sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A Esquina - Capítulo 16

Na sexta-feira, dois dias após ela ter tido alta do hospital e recebido a notícia acerca da grave situação de Fernando, Natália foi, acompanhada de seus pais e de sua amiga Carolina, ao consultório do traumatologista que o atendeu. Aproximava-se, entendia-se, a hora dela pela primeira vez o ver, e o médico a chamou para uma conversa que cria necessária a respeito de como seria a vida do marido doravante, a partir do momento em que também deixasse o hospital.

É claro que Natália sabia muito bem o significado da palavra "tetraplégico", que lhe foi anunciada na antevéspera como a condição em que Fernando se encontrava após o acidente. E já não lhe saía da mente, apesar de então ainda futura, a constante imagem dele numa cadeira de rodas. Mas ela, até pelo recente de tudo aquilo, ou talvez numa espécie de auto-defesa psicológica, não havia, por exemplo, concebido que ele, conforme agora lhe seria explicado, havia perdido também o movimento dos membros superiores. A rigor, ela agora o saberia, Fernando estava totalmente imobilizado do pescoço para baixo, sem, pelo menos dentro das atuais possibilidades da medicina, qualquer chance de reversão desse quadro.

Providenciou-se para que os quatro pudessem se sentar diante da mesa do médico, de modo que Natália eis ali ladeada por seus pais à esquerda e pela grande amiga à direita. O profissional começou a falar...

- Bem, sra. Natália... Parece-me que os srs. seus pais aqui presentes por cima já a puseram a par da situação do sr. seu marido...

Com dificuldade, ela praticamente balbuciou...

- Sim... Eles me disseram... Que o Fernando está tetraplégico...

- Sim, é verdade! - disse o médico. - O sr. Fernando teve uma grave lesão cervical. Na verdade, três lesões. Todas entre a primeira e a sétima vértebra. Num caso assim, infelizmente, temos, como conseqüência, um quadro de tetraplegia bastante severo!

Pausa. Natália chora. A mãe e a amiga lhe acariciam ombros e mãos. Ainda meio balbuciando, ela tenta continuar a dialogar com o médico...

- Isso quer dizer, dr.... Que ele não pode mais andar...? Está condenado a uma cadeira de rodas...? É isso...?

Consternado, apesar de sua considerável experiência em condições análogas, o especialista troca um grave olhar com os pais de Natália antes de responder...

- Na verdade, sra. Natália, é bem mais do que isso...

- Como assim, dr.?

Pausa.

O sr. Fernando não perdeu apenas os movimentos das pernas, como a sra. está imaginando... Infelizmente, ele perdeu todos os movimentos e a sensibilidade do pescoço para baixo...!

Natália sente um tranco no peito seguido de uma súbita tontura. Apesar do sedativo que ainda toma, as lágrimas correm por seu rosto enquanto ela se sente tomada de um completo desespero...

- O sr. quer dizer que...

- Sim! Ele perdeu não apenas os movimentos das pernas, mas também os dos braços! Como eu disse, do pescoço para baixo, ele está imóvel e insensível...!

- Meu deus, mas...

- Infelzimente, sra. Natália, o seu marido está incapacitado para todas as atividades do dia a dia, por mais simples que sejam...! Pelo resto de sua vida, ele precisará ser alimentado, vestido, transportado, precisará que alguém lhe dê banho, escove os dentes etc, e não terá mais nenhum controle sobre as suas necessidades fisiológicas...!

- Ai, meu deus! Meu deus do céu! O que foi que eu fiz, meu deus?!?

Os três acompanhantes já choram junto com Natália, e, ainda que a percebendo num verdadeiro estado de terror, o médico, por crer melhor que tudo seja dito de uma vez ao invés de aos poucos, refere-se enfim a algo que possivelmente ela  já tenha concluído...

- E tem mais uma coisa, sra. Natália... Algo que, como esposa do paciente, e sra. deve desde já ficar ciente...

Tremendo e chorando, ela, que, na verdade, devido a todo o contexto, ainda não havia atinado o quanto está para ser dito, pergunta, já pensando que nada pode ser pior do que tudo o que já ouviu...

- O que, dr.?

- Infelizmente, o seu marido está incapacitado para a intimidade conjugal...!

Ela quase gagueja...

- O sr. está falando... O sr. está falando...?

- Sim, sra. Natália! Eu estou falando sobre sexo! Infelizmente, o seu marido, o sr. Fernando, não pode mais fazer sexo...!

Gugu Keller

 

4 comentários:

  1. Sexo é o de menos, basta estar vivo não é?
    A não ser que o sonhos deles fosse ter filhos e tivessem acabado de se casar e perdido a lua de mel, aí talvez fosse trágico, mas acho que as relações sexuais nesses tipos de caso são bobagens comparados com o milagre de ainda estar vivo.

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  2. É claro! Tudo sempre pode ser visto por vários ângulos. Contudo - não sei vc está acompanhando desde o começo - o mais relevante dentro da trama é o precesso de culpa que a Natália vai enfrentar por ter sido ela a responsável pelo acidente, e em circunstâncias peculiares que adiante se verá. De todo modo, agradeço imensamente por teu comentário, querida amiga!Se quiseres continuar lendo "A Esquina", o que será uma honra para mim, a previsão é de que tenha 52 capítulos!
    Bj!
    GK

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  3. Sentimentos tão abusivamente humanos que por momentos nos confundimos entre ficção e real, real e ficção.

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  4. Tento fazer uma ficção que seja o mais próxima possível do real, razão por que este teu comentário me deixa muito feliz!
    GK

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