sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A Esquina - Capítulo 18

Rodrigo estranhou muito encontrar o carro com a porta destravada. Ainda que uma distração obviamente seja sempre possível, ele se lembrava bem de a ter trancado por fora como era, sempre foi e ainda é, de  seu hábito. Por um instante, creu que a preguiça que teve de retirar o cd player lhe o havia custado. Não se pode bobear aqui em São Paulo, pensou. Basta deixar o carro na rua dez minutos e os ladrões já dão o bote. Mas não. O aparelho ainda estava lá. O carro havia, sim, sido arrombado, mas a finalidade, agora que abriu a porta ele o apurou, havia sido outra... Uma tão surpreendente quanto estranha finalidade...

"Rodrigo, assista este vídeo e você saberá quem é a sua mulher." era o que se lia, em uma letra de forma que certamente ele não conhecia, no envelope pardo deixado sobre o assento do motorista. Dentro dele, uma media de dvd sem nada nela escrito. O que diabos seria aquilo? Nervosismo, medo, conjecturas. Sendo Raquel filha de um homem poderoso, político conhecido e abastado, poderia ter sido seqüestrada? Eles tomaram café da manhã juntos naquele dia mas, quatro da tarde agora, não haviam mais se falado. Seria possível? Rodrigo leva a mão ao celular e faz menção de ligar para esposa. Mas pára. Desiste. O que está escrito no envelope, afinal, não sugere um seqüestro. Rodrigo pensa. Hesita. Chega a olhar em volta para ver se ninguém o observa. Ninguém. Depois pensa em desfazer-se de pronto do envelope com a media dentro. Talvez uma brincadeira, a que nem vale a pena se dar atenção. Conjecturas, hesitação. Finalmente ele decide. Após mais uma olhada à sua volta, liga o carro e toma o rumo de sua casa. Raquel só deve chegar depois das sete da noite.

Quatro e quarenta. A empregada está em casa mas cuida da roupa suja na área de serviço. Rodrigo vai ao pequeno escritório que Raquel e ele têm no apartamento, onde há um computador onde pode assistir ao dvd, e se tranca por dentro. Ainda hesita. Pensa, examina, conjectura. Chega a questionar de si próprio se não está cometendo um erro, na medida em que a media possa conter algo que de algum modo lhe comprometa o aparelho. Ele não faz nenhuma idéia da procedência daquilo afinal. Mas conclui que o novo temor não faz sentido. Melhor ver logo o que há ali para acabar com aquela ansiedade. Rodrigo insere a media no computador e clica no "play". Três segundos, cinco, e eis o seu pesadelo começando...

O vídeo mostra a imagem de um quarto, aparentemente de hotel. Vê-se bem a cama, um espelho na parede atrás dela e o criado-mudo com um telefone e os típicos botões de controle de som e tv. No início, o quarto está vazio, até que, passados os referidos segundos, alguém abre a porta e entra. Trata-se de um homem de certa idade, uns 65 anos talvez. Tem os cabelos brancos algo prejudicados por um pouco de calvície e usa um terno cinza com uma gravata azul. É um senhor, percebe-se, de considerável elegância. Mais uns dois ou três segundos depois que este entrou, então, recebe o intrigado espectador um violento baque em seu peito. A acompanhar o homem, surge pela porta uma mulher, que, antes de qualquer coisa, parece observar bem o ambiente... É Raquel, a esposa de Rodrigo, a tão amada e adorada esposa de Rodrigo.

Gugu Keller

4 comentários:

  1. Gugu,

    Obrigada por ter lido. Fique a vontade pra responder onde preferir...

    Abraço

    Camila- Ninho de Fogo

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  2. Amanhã ou depois escrevo em teu blog então...
    Abs!
    GK

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  3. olá parabens por escrever tão bem. Gostaria de seguir vc, mas está bloqueado...

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  4. Obrigado, amiga! Tente de novo! Deve ter sido alguma falha ou algum equívoco, pois não está bloqueado, não!
    GK

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