sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A Esquina - Capítulo 8

Ao menos pelo que se lembra, aquela festa do trígésimo aniversário de sua grande amiga Carolina, uma amizade dos tempos de colégio, foi o primeiro evento social a que Natália foi sem a companhia de Fernando desde que, exatos três anos antes, em maio de 1999, eles se casaram. Com efeito, até então, sempre foram juntos a todas as festas, jantares, reuniões familiares, o que fosse. Não que tivessem uma vida social muito intensa. Não. Natália nunca foi de muita agitação. Contudo, àquela festa que marcava uma data tão especial na vida da grande amiga, Natália não poderia deixar de comparecer, até porque ela própria completaria a mesma idade no próximo setembro e igualmente esperava os amigos em sua comemoração. E, não tendo Fernando conseguido voltar da viagem de trabalho que fizera ao Rio, eis Natália, por volta das dez horas da noite daquela sexta-feira, a caminho do salão de festas de um clube alugado por Carolina.

Também ao menos pelo que se lembra, Natália jamais ouviu Carolina lhe falar sobre um primo seu chamado Rodrigo, e, quando este se aproximou se apresentando, com uma disfarçada empolgação ela se surpreendeu ao ouvir que, qual ela, tampouco ele estava acompanhado. É que, ainda que seu superegóico subconsciente rapidamente já tivesse se encarregado de a fazer o negar para si mesma, ela já havia, desde logo, reparado naquela inequívoca beleza masculina. 34 anos, divorciado, analista de sistemas.

- E você, quantos anos tem, Natália?

- 29!

- E conhece a Carol de onde?

- Estudamos juntas no colégio!

Meia hora de conversa. Quarenta minutos, uma. Onze da noite, meia-noite. Quinze para uma, uma. Drinques, música, alegria. Reencontros, abraços, cumprimentos, risadas. Presentes, luzes, pista de dança. Natália e Rodrigo seguem conversando. Blá, blá, blá, blá, blá. Ei-los agora numa varanda onde ninguém os vê. Pausa momentânea. Rodrigo dá um gole e, olhando-a bem nos olhos, diz...

- Eu não imaginava que a minha prima tivesse uma amiga tão linda...

Natália ouve aquilo e, de pronto, sente um golpe duplo em seu corpo. Um, de adrenalina, na boca do seu estômago. Outro, de progesterona, no vão entre as suas pernas. E, numa estranha combustão entre ambos, a seguir, um outro golpe, este mais incisivo, seco, amargo, contundente, o golpe da culpa. Pela primeira vez, culpa. Como nunca antes, culpa. Como para sempre doravante, culpa. 2002, 2003, culpa. 2004, 2005, 2006, 2007, 2008. Fernando, trabalho, casamento, família. Rio de Janeiro, festa, desacompanhada, primo. "Tão linda", culpa. Sim, Natália gostou do que ouviu. Mas, não, não gostou. Gostou e não gostou de ter gostado. E gostou de não ter gostado de ter gostado. Mas não gostou disso tampouco e, culpada, desgostosa de si por tamanho inequívoco gosto, disse enfim...

- Eu preciso ir...

- Mas já?

- Já é tarde...

Rodrigo novamente olhou bem dentro dos seus olhos.

- Não quer uma carona?

Outro golpe duplo. Triplo. Trava. Tranco.

- Obrigada! Eu estou de carro!

Com a mão que não segura o copo de que ele bebe, Rodrigo segura uma das dela, que já deixou o de que bebia sobre uma mesa ali ao lado.

- E amanhã?

Novo olhar. Adrenalina. Progesterona.

- Amanhã o quê?

- Amanhã é sábado! Você vai fazer alguma coisa? Tem algum compromisso?

Ela não larga a mão dele. Rasgando-se ao meio, sente que algo aconteceu, algo está acontecendo, ou que, pior, algo inevitavelmente acontecerá. Mas não. Não. Culpa. Ela não pode. Jamais lhe passou pela cabeça. Diz a ele enfim...

- Escuta, eu...

Pára. Hesita. Luta. Rasga-se.

- Você...?

Cola-se.

- Eu sou casada!

"Casada" é a penúltima palavra entre ambos dita naquela noite. Um segundo, dois, três e, após fazer o seu copo igualmente descansar sobre a mesma mesa, Rodrigo, sem largar a mão de Natália que segura, com a outra agora livre a envolve por trás da cabeça. Cabelos, nuca e, aproximando seu rosto do dela, beija-a terna e lentamente na bochecha esquerda. Ela sente os lábios quentes, a pele grossa da barba de um dia, e arrepia. Culpa, Rio, rasgo, saliva.

Os rostos se afastam. As mãos enfim se soltam. Olhar. Olhar. Olhar. O perigo retrai. O perigo atrai. Pecado, culpa, dúvida. Adulterar, adulta, trinta, adultério. Natália não diz nada. Vira-se e se põe a ir para sempre. Um passo, dois, e ela ouve a entre ambos última palavra da noite...

- Espera!

Natália pára. Rasga-se de novo. Hesita. Voltar ou não ao que acaba de deixar para trás para sempre? Rasgada, volta. Ao menos uma das suas metades volta-se e olha. Rodrigo leva a mão ao bolso e tira a carteira. Apanha um cartão e o estende.

Novamente ela se rasga. Quer pegar o cartão e não quer. Quer e não quer querer. Quer e não quer querer não querer. Pegar? Não pegar? Pegar e rasgar? Não pegar e rasgar-se?

Natália baixa os seus olhos. Não volta a olhar diretamente nos de Rodrigo. Apanha o cartão e, mesmo ainda pensando em rasgar-se e o rasgar, mete-o na bolsa. Sem dizer nada, vira-se e se vai. Apressa o passo. Some festa adentro e, despedindo-se de Carolina, em seguida, festa afora. Adrenalina, adultério, culpa. Progesterona, umidade, medo. Testosterona, cartão, ereção.

Gugu Keller

8 comentários:

  1. Este livro está incrível. Indubitavelmente incrível. Apaixonantemente incrível. Incrivelmente incrível.
    Toca lá dentro, lá no fundo, e deixa sem ar.
    Obrigada por esse prazer!
    Beijos.

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  2. Nossa! Obrigado! Nem sei o que dizer... Esforçarei-me ao máximo para que vá assim até o final!
    GK

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  3. Obrigado, Yasmim! Amanhã, dia 2, escrevo o nono!
    GK

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  4. aiaiai Esses analistas de sistema... Eu como computeira sei como eles são, são doces, fofos, de um jeito q falar não parece até errado, falta de educação rs
    Mas um conselho de Naty pra Naty: Não traia e se trair tenha certeza q não vai sentir culpa. Arrepender até pode, mas não essa culpa q corrói...
    Estou amando!

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  5. hehehehe... Obrigado, Natália! Mais tarde, ainda hoje, escreverei o nono capítulo... Apareça para ler!
    Bj!
    GK

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  6. A sua escrita é fantástica! O seu livro será um sucesso!
    "Quer e não quer querer"

    Estou adorando :)
    Beijo
    Sónia

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  7. Obrigado, Sônia! Darei o meu melhor para que continues gostando até o final...!
    GK

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