sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A Esquina - Capítulo 12

Mesmo desde logo disposta a seguir o conselho do dr. Clóvis, Ana Clara levou seis sessões, ou seis semanas, para apurar junto a Andréa informações que pudessem confirmar que o amante desta, Gladston, era, de fato, como ela suspeitava, o seu cunhado. É que durante cinco sessões o travesti falou muito sobre a sua infância, a sua família, sua opção por tornar-se o que é e o quanto para tanto enfrentou, e, como Ana Clara, ainda que extremante ansiosa a respeito, tenha, talvez numa atitude inconscientemente defensiva, evitado forçar qualquer coisa, apenas nesta sétima sessão ele voltou a falar sobre a aids e sobre o seu relacionamento com o tal Gladston, "Glad", como agora revelou intimamente o chamar, e, desgraçadamente para a psicóloga, em poucos minutos não restaria nenhuma dúvida quanto ao que se buscava confirmar...

Primeiro, ao, como calhou, descrevê-lo fisicamente, Andréa falou sobre a cicatriz que Gladston tem no rosto, fruto de uma navalhada que levou durante uma briga na adolescência. Falou também sobre o cavanhaque que usa, a pequena calva no cocuruto e, de quebra, ainda mencionou o carro que possui, um gol preto com rodas rebaixadas e teto solar.

Ademais, como se não bastasse, para liqüidar de ver com qualquer dúvida que, numa eventual tentativa de tapar o sol com a peneira, o psicológico de Ana Clara ainda pudesse ter, Andréa disse-lhe enfim...

- ... e sabe, doutora, uma coisa que é uma coincidência muito louca, que eu pensei desde o primeiro dia em que vim aqui?

- O que, Andréa?

- É que a mulher dele tem o nome muito parecido com o teu!

Tremendo por conta do quanto já fôra dito, Ana Clara, apesar do providencial efeito do ansiolítico, sentiu um seco pontapé de adrenalina na boca de seu estômago.

- Então você sabe até o nome da mulher dele?

- Sim! Sabe como é?

- Hum?

- Ana Cláudia! Quase igual ao teu, né?

Ana Clara sentiu seu corpo reagir como jamais antes. A descarga de stress foi tamanha que ela teve a nítida sensação de que desmaiaria. Instintivamente sua mão foi trêmula em busca do copo d'água na pequena mesa ao seu lado e o levou à sua boca. Andréa ainda falava mas Ana já não ouvia. Tremia, suava, sumia, surtava. E o travesti falando já sobre como Gladston, desde a primeira vez, insistiu em não usar camisinha, propondo-se inclusive a, para isso, pagar em dobro o valor do programa. Apenas quando dos olhos já rubros da terapeuta rolou um par de lágrimas, foi que Andréa percebeu que algo estava errado.

- Doutora... Doutora... Você está bem? - disse Andréa a Ana Clara indo já da sua poltrona nela. 

- Desculpe... Não é nada! Você se importa se continuarmos na semana que vem? Eu não vou te cobrar esta sessão... - disse Ana tentando se controlar o quanto possível, já com o travesti a atenciosamente segurar-lhe uma das mãos.

- Claro! Tudo bem! Mas o quê que aconteceu? Você está se sentindo mal?

Chorando, Ana Clara olhou no fundo dos olhos acolhedores e preocupados de Andréa, por quem já tinha muito do enorme carinho que nutre por todos os seus pacientes e, após pensar por alguns segundos de um ainda pequeno oásis de lucidez no meio de seu enorme deserto de desespero, disse-lhe como desculpa...

- Desculpe, Andréa! É que o meu gato morreu ontem...!

Às lágrimas e soluços, Ana Clara sentou-se ao volante de seu carro e pôs-se a dirigir. Rumou para sua casa mais por reflexo condicionado do que por o decidir. Sim, ia mas, não, nem sabia. Dirigia. Apenas dirigia. Câmbio, acelerador, rua, esquina. Dirigia. E chorava. Na sua mente, já não pensamentos, mas retalhos, imagens, referências. Medo, desespero, abismo. Foice, foi-se, fim. Câmbio, acelerador, farol vermelho. Dr. Clóvis, primeiro confirmar, não pode. Sigilo, ética, código. Normas, dogmas, ansiolítico. Conselho Regional de Psicologia. Câmbio, acelerador, espelho retrovisor. Ah, minha pobre irmã, como eu te amo! Ah, Gladston, seu filho da puta, como eu te odeio! Eu nunca gostei de você e eu estava certa! Eu te odeio, seu puto! Seu imbecil irresponsável! Sua bicha enrustida! Ah, Gladston Celso de Arruda, como eu te odeio! Glad, né? Filho da puta! Com todas as minhas forças te odeio! Também te odeio, dr. Clóvis! É! Odeio todos vocês! Odeeeeeeeeeio!

Ana Clara entra em casa e acende a luz da sala. De medo e nervoso, sente-se bêbada e drogada. Joga a bolsa sobre o sofá e, quase sem sair do lugar, anda em círculos. Parada, mexe-se. Três segundos, cinco e decide. Vai até o telefone. Começa a discar. Desiste. Pára. Vai até a garrafa de uísque e serve num copo. Gole. Volta ao telefone. Pega. Disca. Desiste. Pára. Bebe. Anda. Pára. Volta. Outro gole, meio copo. Se pudesse, sente, seria uma bomba e explodiria. Granada auto-deflagradora. Senta-se. Levanta. Gole. Mata o copo. Vai servir mais. Pára. Bebe no gargalo. Pensa em Andréa, ou João Felipe, que fez hoje a sétima sessão, e depois em Natália, paciente nova, que ontem fez a terceira. Sim. Horários todos tomados. Ela está indo bem. Mas e daí? Ela agora odeia tudo. E todos. E bebe. E anda. E tropeça. Apóia-se na estante de livros. Sente-se zonza. Chora. Puxa-os, quase todos de psicologia, e os joga no chão. Livros. Ama-os tanto. E agora os odeia. Anda para trás e tropeça de novo, mas cai sentada no sofá. Chora. Treme. Quer pedir socorro mas não tem a quem. O dr. Clóvis? Odeia-o. Polícia? Bombeiros? Resgate? Levanta. Garrafa. Bebe. Olha para as três caricaturas na parede. Chora, bebe, olha e mira. Um segundo, dois, três e voa a garrafa na direção de Freud. Barulho. Cacos. Da garrafa e do quadro, cacos. Tontura, loucura, abismo. Ela avança contra a segunda caricatura e, de mão fechada, esmurra a cara de Jung. Mais cacos. Sangue. Uísque. Eis Lacan, o terceiro, ao lado dela na parede. Ela o arranca e ei-lo a voar na direção do bar. E outra garrafa, esta de vinho, eis também com o quadro em cacos. Uísque, vidro, sangue, vinho tinto. Lágrimas, líqüido, luto. E Ana chora. E chora. E chora. E cai de joelhos sobre os livros no chão. E chora. E sua mão direita sangra. A manchar um livro sobre a ética na prática clínica, sangra. E chora. E sangra. E chora. E sangra. E, quando, após alguns instantes, alguém toca a campainha, ainda chora. E ainda sangra.   

Zonza e cambaleante, mas agora mais com medo do dr. Clóvis do que a o odiar, Ana Clara se levanta e vai à porta. Abre e dá com sua vizinha, dona Helena, que, preocupadíssima, e de pronto ainda mais por a ver naquele estado, pergunta...

- Ana Clara! Pelo amor de deus! O que é que está acontecendo?!?

Como se eles fossem o confortável passado de até sete semanas atrás, Ana Clara joga-se nos braços da vizinha, que, atônita, cada vez mais preocupada e sem outra opção, corresponde-lhe com calor ao abraço. E Ana Clara a abraça forte. E lhe molha o ombro esquerdo de lágrimas. E de sangue mancha-lhe a roupa no direito.

- O quê que foi, minha filha? O quê que aconteceu? - insiste dona Helena.

De novo pensando no dr. Clóvis, e de novo dele com mais medo do que ódio, Ana Clara mente pela segunda vez em menos de uma hora. E novamente é uma mentira em que ela mata...

- Um amigo meu... Um grande amigo meu...!

- O quê que tem o seu amigo, Ana Clara?

- Morreu, dona Helena! Morreu!

- Morreu como?

- Um acidente, dona Helena! Bateu o carro numa esquina e morreu!

As duas se abraçam. Ana chora. E sangra. E sequer imagina o quanto foi auto-profética.

Gugu Keller

4 comentários:

  1. Obrigada você por estar sempre presente, eu posto o que me agrada, e muitas das tuas frases me fazem esses agrados.
    Ótino final de semana.

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