segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

sábado, 29 de dezembro de 2012

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

A Esquina - Capítulo 17

Aflitíssima, Ana Clara levou exatos 35 minutos para chegar do consultório do dr. Clóvis na casa de sua irmã. Por mais que dirigisse tão depressa quanto podia, o trânsito paulistano não lhe permitiu ser mais breve. Apenas na esquina entre as ruas Hermann e Violeta, a cerca de oito quarteirões do prédio de Ana Cláudia, ela ficou retida mais da metade desse tempo, já que o mvimento ali é muito grande durante a tarde e o semáforo estava programado de um modo que claramente desfavorecia quem vinha por onde ela vinha. Por sorte, ao menos, não teve dificuldade para achar uma vaga para estacionar, como é comum acontecer naquela região naquele horário.

Ana Clara aperta o botão do sétimo andar com o coração a quase lhe saltar pela boca. O que pode ter acontecido? O nervosismo de sua irmã ao telefone era algo simplesmente indescritível. Já não basta, pensa, toda a situação por que ela, Ana Clara, está passando e a dura decisão que acaba de tomar, que envolverá revelar a Ana Cláudia algo tão complicado como o que ela veio a saber sobre o cunhado? Quinto, sexto, sétimo andar. Ana Clara toca a campainha. Ainda não imagina que, afinal, já não mais terá que fazer a tão difícil revelação...

Com o rosto avermelhado e tomado de lágrimas, Ana Cláudia abre a porta e se joga nos braços da irmã. Compulsiva e ruidosamente chora. Não resta a Ana Clara outra opção que não seja a de recebê-la com tanto conforto quanto lhe é possível, experimentando uma estranha sensação ao se ver na mesmíssima situação em que sua vizinha, dona Helena, esteve quando era ela, Ana Clara, quem aos prantos se punha a desesperadamente a abraçar.

Mas Ana Clara, mesmo tentando acudir a irmã como lhe é possível, ainda, e ainda mais, está também nervosíssima, na medida em que não sabe o que aconteceu. Terá morrido alguém? Sua mãe, como novamente chega a pensar? Terá algo grave acontecido com sua sobrinha? As duas entram e Ana Clara, sempre abraçando Ana Cláudia, fecha a porta por dentro. É quando observa que a sala do apartamento, além de totalmente bagunçada, está cheia de objetos quebrados, arrebentados, como se um furacão tivesse passado por ali. O que terá, deus meu, pensa ela, acontecido? Um assalto? Um arrastão?

- Claudinha... Pelo amor de deus... Tenta se acalmar e me fala o quê que aconteceu para eu poder te ajudar...!

Às lágrimas, Ana Cláudia expele um xingamento cheio de ódio...

- Porco! Porco imundo! Eu odeio aquele porco imundo!

Pausa.

- De quem você está falando, Claudinha? Quem que você odeia?

- Eu odeeeeeio! Desgraçado! Filho de uma puta!

Ana Clara a segura pelo rosto molhado de lágrimas e a encara bem nos olhos...

- De quem você está falando, minha irmã? Fala para mim, que eu quero te ajudar...!

Ana Cláudia volta a ter profuso um choro que não havia parado, mas um pouco diminuído. Com dificuldade, quase que sem conseguir retribuir o olhar da irmã, enfim diz...

- O Gladston... Eu odeio o Gladston! Ele é um porco! Um nojento! Um desgraçado!

Ao mesmo tempo em que sente um tranco no peito ao ouvir o nome do cunhado, Ana Clara ao menos começa a compreender a situação. Algo aconteceu entre o casal. O estado em que se encontra o apartamento não é decorrência de um assalto, mas de uma briga entre Ana Cláudia e Gladston, e, pelo que conhece da irmã e, sobretudo, está vendo diante de seus olhos, a coisa foi bastante séria.

De certo modo aliviada por ter apurado que ninguém morreu ou está morrendo, Ana Clara dedica os próximos quinze minutos a acalmar a irmã. Chega a fazê-la entrar debaixo do chuveiro e lhe dá um comprimido do ansiolítico que, receitado pelo dr. Clóvis, está tomando, cuja caixa estava em sua bolsa. Com água com açúcar, Ana Cláudia o ingere. Finalmente, mesmo que algumas lágrimas ainda lhe insistam, esta consegue ao menos organizar suas idéias o suficiente para relatar à irmã o quanto se passou. Ladeadas por objetos quebrados e atirados ao chão, as duas se sentam no sofá da sala e Ana Cláudia apanha da mesa de centro uma media de dvd, com a qual gesticula enquanto fala para Ana Clara...

- Sabe o que é isso, Clarinha?

- Um cd...?

- Não! Um dvd!

- Um dvd? Que dvd?

- Um dvd, minha irmã, que siginifica o fim do meu casamento! O triste e definitivo fim do meu casamento!

Ana Cláudia sente um novo tranco no peito. Pensa no dr. Clóvis e, outra vez, em toda a situação por que está passando. Será que as coisas poderiam se encaminhar de uma nova e inesperada maneira? Mais alguns segundos e ela teria que sim...

- Por que, Claudinha? O quê que tem nesse dvd?

Pausa.

- Lembra daquela tarde em que você esteve aqui e eu te falei sobre aqueles problemas?

- Sim, claro! Você disse que o teu marido estava meio frio, meio distante...

- Exatamente!

- Você estava pensando se podia ser só uma fase...

- Sim! Só que foi piorando, Clarinha... Cada vez mais ele se afastava... Nem lembrava mais que eu existia, sabe? Aí, uma idéia começou a me incomodar... E eu resolvi pagar para ver... 

- Como assim, Claudinha? O quê que você fez?

- Eu comecei a achar que ele tinha outra, sabe? Que estava me traindo... Era a única coisa que poderia explicar o que estava acontecendo...

Pausa.

- E...?

- Como eu te disse, eu resolvi pagar para ver, Clarinha! Resolvi tirar a limpo!

- Como? O que exatamente você fez, minha irmã?

- Eu contratei um detetive para descobrir...!

Gugu Keller

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Resoluções

Determinar um momento futuro para começar algo apenas por tratar-se de uma data "redonda", ou simbólica, ou que de algum modo marque a mudança de um dígito numérico, como é bastante comum fazermos quando está para se iniciar um novo ano, é claramente um mero artifício psicológico que usamos para aplacar a culpa que sentimos pela nossa inércia diante dos nossos próprios sonhos. E normalmente, bem sabemos, não dá certo. A data fica para trás, nós não começamos, ou começamos e logo paramos, e ficamos a esperar uma outra data, como um aniversário, uma mudança de estação ou o que seja. E aí, os anos vão se passando e a coisa tende a tornar-se cíclica. Ou nos damos conta de que a hora é sempre e apenas agora, ou esse vicioso ciclo de auto-engodo e frustrações inevitavelmente nos acompanhará pelo resto de nossos dias.
 
Gugu Keller
 

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Papai Noel

Para serem mais convincentes, as grandes mentiras abusam do colorido.

Gugu Keller

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Feliz Natal!

E cá estamos de novo nesta data em que, entre presépios, manjedouras e reis magos, e com a sempre doce e mágica onipresença do bom velhinho, alegres renovamos, como de costume, o nosso tácito porém inquebrantável pacto de hipocrisia coletiva. Feliz natal a todos!

Gugu Keller

domingo, 23 de dezembro de 2012

sábado, 22 de dezembro de 2012

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A Esquina - Capítulo 16

Na sexta-feira, dois dias após ela ter tido alta do hospital e recebido a notícia acerca da grave situação de Fernando, Natália foi, acompanhada de seus pais e de sua amiga Carolina, ao consultório do traumatologista que o atendeu. Aproximava-se, entendia-se, a hora dela pela primeira vez o ver, e o médico a chamou para uma conversa que cria necessária a respeito de como seria a vida do marido doravante, a partir do momento em que também deixasse o hospital.

É claro que Natália sabia muito bem o significado da palavra "tetraplégico", que lhe foi anunciada na antevéspera como a condição em que Fernando se encontrava após o acidente. E já não lhe saía da mente, apesar de então ainda futura, a constante imagem dele numa cadeira de rodas. Mas ela, até pelo recente de tudo aquilo, ou talvez numa espécie de auto-defesa psicológica, não havia, por exemplo, concebido que ele, conforme agora lhe seria explicado, havia perdido também o movimento dos membros superiores. A rigor, ela agora o saberia, Fernando estava totalmente imobilizado do pescoço para baixo, sem, pelo menos dentro das atuais possibilidades da medicina, qualquer chance de reversão desse quadro.

Providenciou-se para que os quatro pudessem se sentar diante da mesa do médico, de modo que Natália eis ali ladeada por seus pais à esquerda e pela grande amiga à direita. O profissional começou a falar...

- Bem, sra. Natália... Parece-me que os srs. seus pais aqui presentes por cima já a puseram a par da situação do sr. seu marido...

Com dificuldade, ela praticamente balbuciou...

- Sim... Eles me disseram... Que o Fernando está tetraplégico...

- Sim, é verdade! - disse o médico. - O sr. Fernando teve uma grave lesão cervical. Na verdade, três lesões. Todas entre a primeira e a sétima vértebra. Num caso assim, infelizmente, temos, como conseqüência, um quadro de tetraplegia bastante severo!

Pausa. Natália chora. A mãe e a amiga lhe acariciam ombros e mãos. Ainda meio balbuciando, ela tenta continuar a dialogar com o médico...

- Isso quer dizer, dr.... Que ele não pode mais andar...? Está condenado a uma cadeira de rodas...? É isso...?

Consternado, apesar de sua considerável experiência em condições análogas, o especialista troca um grave olhar com os pais de Natália antes de responder...

- Na verdade, sra. Natália, é bem mais do que isso...

- Como assim, dr.?

Pausa.

O sr. Fernando não perdeu apenas os movimentos das pernas, como a sra. está imaginando... Infelizmente, ele perdeu todos os movimentos e a sensibilidade do pescoço para baixo...!

Natália sente um tranco no peito seguido de uma súbita tontura. Apesar do sedativo que ainda toma, as lágrimas correm por seu rosto enquanto ela se sente tomada de um completo desespero...

- O sr. quer dizer que...

- Sim! Ele perdeu não apenas os movimentos das pernas, mas também os dos braços! Como eu disse, do pescoço para baixo, ele está imóvel e insensível...!

- Meu deus, mas...

- Infelzimente, sra. Natália, o seu marido está incapacitado para todas as atividades do dia a dia, por mais simples que sejam...! Pelo resto de sua vida, ele precisará ser alimentado, vestido, transportado, precisará que alguém lhe dê banho, escove os dentes etc, e não terá mais nenhum controle sobre as suas necessidades fisiológicas...!

- Ai, meu deus! Meu deus do céu! O que foi que eu fiz, meu deus?!?

Os três acompanhantes já choram junto com Natália, e, ainda que a percebendo num verdadeiro estado de terror, o médico, por crer melhor que tudo seja dito de uma vez ao invés de aos poucos, refere-se enfim a algo que possivelmente ela  já tenha concluído...

- E tem mais uma coisa, sra. Natália... Algo que, como esposa do paciente, e sra. deve desde já ficar ciente...

Tremendo e chorando, ela, que, na verdade, devido a todo o contexto, ainda não havia atinado o quanto está para ser dito, pergunta, já pensando que nada pode ser pior do que tudo o que já ouviu...

- O que, dr.?

- Infelizmente, o seu marido está incapacitado para a intimidade conjugal...!

Ela quase gagueja...

- O sr. está falando... O sr. está falando...?

- Sim, sra. Natália! Eu estou falando sobre sexo! Infelizmente, o seu marido, o sr. Fernando, não pode mais fazer sexo...!

Gugu Keller

 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

9.871

O capitalismo é o sistema através do qual o absolutismo travestiu-se de democracia.

Gugu Keller

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Incidadãos

Costumamos, via omissão, ser os primeiros a desrespeitar nossos próprios direitos.

Gugu Keller

sábado, 15 de dezembro de 2012

Quanto Vale a Vida?

Com o novo massacre ocorrido ontem nos Estados Unidos, volta à tona o debate sobre a facilidade de se adquirir armas naquele país, tema que, apesar de aqui a questão ser diferente no aspecto legal, tem tudo a ver conosco, que somos um país tão violento, e com o mundo inteiro. E aí eu fico pensando, sabem? Se a vida humana tivesse um mínimo valor diante dos grandes interesses econômicos, armas de fogo sequer deveriam poder ser fabricadas! E muito menos de qualquer modo comercializadas! Ou será que falo besteira?

Gugu Keller 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A Esquina - Capítulo 15

Cinco anos haviam se passado, 20 de julho de 2003, 19 de julho de 2008, desde que, algumas semanas após ter recebido aquele inesperado telefonema do dr. João Silas, Rodrigo afinal concordou em ir vê-lo e dele recebeu aquela notícia que mudou tudo a respeito de Raquel, fazendo com que para ele, Rodrigo, o verdadeiro pesadelo começasse. E, em virtude justamente do quanto ouviu do ex-sogro naquele domingo, naquele maldito 20 de julho, faz também, pela diferença de apenas um dia, quase exatos cinco anos, um lustro, como dizem os rebuscados, que Rodrigo não vê diante de si, como vê agora, ainda com a calcinha dela numa de suas mãos, a de Natália, uma vagina. Uma linda, rósea, úmida, apetitosa, peluda na medida certa, a exalar seu típico e convidativo aroma e para ele aberta a se ofertar, vagina. Por uma fração de segundo, Rodrigo pensa em Flávia, dona da última que, cinco anos atrás, ele viu e chupou, e em Raquel, da que mais as duas coisas fez. Mas ainda no mesmo segundo ele volta a Natália, a dona desta, a da festa, e da outra festa, e com quem ele está nesta, que há de de algum modo ser eterna, a dois festa afinal.

A calcinha branca toca o branco da parede, que atinge antes de, após o arremesso, ir ao carpete que cobre o chão. Rodrigo e Natália, ela deitada, ele ainda de joelhos sobre a cama dela diante, trocam um novo olhar que mais do que trocam. Sim. Seus olhos se trocam, se tocam e se devoram. Atravessam-se, transpõem-se e saem cada qual pela nuca do outro. Não, nunca ninguém se olhou assim e tampouco a outrem um olhar assim retribuiu. Sobrevivente do deserto a contemplar no oásis a linda lagoa, de onde em instantes beberá a mais pura das águas, Rodrigo baixa seu corpo deitando-se e se ajeitando entre as pernas dela, cuja abertura ela aumenta para o melhor aceitar. Ele a abraça pelas coxas e, a meio palmo de seu rosto, e ele ainda a contempla antes de a tocar, eis, divina e definitiva, a vagina de Natália. O púbis, os pêlos, o grelo. O branco das virilhas, o róseo da mucosa. A forma dos lábios, o cume do clitóris. O aroma, o perfume, o hálito. Vagina. Vagina de Natália. Chulamente, a xana, xoxota, boceta de Natália. Sim. É. Eis Natália ali, pronta, aberta, oferta, a mostrar-lhe escancarado o seu íntimo e palpitante coração vulvar.

Tão vagarosamente quanto possível, Rodrigo aproxima sua boca entreaberta da porta do céu destrancada diante de si. Devagar, devagar, devagar, devagar. Bem sobre o vão, e bem de leve, primeiro o superior e depois o inferior, os lábios enfim tocam os lábios, e sentem os pêlos, a mucosa a suave tocar a mucosa. Antes de qualquer movimento, ele a deixa a sentir apenas o seu sobre ela respirar. Mais pela boca, ele respira quente, insinuante, salivante. A ponta do seu nariz, também bem de leve, entrementes também toca a vulva, e nele ele também sente os pêlos, e, com ele, dela sente o cheiro. Chuveiro. Cheiro cheio de chama. No chulo, cheiro de xana. Cinco anos, Raquel, Flávia, Natália. Cheiro, choro, chama. Vulva. Válvula a revolver a vida.

Com a lentidão de uma lesma, bem sobre onde os moleques em seu chulo chamam lesma, Rodrigo faz sua língua surgir entre seus lábios. Devagar, devagar, devagar. Toque, choque, e Natália estremece. Leve. Ponta da língua, pontada, coração.

Gugu Keller

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Canal Lacan

É preciso que o amor, para um profundo e pleno gozo
Seja um perigo proibido e com um quê de pesaroso

Gugu Keller

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Sonhos

Mesmo que já seja tarde para se dizer que é cedo, ainda é muito cedo para se pensar que é tarde.

Gugu Keller

domingo, 9 de dezembro de 2012

Radar Nada

A solidão nos é, a rigor, inerente, e o externo, a respeito, irrelevante.

Gugu Keller

sábado, 8 de dezembro de 2012

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A Esquina - Capítulo 14

Pensativo e preocupado, com uma feição extremamente séria, o dr. Clóvis encarou Ana Clara por vários segundos antes de dizer qualquer coisa após o que dela ouviu. Com uma expressão de quem agora chora seco por ter exauridas as glândulas lacrimais, sentada numa cadeira diante da mesa dele, ela lhe devolve à altura o pesado do olhar. Finalmente, sem a julgar em sua decisão mas buscando fazer com que ela ao menos não se precipite, ele pergunta...

- Você tem certeza?

Pausa e, segura em sua areia movediça, ela responde...

- Sim, tenho! A decisão está tomada!

Ele pensa um pouco mais. Como se cada palavra pronunciada fosse um mover de peça num tabuleiro de xadrez, fala devagar...

- Bem... Eu não preciso te dizer nada quanto às eventuais conseqüências dessa tua decisão...

- É claro que não, Clóvis! Você sabe que eu estou perfeitamente ciente! Mas eu não tenho escolha, entende? Ou faço isso, ou enlouqueço...!

De uma jarra incolor posta numa bandeja sobre a sua mesa, o psiquiatra/psicólogo serve água em dois copos. Estende um para ela, que o apanha de bom grado, e depois do seu toma um gole.

- E quando você pretende falar com ela?

Ela também bebe.

- O quanto antes! Hoje, se for possível!

- Não quer pensar um pouco mais?

- Não posso, Clóvis! A vida dela está em jogo!

- Veja bem, Ana Clara... Eu não estou censurando a sua decisão! Você é suficientemente madura e esclarecida para saber o que faz! Eu apenas não quero que se precipite...

- Eu sei, Clóvis! Eu entendo e agradeço! Mas o problema é que, cada vez que ela faz sexo com aquele maldito, ela está exposta a se contaminar... Você entende isso? Um dia pode fazer a diferença! Teve aquela absurda coincidência dela ter feito o teste para acompanhar o amigo, lembra que eu te contei?

- Claro!

- Pois então... Isso faz seis semanas, e ela não estava infectada! Ou seja, não há tempo a perder!

- Entendi, Ana Clara... Entendi...

Sempre pensativo, o dr. Clóvis bebe. Já quase liqüida o copo. Pausa e, diante da firme decisão de Ana Clara de passar por cima do sigilo profissional e contar à irmã sobre o relacionamento entre Gladston e o travesti, ele decide abordar um outro aspecto da questão...

- Quando será a próxima sessão com a Andréa?

- Eu estive com ela anteontem... Daqui a cinco dias!

- E como você vai proceder com relação a ela?

Pausa. Ana Clara se sente extremamente desconfortável. É como se se lembrasse, não que o tivesse esquecido, do enorme problema que tem acessório ao problema gigante. Expira.

- Eu ainda não sei, Clóvis... Sinceramente, eu ainda não sei...

Ele olha. Não diz nada. Ela continua...

- Não sei se vou contar para ela... Se não vou... Se vou continuar a atendê-la... Se invento uma desculpa para não continuar... Também não sei exatamente como a Ana Cláudia vai regair quando eu der a notícia... Ela vai ficar desesperada e eu não sei se ela vai conseguir omitir do Gladston que soube de tudo através de mim... Eu não sei, Clóvis... Sinceramente, eu não sei!

Faz-se uma pausa longa. O dr. Clóvis novamente encara a sua amiga e discípula, que, desta vez, não lhe retribui o olhar, mas, dando um gole em sua água, olha para o chão. Ele diz afinal...

- Tá certo, Ana! Se você decidiu contar para a sua irmã, vá e faça isso! Com relação ao atendimento, depois você pensa com calma no que fazer... Vai ser tão difícil o que você vai passar quando puser a Ana Cláudia a par de tudo, que não faz mesmo sentido você decidir isso agora...! No momento certo, você decide... É o mais sensato! Um passo de cada vez!

- Sim! É isso! É o que eu vou fazer!

Contudo, já que se há algo em que o destino é profícuo é em caprichos, o celular de Ana Clara toca e tudo repentinamente começa a mudar de rumo com relação ao que ela com tanto dilema e sofrimento decidira. Pelo visor do aparelho, ela vê que é justamente sua irmã quem chama...

- É ela, Clóvis! A Ana Cláudia!

Atende.

- Alô!

Susto.

- Claudinha??? Mas o quê que foi??? O quê que você tem???

O dr. Clóvis sente o problema e acompanha preocupado. Ana Clara olha para ele enquanto fala...

- Calma, Claudinha!!! Fica calma!!! É alguma coisa com a Manú??? Não, tudo bem! Tá, eu tô indo! Em meia hora eu tô aí! Mas fica calma, pelo amor de deus!!!

Desliga.

- Meu deus do céu, Clóvis!!!

- O quê que aconteceu???

- Ela não disse! Mas estava em prantos! Pediu para eu ir para a casa dela agora!

- Mas o que pode ser?!?

- Ela disse que com a minha sobrinha está tudo bem... Estou preocupada que seja algo com a minha mãe...

Ana Clara liqüida o copo d'água, pega sua bolsa e já vai sair...

- Você vai bem? - pergunta o dr. Clóvis atencioso.

- Sim, vou! Depois eu te ligo para dar notícias...

- Tá! Qualquer coisa, liga mesmo!

- Tchau!

- Tchau!

Nervosamente, Ana Clara se vai. Preocupadamente, o dr. Clóvis pensa.

Gugu Keller

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

domingo, 2 de dezembro de 2012

Querida...

Adora-te sem dor o em mim que aflora a tua flor enquanto amornas-me de amor.

Gugu Keller

sábado, 1 de dezembro de 2012

Koalas

Num abraço sempre atentamos para o calor dos braços e para o contato entre os rostos, mas é interessante observar como também é o momento em que dois corações batem mais próximos um do outro.
 
Gugu Keller