sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A Esquina - Capítulo 11

Quando, na quarta-feira, 23 de julho, três dias após o acidente, Natália, com uma perna fraturada e ainda vários hematomas pelo corpo, recebeu alta do hospital, seus familiares já haviam se reunido e decidido não lhe dar as duas notícias de uma vez, até porque, como ponderou o médico que a atendeu, ela possivelmente sequer se lembraria com clareza, ao menos por algum tempo, de todo o acontecido, ou como tudo aconteceu. Assim, num primeiro momento, acordou-se, ela "apenas" ficaria a par da gravíssima situação do marido. 

Sentada numa confortável poltrona, com o pé engessado a descansar sobre um apoio posto para tanto diante de si, eis Natália, com o rosto ainda bastante inchado e sob o indispensável efeito de um calmante, cercada por seus pais, um tio, uma tia e sua grande amiga de faculdade, Carolina. Com muito jeito, a cuidadosamente escolher as palavras, seu pai introduziu o quanto havia de ser dito...

- Natália, minha querida... Nós precisamos conversar um pouco com você...

Com um olhar de ainda confusão, ela assentiu com a cabeça. Ele continuou...

- Você se lembra, minha filha, do que aconteceu na madrugada de sábado para domingo?

Pausa. Natália deixa correr uma lágrima e se mostra aflita. A mãe lhe acode a acariciar a cabeça. Ela meio que balbucia...

- Eu... Eu lembro de uma festa... Eu... A gente foi embora... Aí, eu não sei... Eu lembro de uma luz piscando...

Sempre falando devagar e com tanta doçura na voz quanto lhe é possível, o pai de Natália segue...

- Minha querida... Houve um acidente.

- Um acidente? Que acidente?

- Talvez devamos esperar um pouco mais para termos essa conversa com ela... - intervêm preocupada a mãe.

- Não! Eu quero saber! Que acidente foi esse? - insiste ela mostrando emergir depressa do estado de confusão em que ainda estava.

Seguiu o pai...

- Você e o Fernando estavam voltando para casa depois da festa...

- A festa! Sim, eu me lembro... Estávamos na festa, sim!

- A festa do Dudú, Natália! Lembra? - ajuda Carolina.

- A festa do Dudú! Sim, eu me lembro! Foi ontem, não foi?

- Não, querida! - continua o pai. - A festa foi no sábado à noite! Hoje já é quarta-feira!

- Quarta-feira? Que horas são?

- Cinco da tarde agora, Natália! - participa o tio.

- Cinco da tarde? Então eu devia estar trabalhando...

- Não, querida! - diz de novo o pai. - Lá no teu trabalho eles sabem que você está descansando, que está se recuperando...

- Sim! - acrescenta a mãe. - Estão todos torcendo para que você logo fique boa...!

Pausa. De repente, Natália se agita...

- Mas e o Fernando? Ele estava comigo, então? Não estava?

Todos se entreolham.

- Sim, querida! - diz-lhe o pai. - Vocês estavam voltando para casa depois da festa...!

- E então a gente sofreu um acidente?

- Sim, meu amor! - responde a mãe dela. - Infelizmente! Um grave acidente!

- E onde ele está? Onde está o Fernando?

Pausa. Responde o pai...

- Ele está num outro hospital, Natália.

- Mas ele está muito machucado?

Todos novamente se entreolham.

- Minha filha... Você vai precisar ser muito forte...

- Por que, pai? O quê que aconteceu com o Fernando?!?

Pausa. Nervosismo. Hesitação.

- Fala, pai! O quê que aconteceu com ele? Foi nesse acidente que sofremos?

- Sim, querida. Foi nesse acidente...

- E como ele está? Me fala, pelo amor de deus!!!

Outra pausa e ele diz enfim...

- Querida... O Fernando não vai mais poder andar...!

- Como é??? Não vai mais poder andar???

- Não, querida! Ele não vai mais poder andar e nem fazer muitas outras coisas...! Ele está tetraplégico!

Gugu Keller

12 comentários:

  1. Coitada... É a sina: quando tudo está bem ou está ficando bem, algo estraga tudo. Rotina da vida. Ou ainda, quando não está ruim o bastante pode piorar...
    Que horror, o que resta para uma mulher como a Natália, o que resta? O que resta? Fico muito aflita por ela. Situações assim são insuportáveis. E não duvido nada que ainda venham mais notícias ruins por aí... Até porque, ainda tem uma outra notícia que os pais de Natália resolveram contar depois. O que vale mais, um tiro de uma vez só ou duas facadas vagarosas?
    A trama toda está incrível! Espero ansiosa pelos nós a juntar as pontas.

    Beijos!

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  2. Atente, Manoela querida, para o fato de que a trama tem um cronologia que não é linear. Se vc observar as datas citadas, verá que o acidente ocorreu cinco anos antes da relação sexual que ela está tendo com Rodrigo. Agradeço-te, inclusive, se vc puder me dizer se isso está muito difícil de se perceber ou não. De todo modo, há no texto um intuito de ser meio que um quebra-cabeça que apenas no fim se montará, entende?
    Bjs! Obrigado!
    GK

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    1. Sim, é claro que estou acompanhando as datas e percebendo o quanto é quebra-cabeça o livro, tanto é que disse estar ansiosa pelos nós que virão juntar as pontas. Parece que tem muita coisa ainda que precisa se encaixar e eu gosto disso!

      Beijos!

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    2. Legal que vc goste! Eu também adoro isso! De todo modo, para facilitar a compreensão, passou-me pela cabeça a idéia de pôr no início de cada capítulo a data em que ele se passa... O que vc acha?
      GK

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    3. Facilitaria bastante a compreenção, embora algumas vezes não haja necessidade disso. Mas acho que seria positivo.

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    4. Vou pensar com calma a respeito!
      Obrigado!
      GK

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    5. Por ora, Manoela, vou manter como está, até porque o fato de ser um texto quebra-cabeça faz parte do seu charme. De todo modo, deixarei a idéia guardada. Se adiante for o caso, eu a experimento...
      Obrigado!
      GK

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  3. Igualmente te agradeço, minha amiga! Não se vc está acompnhando o "A Esquina"... Em caso positivo, serão muito bem-vindos teus comentários, críticas e sugestões!
    GK

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  4. Forte esse capítulo! Vai-se desvendando as culpas posteriores.

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