entrado nesta vida de fazer programas!

Intuitiva, Ana Clara observava. Disse então...

- Mas, pelo menos, Andréa, com relação a ser soropositiva, você me parece bem... Quero dizer, ao menos você está com um aspecto bastante saudável...!

- Ah, sim! Graças a deus! Estou bem! Carga viral indetectável!

- Que ótimo! Você se trata, então? Toma um antiretroviral?

- Sim! O Kaletra!

- Maravilha! Que bom que você está bem!

Andréa então explicou a Ana Clara que o que a levou a procurar uma terapia não foi em si o fato de ela estar contaminada, com isso ela até tem lidado razoavelmente bem. O problema, um árduo dilema em seu íntimo, é um relacionamento que ela vem mantendo nos últimos meses com um homem casado, no princípio mais um cliente, mas hoje já parceiro de uma mútua e ardente paixão.

- Ele está apaixonado, doutora! Está louco por mim!

- E você?

- É... Acho que eu sinto o mesmo...

- E então ele é casado?

- Sim!

- Quantos anos ele tem?

- 34!

- E há quanto tempo ele é casado?

- Parece que uns três anos...

- Tem filhos?

- Tem uma filha pequena... Nenê... Uma ano e pouco, acho...

Ana Clara pensava. Analisava. Sobretudo, como sempre lhe foi peculiar, observava.

- Bom... - comentou então - Acho que isso é bastante comum, não?

- Ah, sim! Muito! Muito mesmo!

- E o quê que tá pegando, Andréa? Por que essa relação com esse homem fez você procurar uma terapia? Você está apaixonada e fica imaginando se um dia ele vai te assumir ou algo assim?

- Não, não é isso! O problema é o que eu te contei agora há pouco... O hiv!

De pronto Ana Clara entendeu. E fez a pergunta que cabia...

- Vocês não usam camisinha?

Ajudando com um leve movimento de cabeça, Andréa respondeu agora com um pequeno quê de auto-reprovação...

- Não!

Pausa.

- E você não disse a ele que tem o hiv?

Lentamente, Andréa repetiu o movimento e a expressão.

- Não!

Pausa.

- E tem medo de dizer?

Tudo igual para o positivo.

- Sim!

Pausa.

- E também tem medo de contaminá-lo? Ou de já o ter contaminado?

Idem.

- Sim!

Ana fez uma nova pausa. Sempre a observar a paciente novata, decidiu uma linha de abordagem para saber mais sobre aquela situação. A resposta à primeira pergunta que para tanto fez, todavia, instalaria em seu íntimo uma brusca e inesperada tensão, a ponto de, o que é raríssimo, inédito quase, fazê-la perder a concentração numa primeira entrevista...

- Como é o nome dele?

O travesti voltou a relaxar um pouco após a tensão de ter entrado no assunto que lhe era motivo de tudo e, com agora um quase sorriso na boca, explicou...

- Ele tem um nome diferente, sabe? Um nome meio esquisito... Tanto que, no começo, ele me disse um nome falso, Roberto... Mas, depois, na terceira ou quarta vez que a gente saiu, ele me disse o nome verdadeiro...

- E como é o nome?

- Gladston!

Gugu Keller

8 comentários:

  1. Oi Gugu! Tudo bem?
    Nossa faz o maior tempo que não passo por aqui,kkk.
    Hoje li todos os capítulos da sua história, devo parabeniza-lo e a primeira vez que leio textos com conflitos humanos tão internos como esse, estou esperando mais capítulos.
    Não estranha se eu sumir de novo ando ocupada com a faculdade.
    bj

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  2. Obrigadíssimo, Yasmim!
    Trata-se, caso vc ainda não saiba, de um novo projeto em que estou trabalhando, consistente em escrever um livro aqui no blog de modo que vcs, meus queridos seguidores, possam acompanhar e opinar passo a passo. A previsão é de que serão 52 capítulos em média semanais, ou seja, deve durar um ano. Apareça sempre e boa sorte em teus estudos!
    GK

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  3. Gugu!! Sempre me trazendo o inesperado!!
    Mas ufaa!! Ainda bem que não era o Fernando o homem casado! Já deu um aperto no meu coração! Já pensou se ela tivesse passado o HIV pro Fernando, e ele pra Natália e ela pro Rodrigo! Eu não gostaria...!

    Ótimo! Novo personagem... Estou louca para saber a continuação!

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  4. Pois é... Mas, de um outro modo, oportunamente, essa história se costurará com a deles. Ademais, na situação deste capítulo, a Ana Clara não ficaria tão tensa se a Andréa dissesse que o nome do seu amante é Fernando pelo simples fato de que "Fernando" é um nome bastante comum, o que já não acontece com "Gladston", não acha?
    GK

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  5. Sim... Então você está sugerindo que Ana Clara conheceria Gladston? Isso seria bastante conveniente... Mas como? Seria ela a esposa dele? Não sei, isso seria muito óbvio... Mas... Não se sabe, a trama pode ser maior do que imaginamos...
    Viu Gugu, os pensamentos que tua história sugere!?!

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  6. Usando a expressão daquela velha brincadeira de criança, eu diria que que vc "está quente"... hehehehe
    Bj!
    GK

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  7. Você deixou um suspense no ar, estou aqui me perguntando se Gladston é marido da Ana! Ou se é marido de alguém que ela conhece... Estou apostando mais na primeira hipótese e doida para descobrir a resposta! rs

    Beijo,
    Isabela

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  8. Se continuar lendo, logo vc descobre...
    GK

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