sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A Esquina - Capítulo 13

Rasgos de si, Natália dirige. Ruas, esquinas, luzes, faróis. Festa, Camila, espelho retrovisor. Culpa. Como nunca antes em sua vida, culpa. Como, já, para sempre doravante, culpa. Dirige. Ruas. Ri de si mesma em silêncio e, em silêncio, por si mesma chora. Ri. Ridículo. Ridícula. Mas não, não pode negar. O cartão dentro da bolsa ao seu lado sobre o banco do carona ainda a rasga. Ela ainda não o rasgou como pretende e, por conseqüência, sim, ele ainda a rasga. É claro, já está mais do que decidido, que jamais voltará a ver o tal Rodrigo. Perguntar sobre ele para Camila? Nunca. Impensável. Ligar para o número do cartão? Jamais. Inconcebível. Natália pensa em Fernando, a trabalho ainda no Rio, e, não, nunca, sempre, é ridículo, sim, rasgar-se assim.

Um cruzamento. Dois, três. Farol vermelho. Natália decide. Sim. Tirar o cartão da bolsa e o jogar pela janela do carro. É feio jogar um papel assim na rua, mas não importa. Precisa, decide, livrar-se daquilo. Até porque sequer o leu, ou seja, não teria como gravar o número mentalmente, como, apenas em seu mais profundo íntimo, deseja, basta rasgá-lo e eis em si a costura para o rasgo. E, sim, dadas as circunstâncias do momento, jogá-lo pela janela sem dúvida equivale a o rasgar. Tanto ela fez por seu casamento, que não o quer, o casamento, pela janela por causa de um desejo repentino por um homem tão claramente pretencioso. Não. Loucura. Sim. Decide. Abre a bolsa e procura. Dois, três, cinco segundos. Não acha. Dez segundos. Nada do cartão. Natália pensa em jogar tudo o que há na bolsa sobre o assento do carona. Nervosa, procura. Ou tudo já direto pela janela. Nervosa loucura. Não. Controla-se. Com a mão no fundo da bolsa, ainda procura. Doze segundos. O farol abre. Natália não anda. O carro parado atrás dá um sinal de luz alta. Natália não anda. O carro atrás buzina. Natália se assusta e, desistindo por ora de procurar o cartão, toca adiante. Ruas, Rodrigo, rasgos. Riso, ridícula, espelho retrovisor.

Indecisa, Natália decide não decidir. É, voltou atrás. Jogar fora o cartão? Para quê? Não está nem aí para esse Rodrigo mesmo! Sujeito presunçoso, convencido, arrogante... Pensa o quê? Que pode seduzi-la, uma mulher bem casada com ela, em questão de alguns minutos? Nunca. Ridículo. Em casa, Natália esvazia a bolsa. É uma bolsa mais para festas, não a usa sempre. Já não rasgada, ou, ao menos, com cuspe colada, ela tira a carteira, o estojo de maquiagem, o pequeno pacote de absorventes íntimos e o que mais há ali. E eis finalmente o cartão. Jogá-lo fora? Rasgá-lo? Para quê, se é tão inofensivo? Perdida a para si mesma fingir-se no caminho, Natália defende-se atacando. Já não indecisa, decide com decisão. Simplesmente não tira o cartão da bolsa. Guarda-a, isso sim, no armário respectivo, apenas com ele dentro dela, como se, numa paradoxal distração proposital, simplesmente o esquecesse ali. Defendendo-se depois de já atacada e derrotada, a seguir Natália entra no banheiro para lavar o rosto, mas, decerto para não se ver em tantos pedaços, não chega a encarar o espelho sobre a pia.

Fernando chegou do Rio na tarde de sábado e, meio a contragosto da esposa, preocupada com o fato de ele ter engordado visivelmente nos últimos meses, ambos foram jantar com outros três casais, dois dos homens e uma das mulheres colegas profissionais de Fernando, numa churrascaria. Empanturrado de tanta carne, ele mais tarde o usou como desculpa para não fazer sexo com ela naquela noite, e Natália adormeceu no escuro após três horas o ouvindo roncar enquanto, nos intervalos no barulho, parecia ecoar em seu íntimo...

- Amanhã é sábado! Você vai fazer alguma coisa? Tem algum compromisso?... Amanhã é sábado! Você vai fazer alguma coisa? Tem algum compromisso?... Amanhã é sábado! Você vai fazer alguma coisa? Tem algum compromisso?

Quando, na manhã de domingo, oito dias após ter acontecido pela última vez, Fernando está sobre a esposa a penetrá-la, ele agora já menos a penetra do que a rasga. Sim, não, ela não está ali. Muito menos lubrificada do que outrora, ele o sente mas não ousa comentar, a penetração é muito menos intensa, muito menos densa, muito menos prazerosa. É quase uma dor, e não, seca, árida, ela já não está ali. Quando encara o marido, que às vezes a beija, Natália sorri, ou apenas mostra os dentes. Quando escapa e pode olhar para o nada por sobre um dos ombros dele, descobre que sabe sorrir às avessas, e, se mostrasse os dentes, seria apenas para morder a si mesma de tanta culpa. Rasgada na vagina e no que imagina, resta a Natália fechar os olhos, enquanto é agora uma outra frase que ecoa em seu íntimo, esta sim, dita com um lindo sorriso, possivelmente o mais belo que ela já viu...

- Eu não imaginava que a minha prima tivesse uma amiga tão linda...

São dez da noite ainda deste domingo quando, tendo Fernando ido agora jogar sinuca na casa de um amigo, Natália, mais do que rasgada, picotada por dentro, abre o armário, vai à bolsa e apanha o cartão. Lê. O nome inteiro de Rodrigo e um número que, pelos algarismos iniciais, parece-lhe ser de um celular. Pensa. Hesita. Culpa-se. De culpa, catapulta-se. Um rio de incerteza passa pelo agora largo rasgo dentro dela e deságua aquoso em seu já vasto oceano de indecisão. No seu celular, ela digita o primeiro dos oito algarismos e pára. Depois chega ao segundo e novamente aborta. No total, começa dezesseis vezes sem chegar ao fim, até que, com o coração a bater forte, o perigo retrai, o perigo atrai, disca o número todo e deixa tocar. Um toque, dois, três...

- Alô!

Natália estremece. Sim, reconheceu a voz. Coração. Culpa. Gostou e não gostou de ter gostado. Não diz nada. Dois segundos, três, quatro. Rodrigo diz de novo...

- Alô!

Silêncio. Ela não diz nada. Quatro segundos, cinco seis, até que, para ao mesmo tempo assustá-la e definitivamente a conquistar, ela o ouve dizer...

- Natália? É você?

Ela desliga sem dizer nada. Fecha os olhos e sente-se trêmula. Depois os abre e olha para o cartão. Fecha-os novamente enquanto, quase que modo inconsciente, encosta-o, por sobre a calcinha que sob uma saia usa, em sua vagina rasgada.

Rodrigo ouve que ela desligou. Com convicção, registra o número em seu celular como sendo o de Natália. Possivelmente, pensa, se ela não ligar de novo, ele tente ligar para ela ao cabo de alguns dias. Mas não. Engana-se. Já no dia seguinte, segunda-feira, ele receberia um outro telefonema, de uma outra pessoa, que mudaria muitas coisas em sua vida.

Gugu Keller 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Parede

As únicas barreiras intransponíveis são as que por medo transpor não tentamos.

Gugu Keller

terça-feira, 27 de novembro de 2012

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Paixão Paradoxo

Subliminarmente visceral e silenciosamente sensual, ela é diabolicamente angelical.

Gugu Keller

domingo, 25 de novembro de 2012

Adiante Mutante

Quanto mais tentamos traçar a melhor rota, mais mudam as condições do terreno.

Gugu Keller

sábado, 24 de novembro de 2012

Tears For Fears - São Paulo 22/11/12

Atendendo ao pedido das leitoras F. Carolina e Jéssica, hoje vou falar sobre o show de anteontem do Tears For Fears aqui em São Paulo, em que tive o prazer de estar...
 
Foi a primeira vez em que estive na casa de espetáculos "Espaço das Américas". Excelente! Fácil acesso, muito espaço, palco excelente, funcionários educados e preço razoável para se comprar cerveja, água ou refrigerante. O público que esteve no show também era bastante educado e bem comportado. Não houve nenhum empurra-empurra nem qualquer tipo de tumulto. O ingesso do show foi bem caro, R$300,00 na pista premium, mais perto do palco (fiquei a uns seis metros deles), mas, quanto ao conforto, valeu a pena!
 
E muito mais valeu a pena quanto ao show em si! Maravilhoso, indescritível, perfeito! Qualidade do som excelente, músicos extremamente competentes e iluminação muito bem executada! Ademais, Roland Orzabal e Curt Smith esbanjaram carisma e simpatia. Orzabal falou muitas coisas em português. Curt Smith nem tanto. Mas, de todo modo, mesmo quando falavam em inglês, o faziam com uma clareza fantástica. Grande parte da platéia, percebia-se, os entendiam com perfeição.
 
Surpreendentemente, ao menos para mim, eles abriram o show com "Everybody Wants To Rule The World", o que já deixou o público extremamente excitado e participativo. Todo mundo cantou junto, para, notou-se bem, extrema alegria da dupla. Já no terceiro número, tocaram "Sowing The Seeds Of Love". Impressionante foi a reação da platéia a "Head Over Heels", a última antes do bis. De fato, foi inacreditável como e com que energia o público cantou, a ponto de Orzabal parar de cantar apenas para, sorrindo, nos ouvir.
 
Extremamente competente e carismática era a vocalista que os acompanhava, Carina Round. Arrasou. Quando cantou com Roland "Woman In Chains", a primeira música do bis, foi simplesmente apoteótico! Depois, para terminar, como não poderia deixar de ser, "Shout"!
 
Do primeiro álbum, "The Hurting", eles tocaram "Mad World", "Pale Shelter", "Memories Fade" e "Change". Do "Songs From The Big Chair", "Everybody Wants To Rule The World", "Head Over Heels" e "Shout". Do "Seeds Of Love", além de "Sowing The Seeds Of Love" e "Woman In Chains", tocaram "Advice For The Young At Heart" e, surpreendentemente, "Badman Song". Do álbum "Elemental", tocaram "Break It Down Again". Ademais, tocaram seis faixas de seu trabalho mais recente, o "Everybody Loves A Happy Ending", e, por fim, como a grande surpresa da noite, "Billie Jean", de Michel Jackson.
 
Foi maravilhoso! Extasiante! Fantástico! Obrigado, Roland & Curt! Se eles voltarem, recomendo a todos que não percam. Que foi, sabe o quanto valeu a pena...!
 
Gugu Keller  

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A Esquina - Capítulo 12

Mesmo desde logo disposta a seguir o conselho do dr. Clóvis, Ana Clara levou seis sessões, ou seis semanas, para apurar junto a Andréa informações que pudessem confirmar que o amante desta, Gladston, era, de fato, como ela suspeitava, o seu cunhado. É que durante cinco sessões o travesti falou muito sobre a sua infância, a sua família, sua opção por tornar-se o que é e o quanto para tanto enfrentou, e, como Ana Clara, ainda que extremante ansiosa a respeito, tenha, talvez numa atitude inconscientemente defensiva, evitado forçar qualquer coisa, apenas nesta sétima sessão ele voltou a falar sobre a aids e sobre o seu relacionamento com o tal Gladston, "Glad", como agora revelou intimamente o chamar, e, desgraçadamente para a psicóloga, em poucos minutos não restaria nenhuma dúvida quanto ao que se buscava confirmar...

Primeiro, ao, como calhou, descrevê-lo fisicamente, Andréa falou sobre a cicatriz que Gladston tem no rosto, fruto de uma navalhada que levou durante uma briga na adolescência. Falou também sobre o cavanhaque que usa, a pequena calva no cocuruto e, de quebra, ainda mencionou o carro que possui, um gol preto com rodas rebaixadas e teto solar.

Ademais, como se não bastasse, para liqüidar de ver com qualquer dúvida que, numa eventual tentativa de tapar o sol com a peneira, o psicológico de Ana Clara ainda pudesse ter, Andréa disse-lhe enfim...

- ... e sabe, doutora, uma coisa que é uma coincidência muito louca, que eu pensei desde o primeiro dia em que vim aqui?

- O que, Andréa?

- É que a mulher dele tem o nome muito parecido com o teu!

Tremendo por conta do quanto já fôra dito, Ana Clara, apesar do providencial efeito do ansiolítico, sentiu um seco pontapé de adrenalina na boca de seu estômago.

- Então você sabe até o nome da mulher dele?

- Sim! Sabe como é?

- Hum?

- Ana Cláudia! Quase igual ao teu, né?

Ana Clara sentiu seu corpo reagir como jamais antes. A descarga de stress foi tamanha que ela teve a nítida sensação de que desmaiaria. Instintivamente sua mão foi trêmula em busca do copo d'água na pequena mesa ao seu lado e o levou à sua boca. Andréa ainda falava mas Ana já não ouvia. Tremia, suava, sumia, surtava. E o travesti falando já sobre como Gladston, desde a primeira vez, insistiu em não usar camisinha, propondo-se inclusive a, para isso, pagar em dobro o valor do programa. Apenas quando dos olhos já rubros da terapeuta rolou um par de lágrimas, foi que Andréa percebeu que algo estava errado.

- Doutora... Doutora... Você está bem? - disse Andréa a Ana Clara indo já da sua poltrona nela. 

- Desculpe... Não é nada! Você se importa se continuarmos na semana que vem? Eu não vou te cobrar esta sessão... - disse Ana tentando se controlar o quanto possível, já com o travesti a atenciosamente segurar-lhe uma das mãos.

- Claro! Tudo bem! Mas o quê que aconteceu? Você está se sentindo mal?

Chorando, Ana Clara olhou no fundo dos olhos acolhedores e preocupados de Andréa, por quem já tinha muito do enorme carinho que nutre por todos os seus pacientes e, após pensar por alguns segundos de um ainda pequeno oásis de lucidez no meio de seu enorme deserto de desespero, disse-lhe como desculpa...

- Desculpe, Andréa! É que o meu gato morreu ontem...!

Às lágrimas e soluços, Ana Clara sentou-se ao volante de seu carro e pôs-se a dirigir. Rumou para sua casa mais por reflexo condicionado do que por o decidir. Sim, ia mas, não, nem sabia. Dirigia. Apenas dirigia. Câmbio, acelerador, rua, esquina. Dirigia. E chorava. Na sua mente, já não pensamentos, mas retalhos, imagens, referências. Medo, desespero, abismo. Foice, foi-se, fim. Câmbio, acelerador, farol vermelho. Dr. Clóvis, primeiro confirmar, não pode. Sigilo, ética, código. Normas, dogmas, ansiolítico. Conselho Regional de Psicologia. Câmbio, acelerador, espelho retrovisor. Ah, minha pobre irmã, como eu te amo! Ah, Gladston, seu filho da puta, como eu te odeio! Eu nunca gostei de você e eu estava certa! Eu te odeio, seu puto! Seu imbecil irresponsável! Sua bicha enrustida! Ah, Gladston Celso de Arruda, como eu te odeio! Glad, né? Filho da puta! Com todas as minhas forças te odeio! Também te odeio, dr. Clóvis! É! Odeio todos vocês! Odeeeeeeeeeio!

Ana Clara entra em casa e acende a luz da sala. De medo e nervoso, sente-se bêbada e drogada. Joga a bolsa sobre o sofá e, quase sem sair do lugar, anda em círculos. Parada, mexe-se. Três segundos, cinco e decide. Vai até o telefone. Começa a discar. Desiste. Pára. Vai até a garrafa de uísque e serve num copo. Gole. Volta ao telefone. Pega. Disca. Desiste. Pára. Bebe. Anda. Pára. Volta. Outro gole, meio copo. Se pudesse, sente, seria uma bomba e explodiria. Granada auto-deflagradora. Senta-se. Levanta. Gole. Mata o copo. Vai servir mais. Pára. Bebe no gargalo. Pensa em Andréa, ou João Felipe, que fez hoje a sétima sessão, e depois em Natália, paciente nova, que ontem fez a terceira. Sim. Horários todos tomados. Ela está indo bem. Mas e daí? Ela agora odeia tudo. E todos. E bebe. E anda. E tropeça. Apóia-se na estante de livros. Sente-se zonza. Chora. Puxa-os, quase todos de psicologia, e os joga no chão. Livros. Ama-os tanto. E agora os odeia. Anda para trás e tropeça de novo, mas cai sentada no sofá. Chora. Treme. Quer pedir socorro mas não tem a quem. O dr. Clóvis? Odeia-o. Polícia? Bombeiros? Resgate? Levanta. Garrafa. Bebe. Olha para as três caricaturas na parede. Chora, bebe, olha e mira. Um segundo, dois, três e voa a garrafa na direção de Freud. Barulho. Cacos. Da garrafa e do quadro, cacos. Tontura, loucura, abismo. Ela avança contra a segunda caricatura e, de mão fechada, esmurra a cara de Jung. Mais cacos. Sangue. Uísque. Eis Lacan, o terceiro, ao lado dela na parede. Ela o arranca e ei-lo a voar na direção do bar. E outra garrafa, esta de vinho, eis também com o quadro em cacos. Uísque, vidro, sangue, vinho tinto. Lágrimas, líqüido, luto. E Ana chora. E chora. E chora. E cai de joelhos sobre os livros no chão. E chora. E sua mão direita sangra. A manchar um livro sobre a ética na prática clínica, sangra. E chora. E sangra. E chora. E sangra. E, quando, após alguns instantes, alguém toca a campainha, ainda chora. E ainda sangra.   

Zonza e cambaleante, mas agora mais com medo do dr. Clóvis do que a o odiar, Ana Clara se levanta e vai à porta. Abre e dá com sua vizinha, dona Helena, que, preocupadíssima, e de pronto ainda mais por a ver naquele estado, pergunta...

- Ana Clara! Pelo amor de deus! O que é que está acontecendo?!?

Como se eles fossem o confortável passado de até sete semanas atrás, Ana Clara joga-se nos braços da vizinha, que, atônita, cada vez mais preocupada e sem outra opção, corresponde-lhe com calor ao abraço. E Ana Clara a abraça forte. E lhe molha o ombro esquerdo de lágrimas. E de sangue mancha-lhe a roupa no direito.

- O quê que foi, minha filha? O quê que aconteceu? - insiste dona Helena.

De novo pensando no dr. Clóvis, e de novo dele com mais medo do que ódio, Ana Clara mente pela segunda vez em menos de uma hora. E novamente é uma mentira em que ela mata...

- Um amigo meu... Um grande amigo meu...!

- O quê que tem o seu amigo, Ana Clara?

- Morreu, dona Helena! Morreu!

- Morreu como?

- Um acidente, dona Helena! Bateu o carro numa esquina e morreu!

As duas se abraçam. Ana chora. E sangra. E sequer imagina o quanto foi auto-profética.

Gugu Keller

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Obrigado!

Hoje é um dia muito feliz! Pela terceira vez em minha vida (a primeira foi em 1990 e a segunda em 1996), hoje à noite assistirei, no Espaço das Américas, aqui em São Paulo, a um show ao vivo com a minha banda favorita, o Tears For Fears!

De modo que, alegre que estou, hoje posto aqui de um modo diferente... Quero apenas agradecer aos amigos que prestigiam este blog com sua presença e seus comentários que sempre me causam emoção e proporcionam-me importantes reflexões para continuamente melhorar no quanto escrevo! Agradeço a todos os que têm aderido ao blog, e o número de seguidores tem aumentado bastante, e também, neste momento, uma vez mais, aos que têm acompanhando o meu projeto "A Esquina"! Obrigadíssimo a todos!

Agradeço ainda, de um modo especial, a meu grande amigo Luís Tabelião, parceiro de tantos anos, que também é fã do Tears For Fears, que esteve comigo nos shows de 90 e 96, e que novamente hoje estará lá ao meu lado! Obrigado por tudo, amigo! E todas as vezes em que eles vierem, lá nós estaremos! 

Que esta doce bruma, que, a envolver meu coração, suave sopra no além, nunca mais se dissipe, e que, com a banda favorita, possamos juntos sempre cantar e gritar... Shout! Shout! Lei it all out!

Gugu Keller

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Dizer-te

Mesmo em muitos trechos falho e esburacado, a palavra é o principal caminho entre os sentimentos e o mundo.

Gugu Keller

terça-feira, 20 de novembro de 2012

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A Esquina - Capítulo 11

Quando, na quarta-feira, 23 de julho, três dias após o acidente, Natália, com uma perna fraturada e ainda vários hematomas pelo corpo, recebeu alta do hospital, seus familiares já haviam se reunido e decidido não lhe dar as duas notícias de uma vez, até porque, como ponderou o médico que a atendeu, ela possivelmente sequer se lembraria com clareza, ao menos por algum tempo, de todo o acontecido, ou como tudo aconteceu. Assim, num primeiro momento, acordou-se, ela "apenas" ficaria a par da gravíssima situação do marido. 

Sentada numa confortável poltrona, com o pé engessado a descansar sobre um apoio posto para tanto diante de si, eis Natália, com o rosto ainda bastante inchado e sob o indispensável efeito de um calmante, cercada por seus pais, um tio, uma tia e sua grande amiga de faculdade, Carolina. Com muito jeito, a cuidadosamente escolher as palavras, seu pai introduziu o quanto havia de ser dito...

- Natália, minha querida... Nós precisamos conversar um pouco com você...

Com um olhar de ainda confusão, ela assentiu com a cabeça. Ele continuou...

- Você se lembra, minha filha, do que aconteceu na madrugada de sábado para domingo?

Pausa. Natália deixa correr uma lágrima e se mostra aflita. A mãe lhe acode a acariciar a cabeça. Ela meio que balbucia...

- Eu... Eu lembro de uma festa... Eu... A gente foi embora... Aí, eu não sei... Eu lembro de uma luz piscando...

Sempre falando devagar e com tanta doçura na voz quanto lhe é possível, o pai de Natália segue...

- Minha querida... Houve um acidente.

- Um acidente? Que acidente?

- Talvez devamos esperar um pouco mais para termos essa conversa com ela... - intervêm preocupada a mãe.

- Não! Eu quero saber! Que acidente foi esse? - insiste ela mostrando emergir depressa do estado de confusão em que ainda estava.

Seguiu o pai...

- Você e o Fernando estavam voltando para casa depois da festa...

- A festa! Sim, eu me lembro... Estávamos na festa, sim!

- A festa do Dudú, Natália! Lembra? - ajuda Carolina.

- A festa do Dudú! Sim, eu me lembro! Foi ontem, não foi?

- Não, querida! - continua o pai. - A festa foi no sábado à noite! Hoje já é quarta-feira!

- Quarta-feira? Que horas são?

- Cinco da tarde agora, Natália! - participa o tio.

- Cinco da tarde? Então eu devia estar trabalhando...

- Não, querida! - diz de novo o pai. - Lá no teu trabalho eles sabem que você está descansando, que está se recuperando...

- Sim! - acrescenta a mãe. - Estão todos torcendo para que você logo fique boa...!

Pausa. De repente, Natália se agita...

- Mas e o Fernando? Ele estava comigo, então? Não estava?

Todos se entreolham.

- Sim, querida! - diz-lhe o pai. - Vocês estavam voltando para casa depois da festa...!

- E então a gente sofreu um acidente?

- Sim, meu amor! - responde a mãe dela. - Infelizmente! Um grave acidente!

- E onde ele está? Onde está o Fernando?

Pausa. Responde o pai...

- Ele está num outro hospital, Natália.

- Mas ele está muito machucado?

Todos novamente se entreolham.

- Minha filha... Você vai precisar ser muito forte...

- Por que, pai? O quê que aconteceu com o Fernando?!?

Pausa. Nervosismo. Hesitação.

- Fala, pai! O quê que aconteceu com ele? Foi nesse acidente que sofremos?

- Sim, querida. Foi nesse acidente...

- E como ele está? Me fala, pelo amor de deus!!!

Outra pausa e ele diz enfim...

- Querida... O Fernando não vai mais poder andar...!

- Como é??? Não vai mais poder andar???

- Não, querida! Ele não vai mais poder andar e nem fazer muitas outras coisas...! Ele está tetraplégico!

Gugu Keller

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

terça-feira, 13 de novembro de 2012

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Flor

Eu quero o cáustico crístico cálido do teu ínfimo íntimo hálito.

Gugu Keller

domingo, 11 de novembro de 2012

Rimando-te

Tu és na noite fria o meio-dia. No céu que estia, a estrela guia. Da poesia, a melodia.

Gugu Keller

sábado, 10 de novembro de 2012

Heartbeat

Antes de ti, meu coração batia aflito. Agora, a te sentir, bate agradecido.

Gugu Keller

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A Esquina - Capítulo 10

Como se fosse o primeiro de uma longa vida dele à espera, ou o último de uma por ele em completa quimera, Natália entrega-se ao beijo quente e molhado de Rodrigo. De um modo que jamais concebeu-se capaz de ao que quer que seja se entregar, entrega-se. Definitivamente, pensa, nem à polícia, a deus ou às drogas, jamais ninguém se entregou assim. Entrega, entranha, rasgo, rendição. Coração a gangorrear, ela alterna sentir sua alma pela boca fugir rumo à dele com com a dele voltar de mãos dadas no rumo da sua. Sente. Boca, bocas, baque, batida. Lábios, lascívia, loucura, saliva. Barba, bebida, buzina, explosão.

Conforme, após apertar-lhe os ombros, com ambas as mãos ela a puxa para baixo, Rodrigo os braços abaixa e, beijando-a, da camisa, em que agora quase pisa, livre eis enfim. Sem que as bocas se desgrudem, todo nu ele então a apalpa nas nádegas, e com carinho as envolve, e revolve, explora. Beijando-o, o glúteo tomado de arrepio, Natália de novo o aperta nos ombros, e o alisa nas costas, e já o tem pelo pescoço, cabelos, nuca, e pele, e pêlos. E beijo. E beijo. E beijo. Mil beijos num só. Só num beijos mil.

Dois minutos, três, cinco. Acima lá vêm as mãos de Rodrigo. Nádegas, cóccix, dedo médio na fenda. Vêm, vêm, vêm, vêm. Rins, rio, rumo, chakra. Trinta, Rio, risco, cartão. Vêm, vêm, vêm. Sutiã, dedo médio no fecho. Tenta, tenta, alisa. Outra mão, dedo médio, dedão. Abriu, saiu, caiu. Peitos, sutiã, chão. Alisa, quase pisa. Beijo, línguas, labareda. Lábios, loucura, mansidão.

Natália se deita na cama de braços abertos. Flutuando sobre o lençol, sente um estranho paradoxo, mistura de acabar de nascer com enfim chegar lá. Não, não sabe se está nascendo, ou renascendo, ou diante de uma morte que enfim leva tudo ou enfim tudo traz. Quando Rodrigo, após ambos trocarem um olhar como só entre vesgos, leva as mãos às alças laterias da sua calcinha, ela vê da janela da sua vida em chamas os bombeiros chegando, e correndo, e gritando, e subindo, e salvando. E as mãos dele puxam. E puxam. E puxam. Vagarosamente puxam. Milímetro, milímetro, pele, pêlos. Vão, vão, vão, vão. Vão, verbo ir. Vão a se abrir. Terceira campainha. Atores a postos. A cortina se move. Luzes. Escuro. Música. Silêncio. Na luz do escuro, a música do silêncio. E Natália sente. Sim. É possível. Não. Não é como ela, lembra-se bem, com tanta emoção disse à dra. Ana Clara. É possível, sim, abrir-se a ponto de, nu a bater, exibir o coração. Descortinar. Ei-la, Natália, cinco anos depois do pesadelo, 20 de julho de 2003, 19 de julho de 2008, como se se levantasse de uma cadeira de rodas e caminhasse rumo ao céu, a poucos milímetros de exibir, via vagina, para todo o mundo, Rodrigo é o mundo, nu a bater, o seu tão ao mesmo tempo forte, frágil e febrilento coração.

Gugu Keller

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

domingo, 4 de novembro de 2012

Beijar-te

Quando os lábios se tocam e as línguas invadem, as almas espocam e os céus se nos abrem.

Gugu Keller

sábado, 3 de novembro de 2012

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A Esquina - Capítulo 9

Psiquiatra e psicólogo, homem culto, inteligente e, acima de tudo, experiente, supervisor de todos os atendimentos de Ana Clara, o dr. Clóvis atentamente a ouviu narrar tudo quanto se passou desde que, quatro dias antes, o paciente João Felipe Cordeiro dos Santos, socialmente Andréa, adentrou o seu consultório. Pensativo, antes de dizer qualquer coisa, ele a ela estendeu uma caixa de lenços de papel, vez que lágrimas vinham-lhe aos olhos. As mãos trêmulas se serviram de um punhado e, com o nariz tomado de vermelhidão, Ana enxugou-se o quanto possível. Sempre sensato e equilibrado, a ela ele disse enfim... 

- Vamos tentar manter a calma e dar um passo de cada vez!

Ana Clara busca forças numa profunda inspiração. Expira também com intensidade e assente com a cabeça. O dr. Clóvis acrescenta...

- A primeira coisa a fazer, Ana, é confirmar a situação...!

- Confirmar?

- Sim! Confirmar que o Gladston, amante da Andréa, é o mesmo Gladston, teu cunhado! É claro que, como você disse, pelas informações que já tem e sendo esse nome, Gladston, tão incomum, tudo leva a crer que sim... Mas, enquanto não tivermos certeza, não faz sentido pensarmos em nada...! Concorda?

- Sim! Você está certo! Mas como teremos essa certeza?

- Conforme a Andréa for falando nas sessões, vá colhendo mais informações... Quem sabe ela diz como ele é fisicamente, como se veste, que carro tem...

- Entendi. Mas vou ser sincera com você, Clóvis... Estou com medo de não conseguir...

- De não conseguir o quê?

- De não conseguir continuar atendendo normalmente a Andréa, como se nada estivesse acontecendo... Afinal, eu não posso deixar transparecer para ela este estado de tensão em que me encontro...

- Você vai ter que ser forte, minha querida! Muito forte!

Pausa.

- Eu pensei em te pedir alguma coisa para tomar... Um ansiolítico! Ao menos para que eu consiga dormir...

- Eu vou te dar!

O dr. Clóvis começa a escrever uma receita. Ana Clara novamente respira fundo angustiada. Leva as mãos abertas com as palmas juntas diante de sua boca e comenta, meio que para si mesma, meio que para ele...

- E ainda essa coincidência da Ana Cláudia ter feito esse exame por causa do amigo...! Que ironia, meu deus! Que situação mais absurda!

- Que bom que ela não está contaminada!

- Sim! Claro! Mas é como se isso aumentasse a minha responsabilidade, entende?

Entregando-lhe a receita, ele declara peremptório...

- Você não tem nenhuma responsabilidade, Ana Clara!

Ela apanha o papel. Suas mãos ainda tremem e ela não consegue segurar uma nova lágrima quente e ácida que lhe brota de um dos olhos. Corroída de ansiedade, de novo meio para si e meio para ele, deixa escapar uma pergunta àquela altura já quase sem sentido...

- Se for ele, Clóvis... O quê que eu vou fazer?

Com um olhar que mistura uma profunda compaixão, fruto do enorme carinho que tem por ela, ao seu gigantesco senso de seriedade profissional, o psiquiatra diz a Ana o que ela já sabe mas claramente precisa dele então ouvir...

- Se for ele, não sabemos ainda o que fazer! Mas sabemos, dra. Ana Clara Wilson, o que não podemos fazer!

Ela entende de pronto a clara alusão à indeclinabilidade do sigilo profissional do psicólogo. Como uma frágil folha de receituário, ou um pequeno cartão de visita, sente-se ser rasgada ao meio pelas inconsenqüentes mãos de um destino injusto e cruel. Chora.

- Meu deus! É simplesmente a vida da minha irmã que está em jogo...!

Seríssimo, observa o dr. Clóvis...

- E simplesmente é também a tua carreira, pela qual você tanto lutou, que está em jogo!

Ana Clara ouve aquilo e chora mais. Chora um choro há quatro dias contido, que, com lágrimas e fluídos nasais, qual lava de um vulcão agora incontrolavelmente se faz liberar. Resta ao dr. Clóvis voltar a lhe dizer...

- Um passo de cada vez, Ana! Primeiro vamos confirmar...

Enquanto uma lágrima passa ao lado do seu queixo e já lhe escorre pelo pescoço, Ana Clara outra vez assente com um leve gesto de cabeça. E chora. E chora. E respira fundo.

Gugu Keller

quinta-feira, 1 de novembro de 2012