sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A Esquina - Capítulo 10

Como se fosse o primeiro de uma longa vida dele à espera, ou o último de uma por ele em completa quimera, Natália entrega-se ao beijo quente e molhado de Rodrigo. De um modo que jamais concebeu-se capaz de ao que quer que seja se entregar, entrega-se. Definitivamente, pensa, nem à polícia, a deus ou às drogas, jamais ninguém se entregou assim. Entrega, entranha, rasgo, rendição. Coração a gangorrear, ela alterna sentir sua alma pela boca fugir rumo à dele com com a dele voltar de mãos dadas no rumo da sua. Sente. Boca, bocas, baque, batida. Lábios, lascívia, loucura, saliva. Barba, bebida, buzina, explosão.

Conforme, após apertar-lhe os ombros, com ambas as mãos ela a puxa para baixo, Rodrigo os braços abaixa e, beijando-a, da camisa, em que agora quase pisa, livre eis enfim. Sem que as bocas se desgrudem, todo nu ele então a apalpa nas nádegas, e com carinho as envolve, e revolve, explora. Beijando-o, o glúteo tomado de arrepio, Natália de novo o aperta nos ombros, e o alisa nas costas, e já o tem pelo pescoço, cabelos, nuca, e pele, e pêlos. E beijo. E beijo. E beijo. Mil beijos num só. Só num beijos mil.

Dois minutos, três, cinco. Acima lá vêm as mãos de Rodrigo. Nádegas, cóccix, dedo médio na fenda. Vêm, vêm, vêm, vêm. Rins, rio, rumo, chakra. Trinta, Rio, risco, cartão. Vêm, vêm, vêm. Sutiã, dedo médio no fecho. Tenta, tenta, alisa. Outra mão, dedo médio, dedão. Abriu, saiu, caiu. Peitos, sutiã, chão. Alisa, quase pisa. Beijo, línguas, labareda. Lábios, loucura, mansidão.

Natália se deita na cama de braços abertos. Flutuando sobre o lençol, sente um estranho paradoxo, mistura de acabar de nascer com enfim chegar lá. Não, não sabe se está nascendo, ou renascendo, ou diante de uma morte que enfim leva tudo ou enfim tudo traz. Quando Rodrigo, após ambos trocarem um olhar como só entre vesgos, leva as mãos às alças laterias da sua calcinha, ela vê da janela da sua vida em chamas os bombeiros chegando, e correndo, e gritando, e subindo, e salvando. E as mãos dele puxam. E puxam. E puxam. Vagarosamente puxam. Milímetro, milímetro, pele, pêlos. Vão, vão, vão, vão. Vão, verbo ir. Vão a se abrir. Terceira campainha. Atores a postos. A cortina se move. Luzes. Escuro. Música. Silêncio. Na luz do escuro, a música do silêncio. E Natália sente. Sim. É possível. Não. Não é como ela, lembra-se bem, com tanta emoção disse à dra. Ana Clara. É possível, sim, abrir-se a ponto de, nu a bater, exibir o coração. Descortinar. Ei-la, Natália, cinco anos depois do pesadelo, 20 de julho de 2003, 19 de julho de 2008, como se se levantasse de uma cadeira de rodas e caminhasse rumo ao céu, a poucos milímetros de exibir, via vagina, para todo o mundo, Rodrigo é o mundo, nu a bater, o seu tão ao mesmo tempo forte, frágil e febrilento coração.

Gugu Keller

6 comentários:

  1. Tudo, muito, além do que se pode descrever, além do que se pode imaginar...
    Existe!
    É real.
    É vida e quase morte.
    Som,silêncio,sinos...
    Dança.
    Entrega.
    Imensidão.
    Sorrisos.

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  2. Que lindo, Cris! Obrigadíssimo!
    Não sei se vc está acompanhando a história desde o começo... Se estiverou se passar a acompanhar agora, teus comentário, críticas e sugestões serão muito bem-vindos!
    GK

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  3. Sem palavras. Incrível. Incrível. Tento de todas as formas falar, mas minha mente se cala admirada e minha boca tem de concordar.

    Beijos

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    1. Muitíssimo obrigado, Manoela!
      Não imaginas o quanto os teus comentários têm me incentivado na continuidade deste trabalho...!
      Beijos!
      GK

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  4. Gugu, estou te acompanhando, adoro a forma sensível,ácida e quente como escreve.As palavras são poucas...

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