segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Boca

Qual sempre, engoles com gula
Qual nunca, eu suo na nuca
E, aos goles da láctea chuva
Teus lábios de ácido açúcar

Gugu Keller

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A Esquina - Capítulo 8

Ao menos pelo que se lembra, aquela festa do trígésimo aniversário de sua grande amiga Carolina, uma amizade dos tempos de colégio, foi o primeiro evento social a que Natália foi sem a companhia de Fernando desde que, exatos três anos antes, em maio de 1999, eles se casaram. Com efeito, até então, sempre foram juntos a todas as festas, jantares, reuniões familiares, o que fosse. Não que tivessem uma vida social muito intensa. Não. Natália nunca foi de muita agitação. Contudo, àquela festa que marcava uma data tão especial na vida da grande amiga, Natália não poderia deixar de comparecer, até porque ela própria completaria a mesma idade no próximo setembro e igualmente esperava os amigos em sua comemoração. E, não tendo Fernando conseguido voltar da viagem de trabalho que fizera ao Rio, eis Natália, por volta das dez horas da noite daquela sexta-feira, a caminho do salão de festas de um clube alugado por Carolina.

Também ao menos pelo que se lembra, Natália jamais ouviu Carolina lhe falar sobre um primo seu chamado Rodrigo, e, quando este se aproximou se apresentando, com uma disfarçada empolgação ela se surpreendeu ao ouvir que, qual ela, tampouco ele estava acompanhado. É que, ainda que seu superegóico subconsciente rapidamente já tivesse se encarregado de a fazer o negar para si mesma, ela já havia, desde logo, reparado naquela inequívoca beleza masculina. 34 anos, divorciado, analista de sistemas.

- E você, quantos anos tem, Natália?

- 29!

- E conhece a Carol de onde?

- Estudamos juntas no colégio!

Meia hora de conversa. Quarenta minutos, uma. Onze da noite, meia-noite. Quinze para uma, uma. Drinques, música, alegria. Reencontros, abraços, cumprimentos, risadas. Presentes, luzes, pista de dança. Natália e Rodrigo seguem conversando. Blá, blá, blá, blá, blá. Ei-los agora numa varanda onde ninguém os vê. Pausa momentânea. Rodrigo dá um gole e, olhando-a bem nos olhos, diz...

- Eu não imaginava que a minha prima tivesse uma amiga tão linda...

Natália ouve aquilo e, de pronto, sente um golpe duplo em seu corpo. Um, de adrenalina, na boca do seu estômago. Outro, de progesterona, no vão entre as suas pernas. E, numa estranha combustão entre ambos, a seguir, um outro golpe, este mais incisivo, seco, amargo, contundente, o golpe da culpa. Pela primeira vez, culpa. Como nunca antes, culpa. Como para sempre doravante, culpa. 2002, 2003, culpa. 2004, 2005, 2006, 2007, 2008. Fernando, trabalho, casamento, família. Rio de Janeiro, festa, desacompanhada, primo. "Tão linda", culpa. Sim, Natália gostou do que ouviu. Mas, não, não gostou. Gostou e não gostou de ter gostado. E gostou de não ter gostado de ter gostado. Mas não gostou disso tampouco e, culpada, desgostosa de si por tamanho inequívoco gosto, disse enfim...

- Eu preciso ir...

- Mas já?

- Já é tarde...

Rodrigo novamente olhou bem dentro dos seus olhos.

- Não quer uma carona?

Outro golpe duplo. Triplo. Trava. Tranco.

- Obrigada! Eu estou de carro!

Com a mão que não segura o copo de que ele bebe, Rodrigo segura uma das dela, que já deixou o de que bebia sobre uma mesa ali ao lado.

- E amanhã?

Novo olhar. Adrenalina. Progesterona.

- Amanhã o quê?

- Amanhã é sábado! Você vai fazer alguma coisa? Tem algum compromisso?

Ela não larga a mão dele. Rasgando-se ao meio, sente que algo aconteceu, algo está acontecendo, ou que, pior, algo inevitavelmente acontecerá. Mas não. Não. Culpa. Ela não pode. Jamais lhe passou pela cabeça. Diz a ele enfim...

- Escuta, eu...

Pára. Hesita. Luta. Rasga-se.

- Você...?

Cola-se.

- Eu sou casada!

"Casada" é a penúltima palavra entre ambos dita naquela noite. Um segundo, dois, três e, após fazer o seu copo igualmente descansar sobre a mesma mesa, Rodrigo, sem largar a mão de Natália que segura, com a outra agora livre a envolve por trás da cabeça. Cabelos, nuca e, aproximando seu rosto do dela, beija-a terna e lentamente na bochecha esquerda. Ela sente os lábios quentes, a pele grossa da barba de um dia, e arrepia. Culpa, Rio, rasgo, saliva.

Os rostos se afastam. As mãos enfim se soltam. Olhar. Olhar. Olhar. O perigo retrai. O perigo atrai. Pecado, culpa, dúvida. Adulterar, adulta, trinta, adultério. Natália não diz nada. Vira-se e se põe a ir para sempre. Um passo, dois, e ela ouve a entre ambos última palavra da noite...

- Espera!

Natália pára. Rasga-se de novo. Hesita. Voltar ou não ao que acaba de deixar para trás para sempre? Rasgada, volta. Ao menos uma das suas metades volta-se e olha. Rodrigo leva a mão ao bolso e tira a carteira. Apanha um cartão e o estende.

Novamente ela se rasga. Quer pegar o cartão e não quer. Quer e não quer querer. Quer e não quer querer não querer. Pegar? Não pegar? Pegar e rasgar? Não pegar e rasgar-se?

Natália baixa os seus olhos. Não volta a olhar diretamente nos de Rodrigo. Apanha o cartão e, mesmo ainda pensando em rasgar-se e o rasgar, mete-o na bolsa. Sem dizer nada, vira-se e se vai. Apressa o passo. Some festa adentro e, despedindo-se de Carolina, em seguida, festa afora. Adrenalina, adultério, culpa. Progesterona, umidade, medo. Testosterona, cartão, ereção.

Gugu Keller

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

terça-feira, 23 de outubro de 2012

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

sábado, 20 de outubro de 2012

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A Esquina - Capítulo 7

Tensa, praticamente sem ter dormido nos últimos três dias, Ana Clara aperta o botão do sétimo andar no elevador do prédio onde mora sua irmã, Ana Cláudia, que, juntamente com sua mãe, Eneida, a espera para um bolo e um café. Numa das suas mãos, um pacote colorido envolve um presente, um par de tênis côr-de-rosa com motivos infantis para sua sobrinha e afilhada, a pequena Manoela. O elevador fecha a porta e começa a subir. Primeiro andar, segundo. Será o seu cunhado o amante de Andréa? Terceiro. Sim, São Paulo é uma cidade gigantesca, mas haverá por aí um outro sujeito de nome Gladston, com a mesma idade, 34, também casado e também com uma filha de um ano e meio? Quarto andar. E se for mesmo ele? O que fazer? Quinto, sexto. Angústia. Apenas amanhã Ana Clara terá com Clóvis, o único que pode lhe ajudar, o único que pode lhe aconselhar, o único, sobretudo, com quem pode desabafar. O que fazer? O que fazer? Deus, o que fazer? Sétimo andar. O elevador pára e a porta se abre. Hall. Apartamento 71. Campainha. Medo. Ânsia. Angústia.

- Oi, minha filha! - diz dona Eneida abrindo a porta.

- Oi, mãe!

Mãe e filha trocam beijos. Ana Cláudia aparece em seguida e as irmãs o mesmo.

- E a Manú?

- Tá dormindo! Mas daqui a pouco a gente acorda ela pra tomar o mingau...

Ana Clara entrega à irmã o presente. Esta adora e agradece. De repente, após uma pergunta absolutamente inocente, com a imediata resposta da mãe a terapeuta leva um enorme susto, um indescritível tranco na boca de seu estômago, soco, murro, um sem chão sob os seus pés...

- E aí? Quais são as novidades?

E diz-lhe dona Eneida...

- Novidades? Tua irmã não tem aids!

De fato, o golpe de adrenalina é fortíssimo. Ana Clara chega a sentir uma brusca tontura lhe tomar o corpo. Mas como??? Então o amante do travesti é mesmo o seu cunhado??? E sua irmã e sua mãe já sabem??? E Ana Cláudia já foi até fazer o teste do hiv???

Tentando disfarçar o absurdo susto, resta a Ana Clara perguntar pasma...

- Como assim, mãe?!?

É Ana Cláudia quem explica...

- Lembra do Peninha, meu amigo?

- Aquele que é gay?

- Sim! Bem gay!

- O quê que tem ele?

- Ele estava querendo fazer o exame, o teste lá do hiv... Mas estava com medo, sabe? Aí, como eu já tinha feito quando fiquei grávida da Manoela, eu falei que fazia junto, pra dar uma força...!

- Sim! - participa dona Eneida. - E hoje eles pegaram o resultado...

- É! - conclui Ana Cláudia. - Não estamos infectados! Nem ele, nem eu!

Tudo explicado, ao cabo de menos de um segundo, Ana Clara sente sua cabeça dar um nó. De repente ela percebe que, se é ótimo saber que sua irmã não está infectada pelo hiv, ao mesmo tempo, se o Gladston, seu cunhado, for o mesmo Gladston, ela está correndo um sério risco, e, se vier a se infectar, tal se dará com ela, Ana Clara, ciente da situação, já ciente do risco, da probabilidade até. Medo, angústia, ânsia, desespero. O que fazer? O que fazer? Deus, o que fazer, porra?

Pior ainda, para decerto garantir que Ana Clara não dormirá pela quarta noite consecutiva, sua irmã aproveita a ida da mãe até a cozinha por alguns minutos para abordar-lhe de um modo reservado...

- Ai, Clara... Será que qualquer hora a gente podia bater um papo? Eu queria te pedir uns conselhos... Afinal, além de minha irmã mais velha, você é psicóloga, né?

- Claro, Claudinha! Mas o quê que está acontecendo?

Ana Cláudia muda o tom.

- É o Gladston, sabe?

Ana Clara sente um frio na espinha.

- O quê que tem ele?

- Sei lá, minha irmã... Eu não sei se é só impressão minha... Mas, de uns meses pra cá, eu tô achando ele tão estranho... Parece que tá meio frio, meio distante... Quando a gente transa, parece que não é a mesma coisa... Eu queria que você me dissesse se eu devo ficar preocupada ou se de repente é só uma fase que faz parte da vida de um casal...

Gugu Keller

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A Esquina - Correções

Queridos amigos...

Este post é apenas para agradecer os que estão acompanhando o "A Esquina". Agradeço imensamente tanto quem tem comentado quanto quem prefere acompanhar sem o fazer. E aproveito também para pedir desculpas pelo fato de que, por estar eu a postar cada capítulo imediatamente após os ter escrito, num primeiro momento às vezes algum erro de digitação acaba passando. Ontem, por exemplo, relendo o sexto capítulo, além de ter dado uma pequena mexida num dos parágrafos, vi uma palavra em que faltava uma letra. Desculpem-me, então, por isso. Pode até parecer bobagem da minha parte, sobretudo porque faz parte da proposta isso de escrever "junto" com os leitores, mas é que sou muito perfeccionista com o que escrevo, sabem? Sim, doentiamente perfeccionista! Ficarei grato, de todo modo, se, além das críticas e comentários, alguém me apontar algum erro que eventualmente encontre para que eu o possa corrigir, ok?

Obrigado mais uma vez a todos os que estão acompanhando! É sempre uma honra e uma grande alegria tê-los no meu blog!

Gugu Keller

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Bandeira 2

O estares longe dispara em meu peito o taxímetro da saudade. E bate. E bate. Num doido doído, bate. E, no visor úmido dos meus olhos tristes, eis o quanto já está cara, milionária, a corrida.

Gugu Keller

domingo, 14 de outubro de 2012

Penitenciária

Se ficas a remoer o passado, estás algemado. Se tens medo, encarcerado. E, ainda, se te importas com expectativas alheias, estás nada menos do que acorrentado.

Gugu Keller

sábado, 13 de outubro de 2012

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A Esquina - Capítulo 6

Tanto o pênis de Rodrigo vai-lhe fundo boca adentro, garganta, goela, gárgula, úvula, que à mente de Natália entrementes vem a lembrança daquela incisa e ansiosa ânsia de vômito. E vem-lhe aquela tarde, o cinza, o concreto, o túmulo, família Wilson, o coveiro e as flores vomitadas. Culpada, chupando e chupando, em prazerosa fúria chupando, ela com clareza compreende o quanto é doentio simultaneamente pensar naquilo tudo, naquela tão inversa à deste momento catarse. E Natália tenta de certo modo negar a lembrança. Mas, de certo modo, num a seguir quase imediato, desiste. Atina, num desespero enfim agora conformado, que, hora após hora, dia após dia, meses, anos, três, cinco, tudo o que tem feito é tentar negar pensamentos que afinal o tempo todo lhe vêm, o tempo todo tem, o tempo todo lhe têm.  Atina enfim que tentar esquecer assim é pensar mais, ou que os tentar de algum modo evitar depois que a rigor já vieram é pior. Dobra-os, multiplica-os, potencializa-os. Sim, compreendeu. Tentar negar o que é, o reafirma. Então, mesmo com culpa, resta-lhe, chupa. Copioso prazer culpado. Como se novamente vomitasse sobre as flores, culpa. Como se quando a se masturbar na cadeira de rodas, chupa. Mesmo em copiosa culpa, chupa. Mesmo em copioso prazer chupando, sente vorazmente chupar-lhe a sua tão sua cópia culpa.

Sentindo que, a continuar ela naquela toada poderá logo já lhe vir o gozo, Rodrigo carinhosamente traz para cima a cabeça de Natália, sinalizando-lhe tacitamente que de sexo oral ele está satisfeito. Num último movimento, ela faz o pênis entrar até o fim por sua boca, possivelmente ganhando-lhe já o início do esôfago enquanto sua testa e nariz tocam o púbis, pêlos a lhe cutucar os agora também por isso quase lacrimejantes olhos abertos. Dois segundos, três, cinco, e, centímetro a centímetro, para depois engolir toda a sua saliva cheia daquele gosto, ela enfim o faz vir para fora. Dirigindo ela ao parceiro um olhar de presa agonizante, a que ele reribui com um de predador faminto, ambos lenta e ofegantemente expiram. A seguir, como num novo gesto de, mais do que entrega, adoração, Natália, agora de olhos fechados, encosta o pênis na lateral do seu rosto e a ele envolve com uma das mãos, abraçando-o, acolhendo-o, com ele dançando parada uma silenciosa música lenta, trazendo-o o máximo possível para o máximo possível do seu íntimo. Com a outra mão, com carinhoso cuidado, por baixo envolve os testículos.

Novamente a conduzindo pelas axilas, Rodrigo pede sem fala a Natália que se levante. Ela o faz. Ei-la já não mais de joelhos, mas diante dele de pé. Erguendo seu tronco, ei-lo, por seu turno, sentado na cama com as pernas para fora diante dela. Como a um papagaio, num estender de mão ele a ela pede o pé. Entendendo-o de pronto, e já sem tentar evitar lembrar o tombo daquela tarde após o vômito, ela se apóia com as mãos nos ombros dele e lhe leva o esquerdo. Ele lhe tira o sapato e, com ele, ela o sente, ou tenta sentir, o "c" da palavra culpa, atira-o num canto do quarto. Tira-lhe a meia e, após um leve beijo no pé, com a letra "u" também a atira. Os olhos conversam e eis Natália com o pé descalço no chão e o direito nas mãos de Rodrigo. E vai-se o sapato ao mesmo canto com a letra "l", e, após também um beijo, a segunda meia a levar a letra "p". E eis Natália descalça. E Rodrigo agora a puxa pelos quadris contra si e, mesmo por sobre a calça jeans, leva-lhe a boca sobre a vagina. Com a força exata para que ela sutilmente o sinta, ele morde, mordisca, pressiona de leve com os dentes. Natália o envolve pelos cabelos e, enlouquecida de desejo, expira...

- Ahhh...!

Olhos. Quase fora das órbitas, olhos e olhares. Rodrigo desabotoa o cinto e a calça de Natália. Baixa-lhe o zíper. Puxa. Revela-se a calcinha branca. As coxas. Os joelhos. Pernas. Tornozelos. Apoiando-se novamente nele, Natália ergue um dos pés, agora primeiro o direito, e pensa no tombo, depois o outro, o esquerdo, pensa, e eis a calça e o cinto, como que a roubar do gemido de há pouco a letra "a" que completa a palavra, também voando junto ao resto rumo ao canto. E, na cabeça de Natália, voa tudo. Voam destroços, vidro, sangue, vida, flores. Cadeiras de rodas. Morte, morgue, mordaça, sucção.

Rodrigo se levanta. Olhos eis desorbitados frente a frente. Próximo ao umbigo, o pênis ereto e úmido de saliva toca-a no ventre. Rodrigo ainda tem no corpo a camisa desabotoada. Natália, a calcinha e o sutiã. Três passos para o paraíso. Três peças para o paraíso. Três sessões de psicoterapia e ei-la, Natália, feita de culpa e vazia dela, a uma esquina do doce inferno do seu paraíso. Olhares, ósculo, hóstia. Esquina, escolha, hospital, hospício.

Gugu Keller 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

terça-feira, 9 de outubro de 2012

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Mentalidade Capitalista

Para vários problemas coletivos, sabe-se há muito, existem soluções definitivas possíveis que apenas não são adotadas para que se possa lucrativamente vender as paliativas ou temporárias.

Gugu Keller

domingo, 7 de outubro de 2012

Olhar

Freqüentemente, por mais que possa falar, gritar, sorrir, morder e cuspir, a boca não diz tanto quanto os olhos.

Gugu Keller

sábado, 6 de outubro de 2012

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A Esquina - Capítulo 5

- Eu sou soropositiva! Eu tenho aids!

Sem desviar seus olhos dos olhos verdes do travesti, Ana Clara fez, não o pode evitar, uma pequena pausa. Tendo já, também por conta de sua experiência na entidade em que paralelamente ao consultório atua, atendido pacientes soropositivos, ela sabia que a sua primeira reação àquela tão complicada revelação seria de suma importância para a continuidade do trabalho que, naquele momento, com aquela primeira entrevista, se iniciava. Contudo, apesar da óbvia gravidade do quanto lhe fora confidenciado por Andréa, esta não parecia a respeito tão abalada como, de modo tristemente marcante, Ana Clara vira outros estarem ao lhe relatar a mesma situação. Assim, após aquele silêncio de talvez um segundo e meio, com o máximo de naturalidade possível, perguntou a terapeuta ao travesti...

- Há quanto tempo?

- Dois anos, mais ou menos...

- Você está com que idade?

- 24!

- E como você descobriu?

Andréa explicou que, juntamente com outro travesti, Mércia, com quem divide um apartamento, costumava, desde que começou a se prostituir, aos 18 anos, semestralmente fazer o teste. Até que, no momento por ela acima referido, deu positivo. Disse que sempre usou camisinha com os seus clientes, mas que, de vez em quando, aparecia um ou outro que insistia no contrário, oferecendo para tanto quantias irrecusáveis, e que, provavelmente, foi num desses tiros a esmo, não raro embalados por maconha, álcool e anfetaminas, que ela se contaminou. Questionada por Ana Clara, ainda que neste primeiro momento apenas de modo superficial, acerca de sua opção pela prostituição, Andréa explicou que a dura realidade dos travestis não costuma lhes oferecer muitas outras.

- Se eu tivesse outro caminho, - arrematou - jamais teria entrado nesta vida de fazer programas!

Intuitiva, Ana Clara observava. Disse então...

- Mas, pelo menos, Andréa, com relação a ser soropositiva, você me parece bem... Quero dizer, ao menos você está com um aspecto bastante saudável...!

- Ah, sim! Graças a deus! Estou bem! Carga viral indetectável!

- Que ótimo! Você se trata, então? Toma um antiretroviral?

- Sim! O Kaletra!

- Maravilha! Que bom que você está bem!

Andréa então explicou a Ana Clara que o que a levou a procurar uma terapia não foi em si o fato de ela estar contaminada, com isso ela até tem lidado razoavelmente bem. O problema, um árduo dilema em seu íntimo, é um relacionamento que ela vem mantendo nos últimos meses com um homem casado, no princípio mais um cliente, mas hoje já parceiro de uma mútua e ardente paixão.

- Ele está apaixonado, doutora! Está louco por mim!

- E você?

- É... Acho que eu sinto o mesmo...

- E então ele é casado?

- Sim!

- Quantos anos ele tem?

- 34!

- E há quanto tempo ele é casado?

- Parece que uns três anos...

- Tem filhos?

- Tem uma filha pequena... Nenê... Uma ano e pouco, acho...

Ana Clara pensava. Analisava. Sobretudo, como sempre lhe foi peculiar, observava.

- Bom... - comentou então - Acho que isso é bastante comum, não?

- Ah, sim! Muito! Muito mesmo!

- E o quê que tá pegando, Andréa? Por que essa relação com esse homem fez você procurar uma terapia? Você está apaixonada e fica imaginando se um dia ele vai te assumir ou algo assim?

- Não, não é isso! O problema é o que eu te contei agora há pouco... O hiv!

De pronto Ana Clara entendeu. E fez a pergunta que cabia...

- Vocês não usam camisinha?

Ajudando com um leve movimento de cabeça, Andréa respondeu agora com um pequeno quê de auto-reprovação...

- Não!

Pausa.

- E você não disse a ele que tem o hiv?

Lentamente, Andréa repetiu o movimento e a expressão.

- Não!

Pausa.

- E tem medo de dizer?

Tudo igual para o positivo.

- Sim!

Pausa.

- E também tem medo de contaminá-lo? Ou de já o ter contaminado?

Idem.

- Sim!

Ana fez uma nova pausa. Sempre a observar a paciente novata, decidiu uma linha de abordagem para saber mais sobre aquela situação. A resposta à primeira pergunta que para tanto fez, todavia, instalaria em seu íntimo uma brusca e inesperada tensão, a ponto de, o que é raríssimo, inédito quase, fazê-la perder a concentração numa primeira entrevista...

- Como é o nome dele?

O travesti voltou a relaxar um pouco após a tensão de ter entrado no assunto que lhe era motivo de tudo e, com agora um quase sorriso na boca, explicou...

- Ele tem um nome diferente, sabe? Um nome meio esquisito... Tanto que, no começo, ele me disse um nome falso, Roberto... Mas, depois, na terceira ou quarta vez que a gente saiu, ele me disse o nome verdadeiro...

- E como é o nome?

- Gladston!

Gugu Keller

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Toda

O teu corpo é o pasto vasto em que eu me afasto, arrasto e basto.
O teu rosto, o meu hospício. Vácuo, vício e precipício.

Gugu Keller

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Desfile de Máscaras

No ensejo do momento, fico pensando... Haverá no mundo algo tão ao mesmo tempo cômico e deprimente como o nosso horário eleitoral?

Gugu Keller

terça-feira, 2 de outubro de 2012

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Wikileaks

E quando, clara, a verdade se escancara, o escândalo escarra-nos na cara.

Gugu Keller