sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A Esquina - Capítulo 6

Tanto o pênis de Rodrigo vai-lhe fundo boca adentro, garganta, goela, gárgula, úvula, que à mente de Natália entrementes vem a lembrança daquela incisa e ansiosa ânsia de vômito. E vem-lhe aquela tarde, o cinza, o concreto, o túmulo, família Wilson, o coveiro e as flores vomitadas. Culpada, chupando e chupando, em prazerosa fúria chupando, ela com clareza compreende o quanto é doentio simultaneamente pensar naquilo tudo, naquela tão inversa à deste momento catarse. E Natália tenta de certo modo negar a lembrança. Mas, de certo modo, num a seguir quase imediato, desiste. Atina, num desespero enfim agora conformado, que, hora após hora, dia após dia, meses, anos, três, cinco, tudo o que tem feito é tentar negar pensamentos que afinal o tempo todo lhe vêm, o tempo todo tem, o tempo todo lhe têm.  Atina enfim que tentar esquecer assim é pensar mais, ou que os tentar de algum modo evitar depois que a rigor já vieram é pior. Dobra-os, multiplica-os, potencializa-os. Sim, compreendeu. Tentar negar o que é, o reafirma. Então, mesmo com culpa, resta-lhe, chupa. Copioso prazer culpado. Como se novamente vomitasse sobre as flores, culpa. Como se quando a se masturbar na cadeira de rodas, chupa. Mesmo em copiosa culpa, chupa. Mesmo em copioso prazer chupando, sente vorazmente chupar-lhe a sua tão sua cópia culpa.

Sentindo que, a continuar ela naquela toada poderá logo já lhe vir o gozo, Rodrigo carinhosamente traz para cima a cabeça de Natália, sinalizando-lhe tacitamente que de sexo oral ele está satisfeito. Num último movimento, ela faz o pênis entrar até o fim por sua boca, possivelmente ganhando-lhe já o início do esôfago enquanto sua testa e nariz tocam o púbis, pêlos a lhe cutucar os agora também por isso quase lacrimejantes olhos abertos. Dois segundos, três, cinco, e, centímetro a centímetro, para depois engolir toda a sua saliva cheia daquele gosto, ela enfim o faz vir para fora. Dirigindo ela ao parceiro um olhar de presa agonizante, a que ele reribui com um de predador faminto, ambos lenta e ofegantemente expiram. A seguir, como num novo gesto de, mais do que entrega, adoração, Natália, agora de olhos fechados, encosta o pênis na lateral do seu rosto e a ele envolve com uma das mãos, abraçando-o, acolhendo-o, com ele dançando parada uma silenciosa música lenta, trazendo-o o máximo possível para o máximo possível do seu íntimo. Com a outra mão, com carinhoso cuidado, por baixo envolve os testículos.

Novamente a conduzindo pelas axilas, Rodrigo pede sem fala a Natália que se levante. Ela o faz. Ei-la já não mais de joelhos, mas diante dele de pé. Erguendo seu tronco, ei-lo, por seu turno, sentado na cama com as pernas para fora diante dela. Como a um papagaio, num estender de mão ele a ela pede o pé. Entendendo-o de pronto, e já sem tentar evitar lembrar o tombo daquela tarde após o vômito, ela se apóia com as mãos nos ombros dele e lhe leva o esquerdo. Ele lhe tira o sapato e, com ele, ela o sente, ou tenta sentir, o "c" da palavra culpa, atira-o num canto do quarto. Tira-lhe a meia e, após um leve beijo no pé, com a letra "u" também a atira. Os olhos conversam e eis Natália com o pé descalço no chão e o direito nas mãos de Rodrigo. E vai-se o sapato ao mesmo canto com a letra "l", e, após também um beijo, a segunda meia a levar a letra "p". E eis Natália descalça. E Rodrigo agora a puxa pelos quadris contra si e, mesmo por sobre a calça jeans, leva-lhe a boca sobre a vagina. Com a força exata para que ela sutilmente o sinta, ele morde, mordisca, pressiona de leve com os dentes. Natália o envolve pelos cabelos e, enlouquecida de desejo, expira...

- Ahhh...!

Olhos. Quase fora das órbitas, olhos e olhares. Rodrigo desabotoa o cinto e a calça de Natália. Baixa-lhe o zíper. Puxa. Revela-se a calcinha branca. As coxas. Os joelhos. Pernas. Tornozelos. Apoiando-se novamente nele, Natália ergue um dos pés, agora primeiro o direito, e pensa no tombo, depois o outro, o esquerdo, pensa, e eis a calça e o cinto, como que a roubar do gemido de há pouco a letra "a" que completa a palavra, também voando junto ao resto rumo ao canto. E, na cabeça de Natália, voa tudo. Voam destroços, vidro, sangue, vida, flores. Cadeiras de rodas. Morte, morgue, mordaça, sucção.

Rodrigo se levanta. Olhos eis desorbitados frente a frente. Próximo ao umbigo, o pênis ereto e úmido de saliva toca-a no ventre. Rodrigo ainda tem no corpo a camisa desabotoada. Natália, a calcinha e o sutiã. Três passos para o paraíso. Três peças para o paraíso. Três sessões de psicoterapia e ei-la, Natália, feita de culpa e vazia dela, a uma esquina do doce inferno do seu paraíso. Olhares, ósculo, hóstia. Esquina, escolha, hospital, hospício.

Gugu Keller 

6 comentários:

  1. Nunca foi tão dolorido ver a sua assinatura indicando o final de um texto como desta vez.
    Confesso que soltei um "Ah não!" em voz alta.
    É incrível como consegues mesclar tão prazerosa situação com tantos desenrolares possíveis para a história. Tirei meu chapéu para este capítulo. Mas já estou colocando uma grande gama deles na minha cabeça, porque sei que os tirarei logo, logo.
    Espero ansiosa para o desenrolar de tudo que sugere este último texto.
    Beijos!

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  2. Obrigadíssimo mais uma vez, Manoela! Faz-me muito feliz saber que o texto está sendo do agrado de alguém com a tua sensibilidade! Darei meu máximo para que continue assim até o fim...!
    Bj!
    GK

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  3. Muitíssimo obrigado e bem-vinda! Quanto a este post em que comentou, trata-se, como deve ter observado, do um livro que estou escrevendo aqui no blog, de modo que os leitores o possam acompanhar durante o processo de criação. Ficarei muito grato se vc o fizer, podendo, é claro, sempre, opinar e criticar à vontade.
    GK

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