sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A Esquina - Capítulo 13

Rasgos de si, Natália dirige. Ruas, esquinas, luzes, faróis. Festa, Camila, espelho retrovisor. Culpa. Como nunca antes em sua vida, culpa. Como, já, para sempre doravante, culpa. Dirige. Ruas. Ri de si mesma em silêncio e, em silêncio, por si mesma chora. Ri. Ridículo. Ridícula. Mas não, não pode negar. O cartão dentro da bolsa ao seu lado sobre o banco do carona ainda a rasga. Ela ainda não o rasgou como pretende e, por conseqüência, sim, ele ainda a rasga. É claro, já está mais do que decidido, que jamais voltará a ver o tal Rodrigo. Perguntar sobre ele para Camila? Nunca. Impensável. Ligar para o número do cartão? Jamais. Inconcebível. Natália pensa em Fernando, a trabalho ainda no Rio, e, não, nunca, sempre, é ridículo, sim, rasgar-se assim.

Um cruzamento. Dois, três. Farol vermelho. Natália decide. Sim. Tirar o cartão da bolsa e o jogar pela janela do carro. É feio jogar um papel assim na rua, mas não importa. Precisa, decide, livrar-se daquilo. Até porque sequer o leu, ou seja, não teria como gravar o número mentalmente, como, apenas em seu mais profundo íntimo, deseja, basta rasgá-lo e eis em si a costura para o rasgo. E, sim, dadas as circunstâncias do momento, jogá-lo pela janela sem dúvida equivale a o rasgar. Tanto ela fez por seu casamento, que não o quer, o casamento, pela janela por causa de um desejo repentino por um homem tão claramente pretencioso. Não. Loucura. Sim. Decide. Abre a bolsa e procura. Dois, três, cinco segundos. Não acha. Dez segundos. Nada do cartão. Natália pensa em jogar tudo o que há na bolsa sobre o assento do carona. Nervosa, procura. Ou tudo já direto pela janela. Nervosa loucura. Não. Controla-se. Com a mão no fundo da bolsa, ainda procura. Doze segundos. O farol abre. Natália não anda. O carro parado atrás dá um sinal de luz alta. Natália não anda. O carro atrás buzina. Natália se assusta e, desistindo por ora de procurar o cartão, toca adiante. Ruas, Rodrigo, rasgos. Riso, ridícula, espelho retrovisor.

Indecisa, Natália decide não decidir. É, voltou atrás. Jogar fora o cartão? Para quê? Não está nem aí para esse Rodrigo mesmo! Sujeito presunçoso, convencido, arrogante... Pensa o quê? Que pode seduzi-la, uma mulher bem casada com ela, em questão de alguns minutos? Nunca. Ridículo. Em casa, Natália esvazia a bolsa. É uma bolsa mais para festas, não a usa sempre. Já não rasgada, ou, ao menos, com cuspe colada, ela tira a carteira, o estojo de maquiagem, o pequeno pacote de absorventes íntimos e o que mais há ali. E eis finalmente o cartão. Jogá-lo fora? Rasgá-lo? Para quê, se é tão inofensivo? Perdida a para si mesma fingir-se no caminho, Natália defende-se atacando. Já não indecisa, decide com decisão. Simplesmente não tira o cartão da bolsa. Guarda-a, isso sim, no armário respectivo, apenas com ele dentro dela, como se, numa paradoxal distração proposital, simplesmente o esquecesse ali. Defendendo-se depois de já atacada e derrotada, a seguir Natália entra no banheiro para lavar o rosto, mas, decerto para não se ver em tantos pedaços, não chega a encarar o espelho sobre a pia.

Fernando chegou do Rio na tarde de sábado e, meio a contragosto da esposa, preocupada com o fato de ele ter engordado visivelmente nos últimos meses, ambos foram jantar com outros três casais, dois dos homens e uma das mulheres colegas profissionais de Fernando, numa churrascaria. Empanturrado de tanta carne, ele mais tarde o usou como desculpa para não fazer sexo com ela naquela noite, e Natália adormeceu no escuro após três horas o ouvindo roncar enquanto, nos intervalos no barulho, parecia ecoar em seu íntimo...

- Amanhã é sábado! Você vai fazer alguma coisa? Tem algum compromisso?... Amanhã é sábado! Você vai fazer alguma coisa? Tem algum compromisso?... Amanhã é sábado! Você vai fazer alguma coisa? Tem algum compromisso?

Quando, na manhã de domingo, oito dias após ter acontecido pela última vez, Fernando está sobre a esposa a penetrá-la, ele agora já menos a penetra do que a rasga. Sim, não, ela não está ali. Muito menos lubrificada do que outrora, ele o sente mas não ousa comentar, a penetração é muito menos intensa, muito menos densa, muito menos prazerosa. É quase uma dor, e não, seca, árida, ela já não está ali. Quando encara o marido, que às vezes a beija, Natália sorri, ou apenas mostra os dentes. Quando escapa e pode olhar para o nada por sobre um dos ombros dele, descobre que sabe sorrir às avessas, e, se mostrasse os dentes, seria apenas para morder a si mesma de tanta culpa. Rasgada na vagina e no que imagina, resta a Natália fechar os olhos, enquanto é agora uma outra frase que ecoa em seu íntimo, esta sim, dita com um lindo sorriso, possivelmente o mais belo que ela já viu...

- Eu não imaginava que a minha prima tivesse uma amiga tão linda...

São dez da noite ainda deste domingo quando, tendo Fernando ido agora jogar sinuca na casa de um amigo, Natália, mais do que rasgada, picotada por dentro, abre o armário, vai à bolsa e apanha o cartão. Lê. O nome inteiro de Rodrigo e um número que, pelos algarismos iniciais, parece-lhe ser de um celular. Pensa. Hesita. Culpa-se. De culpa, catapulta-se. Um rio de incerteza passa pelo agora largo rasgo dentro dela e deságua aquoso em seu já vasto oceano de indecisão. No seu celular, ela digita o primeiro dos oito algarismos e pára. Depois chega ao segundo e novamente aborta. No total, começa dezesseis vezes sem chegar ao fim, até que, com o coração a bater forte, o perigo retrai, o perigo atrai, disca o número todo e deixa tocar. Um toque, dois, três...

- Alô!

Natália estremece. Sim, reconheceu a voz. Coração. Culpa. Gostou e não gostou de ter gostado. Não diz nada. Dois segundos, três, quatro. Rodrigo diz de novo...

- Alô!

Silêncio. Ela não diz nada. Quatro segundos, cinco seis, até que, para ao mesmo tempo assustá-la e definitivamente a conquistar, ela o ouve dizer...

- Natália? É você?

Ela desliga sem dizer nada. Fecha os olhos e sente-se trêmula. Depois os abre e olha para o cartão. Fecha-os novamente enquanto, quase que modo inconsciente, encosta-o, por sobre a calcinha que sob uma saia usa, em sua vagina rasgada.

Rodrigo ouve que ela desligou. Com convicção, registra o número em seu celular como sendo o de Natália. Possivelmente, pensa, se ela não ligar de novo, ele tente ligar para ela ao cabo de alguns dias. Mas não. Engana-se. Já no dia seguinte, segunda-feira, ele receberia um outro telefonema, de uma outra pessoa, que mudaria muitas coisas em sua vida.

Gugu Keller 

2 comentários:

  1. Agora lendo um após o outro estou encantada! Parabéns tua escrita é instigante, é verdadeira, é livre... amanhã continuarei deste capítulo.

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  2. Obrigado mais uma vez, minha amiga!
    GK

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