sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A Esquina - Capítulo 9

Psiquiatra e psicólogo, homem culto, inteligente e, acima de tudo, experiente, supervisor de todos os atendimentos de Ana Clara, o dr. Clóvis atentamente a ouviu narrar tudo quanto se passou desde que, quatro dias antes, o paciente João Felipe Cordeiro dos Santos, socialmente Andréa, adentrou o seu consultório. Pensativo, antes de dizer qualquer coisa, ele a ela estendeu uma caixa de lenços de papel, vez que lágrimas vinham-lhe aos olhos. As mãos trêmulas se serviram de um punhado e, com o nariz tomado de vermelhidão, Ana enxugou-se o quanto possível. Sempre sensato e equilibrado, a ela ele disse enfim... 

- Vamos tentar manter a calma e dar um passo de cada vez!

Ana Clara busca forças numa profunda inspiração. Expira também com intensidade e assente com a cabeça. O dr. Clóvis acrescenta...

- A primeira coisa a fazer, Ana, é confirmar a situação...!

- Confirmar?

- Sim! Confirmar que o Gladston, amante da Andréa, é o mesmo Gladston, teu cunhado! É claro que, como você disse, pelas informações que já tem e sendo esse nome, Gladston, tão incomum, tudo leva a crer que sim... Mas, enquanto não tivermos certeza, não faz sentido pensarmos em nada...! Concorda?

- Sim! Você está certo! Mas como teremos essa certeza?

- Conforme a Andréa for falando nas sessões, vá colhendo mais informações... Quem sabe ela diz como ele é fisicamente, como se veste, que carro tem...

- Entendi. Mas vou ser sincera com você, Clóvis... Estou com medo de não conseguir...

- De não conseguir o quê?

- De não conseguir continuar atendendo normalmente a Andréa, como se nada estivesse acontecendo... Afinal, eu não posso deixar transparecer para ela este estado de tensão em que me encontro...

- Você vai ter que ser forte, minha querida! Muito forte!

Pausa.

- Eu pensei em te pedir alguma coisa para tomar... Um ansiolítico! Ao menos para que eu consiga dormir...

- Eu vou te dar!

O dr. Clóvis começa a escrever uma receita. Ana Clara novamente respira fundo angustiada. Leva as mãos abertas com as palmas juntas diante de sua boca e comenta, meio que para si mesma, meio que para ele...

- E ainda essa coincidência da Ana Cláudia ter feito esse exame por causa do amigo...! Que ironia, meu deus! Que situação mais absurda!

- Que bom que ela não está contaminada!

- Sim! Claro! Mas é como se isso aumentasse a minha responsabilidade, entende?

Entregando-lhe a receita, ele declara peremptório...

- Você não tem nenhuma responsabilidade, Ana Clara!

Ela apanha o papel. Suas mãos ainda tremem e ela não consegue segurar uma nova lágrima quente e ácida que lhe brota de um dos olhos. Corroída de ansiedade, de novo meio para si e meio para ele, deixa escapar uma pergunta àquela altura já quase sem sentido...

- Se for ele, Clóvis... O quê que eu vou fazer?

Com um olhar que mistura uma profunda compaixão, fruto do enorme carinho que tem por ela, ao seu gigantesco senso de seriedade profissional, o psiquiatra diz a Ana o que ela já sabe mas claramente precisa dele então ouvir...

- Se for ele, não sabemos ainda o que fazer! Mas sabemos, dra. Ana Clara Wilson, o que não podemos fazer!

Ela entende de pronto a clara alusão à indeclinabilidade do sigilo profissional do psicólogo. Como uma frágil folha de receituário, ou um pequeno cartão de visita, sente-se ser rasgada ao meio pelas inconsenqüentes mãos de um destino injusto e cruel. Chora.

- Meu deus! É simplesmente a vida da minha irmã que está em jogo...!

Seríssimo, observa o dr. Clóvis...

- E simplesmente é também a tua carreira, pela qual você tanto lutou, que está em jogo!

Ana Clara ouve aquilo e chora mais. Chora um choro há quatro dias contido, que, com lágrimas e fluídos nasais, qual lava de um vulcão agora incontrolavelmente se faz liberar. Resta ao dr. Clóvis voltar a lhe dizer...

- Um passo de cada vez, Ana! Primeiro vamos confirmar...

Enquanto uma lágrima passa ao lado do seu queixo e já lhe escorre pelo pescoço, Ana Clara outra vez assente com um leve gesto de cabeça. E chora. E chora. E respira fundo.

Gugu Keller

8 comentários:

  1. Coitada da Ana Clara que dilema!
    Esta cada vez melhor!
    bj

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  2. Obrigado mais uma vez, Yasmim! Mas diga-me... O que vc acha que ela deve fazer? Ou, melhor ainda, o que vc faria se fosse ela?
    Bj!
    GK

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  3. Me agradou muito este Dr. Clóvis!
    Muito emocionante toda a situação... Está ótima, estou adorando!

    Beijos!

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  4. Obrigado!
    E vc? O que faria no lugar da Ana Clara?
    Beijos!
    GK

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  5. GK, perdoe a ausência. Hoje vim colocar a leitura em dia...
    Gostei particularmente deste capítulo...vou seguir lendo.

    Deixo um beijo
    Sónia

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