sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

A Esquina - Capítulo 17

Aflitíssima, Ana Clara levou exatos 35 minutos para chegar do consultório do dr. Clóvis na casa de sua irmã. Por mais que dirigisse tão depressa quanto podia, o trânsito paulistano não lhe permitiu ser mais breve. Apenas na esquina entre as ruas Hermann e Violeta, a cerca de oito quarteirões do prédio de Ana Cláudia, ela ficou retida mais da metade desse tempo, já que o mvimento ali é muito grande durante a tarde e o semáforo estava programado de um modo que claramente desfavorecia quem vinha por onde ela vinha. Por sorte, ao menos, não teve dificuldade para achar uma vaga para estacionar, como é comum acontecer naquela região naquele horário.

Ana Clara aperta o botão do sétimo andar com o coração a quase lhe saltar pela boca. O que pode ter acontecido? O nervosismo de sua irmã ao telefone era algo simplesmente indescritível. Já não basta, pensa, toda a situação por que ela, Ana Clara, está passando e a dura decisão que acaba de tomar, que envolverá revelar a Ana Cláudia algo tão complicado como o que ela veio a saber sobre o cunhado? Quinto, sexto, sétimo andar. Ana Clara toca a campainha. Ainda não imagina que, afinal, já não mais terá que fazer a tão difícil revelação...

Com o rosto avermelhado e tomado de lágrimas, Ana Cláudia abre a porta e se joga nos braços da irmã. Compulsiva e ruidosamente chora. Não resta a Ana Clara outra opção que não seja a de recebê-la com tanto conforto quanto lhe é possível, experimentando uma estranha sensação ao se ver na mesmíssima situação em que sua vizinha, dona Helena, esteve quando era ela, Ana Clara, quem aos prantos se punha a desesperadamente a abraçar.

Mas Ana Clara, mesmo tentando acudir a irmã como lhe é possível, ainda, e ainda mais, está também nervosíssima, na medida em que não sabe o que aconteceu. Terá morrido alguém? Sua mãe, como novamente chega a pensar? Terá algo grave acontecido com sua sobrinha? As duas entram e Ana Clara, sempre abraçando Ana Cláudia, fecha a porta por dentro. É quando observa que a sala do apartamento, além de totalmente bagunçada, está cheia de objetos quebrados, arrebentados, como se um furacão tivesse passado por ali. O que terá, deus meu, pensa ela, acontecido? Um assalto? Um arrastão?

- Claudinha... Pelo amor de deus... Tenta se acalmar e me fala o quê que aconteceu para eu poder te ajudar...!

Às lágrimas, Ana Cláudia expele um xingamento cheio de ódio...

- Porco! Porco imundo! Eu odeio aquele porco imundo!

Pausa.

- De quem você está falando, Claudinha? Quem que você odeia?

- Eu odeeeeeio! Desgraçado! Filho de uma puta!

Ana Clara a segura pelo rosto molhado de lágrimas e a encara bem nos olhos...

- De quem você está falando, minha irmã? Fala para mim, que eu quero te ajudar...!

Ana Cláudia volta a ter profuso um choro que não havia parado, mas um pouco diminuído. Com dificuldade, quase que sem conseguir retribuir o olhar da irmã, enfim diz...

- O Gladston... Eu odeio o Gladston! Ele é um porco! Um nojento! Um desgraçado!

Ao mesmo tempo em que sente um tranco no peito ao ouvir o nome do cunhado, Ana Clara ao menos começa a compreender a situação. Algo aconteceu entre o casal. O estado em que se encontra o apartamento não é decorrência de um assalto, mas de uma briga entre Ana Cláudia e Gladston, e, pelo que conhece da irmã e, sobretudo, está vendo diante de seus olhos, a coisa foi bastante séria.

De certo modo aliviada por ter apurado que ninguém morreu ou está morrendo, Ana Clara dedica os próximos quinze minutos a acalmar a irmã. Chega a fazê-la entrar debaixo do chuveiro e lhe dá um comprimido do ansiolítico que, receitado pelo dr. Clóvis, está tomando, cuja caixa estava em sua bolsa. Com água com açúcar, Ana Cláudia o ingere. Finalmente, mesmo que algumas lágrimas ainda lhe insistam, esta consegue ao menos organizar suas idéias o suficiente para relatar à irmã o quanto se passou. Ladeadas por objetos quebrados e atirados ao chão, as duas se sentam no sofá da sala e Ana Cláudia apanha da mesa de centro uma media de dvd, com a qual gesticula enquanto fala para Ana Clara...

- Sabe o que é isso, Clarinha?

- Um cd...?

- Não! Um dvd!

- Um dvd? Que dvd?

- Um dvd, minha irmã, que siginifica o fim do meu casamento! O triste e definitivo fim do meu casamento!

Ana Cláudia sente um novo tranco no peito. Pensa no dr. Clóvis e, outra vez, em toda a situação por que está passando. Será que as coisas poderiam se encaminhar de uma nova e inesperada maneira? Mais alguns segundos e ela teria que sim...

- Por que, Claudinha? O quê que tem nesse dvd?

Pausa.

- Lembra daquela tarde em que você esteve aqui e eu te falei sobre aqueles problemas?

- Sim, claro! Você disse que o teu marido estava meio frio, meio distante...

- Exatamente!

- Você estava pensando se podia ser só uma fase...

- Sim! Só que foi piorando, Clarinha... Cada vez mais ele se afastava... Nem lembrava mais que eu existia, sabe? Aí, uma idéia começou a me incomodar... E eu resolvi pagar para ver... 

- Como assim, Claudinha? O quê que você fez?

- Eu comecei a achar que ele tinha outra, sabe? Que estava me traindo... Era a única coisa que poderia explicar o que estava acontecendo...

Pausa.

- E...?

- Como eu te disse, eu resolvi pagar para ver, Clarinha! Resolvi tirar a limpo!

- Como? O que exatamente você fez, minha irmã?

- Eu contratei um detetive para descobrir...!

Gugu Keller

2 comentários:

  1. A mulher é assim mesmo!
    O que ela não descobre sozinha, arranja maneira de descobrir!

    (Tenho a leitura, quase quase em dia!)

    Muito bom!

    Abraço
    Sónia

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