sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A Esquina - Capítulo 19

Logo em seguida ao telefonema do marido, às quatro da tarde, em que, como vinha sendo cada vez mais freqüente, ele dera uma desculpa descaradamente esfarrada para justificar que chegaria mais tarde em casa, Ana Cláudia ligou para o detetive com quem se acertara na véspera, Sidney, e lhe disse que o momento era propício para que entrasse em ação. Eficiente, e até por já ter sido previamente muito bem pago, ei-lo, o detetive, duas horas depois, a, com extrema discrição e uma câmera filmadora a postos, seguir Gladston desde o momento em que este deixou a empresa onde trabalha.

O trânsito do fim de tarde paulistano faz com que o Gol preto trafegue devagar. A dirigir sua motocicleta, Sidney, com razoável experiência na atividade, é hábil em manter-se a uma distância segura. Cerca de quarenta e cinco minutos se passam naquilo, até que o carro estaciona numa rua de um bairro residencial de classe média. Também já estacionado, e sempre discreto, Sidney aciona a câmera cujo zoom lhe permite melhor observar Gladston, que não desceu do carro, e percebe que ele faz um telefonema pelo celular. Parece claro que veio apanhar alguém. Dito e feito, cinco minutos se passam e uma mulher sai de um prédio e se encaminha para o Gol preto. Abre a porta e entra. Gladston e ela beijam-se na boca. O motor do carro é ligado. Pisca-pisca e o casal sai dali. Eis o marido de Ana Cláudia, diante dos olhos do profissonal da investigação por ela contratado, claramente a caminho de de novo a trair. Bem filmado o referido beijo, o material a rigor até já seria suficiente para um grande estrago na vida conjugal da contratante do serviço. Mas, até, repita-se, por ter sido com antecedência bastante bem pago, Sidney prometera um trabalho completo. E assim seria...

Seis minutos após Gladston ter apanhado a acompanhante, enquanto estão parados num semáforo, novamente, por clara inicitiva dele, o casal se beija, este um beijo mais longo, oito segundos. De novo Sidney com clareza o registra. O trânsito segue, mais alguns minutos, e eis o Gol preto, cuja placa, como se isso ainda fosse necessário, o detetive faz aparecer com clareza nas imagens, a entrar num hotel, cuja fachada é também fartamente bem registrada. Sidney desliga a câmera, estaciona a uma distância segura e põe-se a esperar.

Não demoram muito. Uma hora mais ou menos se passa e lá vem o Gol garagem afora. Sidney anota o horário para o relatório, religa a câmera e vai para a parte final da diligência. Mas havia um detalhe no caso, até aqui despercebido, que, ao cabo de mais alguns minutos, viria-lhe à tona...

Em sua moto, sempre a uma distância calculadamente preventiva, Sidney segue Gladston e logo fica claro que este não deixará a pessoa com quem está no mesmo endereço onde a apanhou. Ele agora tomou o rumo do centro da cidade. Mais alguns instantes e se descortinaria para o detetive o detalhe acima referido, que, diga-se de passagem, tornaria tudo mais dramaticamente bombástico... É que Gladston, após lhe dar um novo longo beijo na boca, deixa a acompanhante, agora cerca de nove horas da noite, no começo de um quarteirão famoso por ser um ponto de prostituição. Mas não prostituição feminina. Prostituição de travestis. Sidney intriga-se. Será? Gladston se vai com o Gol preto. Já não mais a o seguir, Sidney avança devagar e observa a acompanhante na calçada. Sim, parece ser um travesti. Bastante belo, feminino, mas, também por ter ficado ali, bem naquele lugar, sim, é quase certo de um travesti se tratar. Sidney passa ao largo e decide... O trabalho, para ser bem feito, ainda requeria um último passo...

O detetive vai até seu escritório, onde deixa a moto e a câmera manual. E ei-lo, agora de carro e com uma microcâmera, que também capta som, imperceptivelmente acoplada na gola de sua camisa, de volta ao mesmo quarteirão no centro da cidade. Dá uma volta. Duas. Olha. Procura. Onde está ela? Vê. Aproxima-se. Abre o vidro do carro e se faz passar por um potencial cliente...

- Oi!

- Oi! - responde a sorrir Andréa, com uma voz que deixa absolutamente claro de fato não se tratar de uma mulher.

- Como é o seu nome?

- Andréa!

- Quanto está o programa, Andréa?

- Cinqüenta!

Conforme já observado por Sidney, disse-se, ela é bastante feminina e tem belos traços. Mas percebe-se inequivocamente, sobretudo, repita-se, pela voz, que é um travesti. De todo modo, sempre profissional, o detetive faz-lhe uma pergunta para que, sob hipótese alguma, não reste dúvida de nada...

- Você faz ativo, Andréa?

- Claro! Sem problema! É a minha especialidade!

- E o seu dote? É grande?

Andréa sorri.

- É... Dizem que sim...

Sidney dá uma desculpa e vai embora. Diz a Andréa que talvez apareça amanhã. Agora pensando na sua cliente, a dirigir, ele murmura consigo...   

- Pobre mulher...

O trabalho estava feito. Restava apenas editar as imagens numa media de dvd. No dia seguinte, o celular de Ana Cláudia tocaria e ela seria convidada por Sidney ao seu escritório. Seria o pior dia da vida dela. Mas logo superado por um outro, ainda pior, ao cabo de algumas semanas...

Gugu Keller 

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