sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A Esquina - Capítulo 14

Pensativo e preocupado, com uma feição extremamente séria, o dr. Clóvis encarou Ana Clara por vários segundos antes de dizer qualquer coisa após o que dela ouviu. Com uma expressão de quem agora chora seco por ter exauridas as glândulas lacrimais, sentada numa cadeira diante da mesa dele, ela lhe devolve à altura o pesado do olhar. Finalmente, sem a julgar em sua decisão mas buscando fazer com que ela ao menos não se precipite, ele pergunta...

- Você tem certeza?

Pausa e, segura em sua areia movediça, ela responde...

- Sim, tenho! A decisão está tomada!

Ele pensa um pouco mais. Como se cada palavra pronunciada fosse um mover de peça num tabuleiro de xadrez, fala devagar...

- Bem... Eu não preciso te dizer nada quanto às eventuais conseqüências dessa tua decisão...

- É claro que não, Clóvis! Você sabe que eu estou perfeitamente ciente! Mas eu não tenho escolha, entende? Ou faço isso, ou enlouqueço...!

De uma jarra incolor posta numa bandeja sobre a sua mesa, o psiquiatra/psicólogo serve água em dois copos. Estende um para ela, que o apanha de bom grado, e depois do seu toma um gole.

- E quando você pretende falar com ela?

Ela também bebe.

- O quanto antes! Hoje, se for possível!

- Não quer pensar um pouco mais?

- Não posso, Clóvis! A vida dela está em jogo!

- Veja bem, Ana Clara... Eu não estou censurando a sua decisão! Você é suficientemente madura e esclarecida para saber o que faz! Eu apenas não quero que se precipite...

- Eu sei, Clóvis! Eu entendo e agradeço! Mas o problema é que, cada vez que ela faz sexo com aquele maldito, ela está exposta a se contaminar... Você entende isso? Um dia pode fazer a diferença! Teve aquela absurda coincidência dela ter feito o teste para acompanhar o amigo, lembra que eu te contei?

- Claro!

- Pois então... Isso faz seis semanas, e ela não estava infectada! Ou seja, não há tempo a perder!

- Entendi, Ana Clara... Entendi...

Sempre pensativo, o dr. Clóvis bebe. Já quase liqüida o copo. Pausa e, diante da firme decisão de Ana Clara de passar por cima do sigilo profissional e contar à irmã sobre o relacionamento entre Gladston e o travesti, ele decide abordar um outro aspecto da questão...

- Quando será a próxima sessão com a Andréa?

- Eu estive com ela anteontem... Daqui a cinco dias!

- E como você vai proceder com relação a ela?

Pausa. Ana Clara se sente extremamente desconfortável. É como se se lembrasse, não que o tivesse esquecido, do enorme problema que tem acessório ao problema gigante. Expira.

- Eu ainda não sei, Clóvis... Sinceramente, eu ainda não sei...

Ele olha. Não diz nada. Ela continua...

- Não sei se vou contar para ela... Se não vou... Se vou continuar a atendê-la... Se invento uma desculpa para não continuar... Também não sei exatamente como a Ana Cláudia vai regair quando eu der a notícia... Ela vai ficar desesperada e eu não sei se ela vai conseguir omitir do Gladston que soube de tudo através de mim... Eu não sei, Clóvis... Sinceramente, eu não sei!

Faz-se uma pausa longa. O dr. Clóvis novamente encara a sua amiga e discípula, que, desta vez, não lhe retribui o olhar, mas, dando um gole em sua água, olha para o chão. Ele diz afinal...

- Tá certo, Ana! Se você decidiu contar para a sua irmã, vá e faça isso! Com relação ao atendimento, depois você pensa com calma no que fazer... Vai ser tão difícil o que você vai passar quando puser a Ana Cláudia a par de tudo, que não faz mesmo sentido você decidir isso agora...! No momento certo, você decide... É o mais sensato! Um passo de cada vez!

- Sim! É isso! É o que eu vou fazer!

Contudo, já que se há algo em que o destino é profícuo é em caprichos, o celular de Ana Clara toca e tudo repentinamente começa a mudar de rumo com relação ao que ela com tanto dilema e sofrimento decidira. Pelo visor do aparelho, ela vê que é justamente sua irmã quem chama...

- É ela, Clóvis! A Ana Cláudia!

Atende.

- Alô!

Susto.

- Claudinha??? Mas o quê que foi??? O quê que você tem???

O dr. Clóvis sente o problema e acompanha preocupado. Ana Clara olha para ele enquanto fala...

- Calma, Claudinha!!! Fica calma!!! É alguma coisa com a Manú??? Não, tudo bem! Tá, eu tô indo! Em meia hora eu tô aí! Mas fica calma, pelo amor de deus!!!

Desliga.

- Meu deus do céu, Clóvis!!!

- O quê que aconteceu???

- Ela não disse! Mas estava em prantos! Pediu para eu ir para a casa dela agora!

- Mas o que pode ser?!?

- Ela disse que com a minha sobrinha está tudo bem... Estou preocupada que seja algo com a minha mãe...

Ana Clara liqüida o copo d'água, pega sua bolsa e já vai sair...

- Você vai bem? - pergunta o dr. Clóvis atencioso.

- Sim, vou! Depois eu te ligo para dar notícias...

- Tá! Qualquer coisa, liga mesmo!

- Tchau!

- Tchau!

Nervosamente, Ana Clara se vai. Preocupadamente, o dr. Clóvis pensa.

Gugu Keller

2 comentários:

  1. Eu também acredito nele, aliás eu acredito em todas as formas e manifestos do AMOR.

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