sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A Esquina - Capítulo 21

Desde a primeira semana após o carnaval de 1993, mais de dez anos, portanto, naquele fatídico domingo de julho já fazia, "seu" Nésio, apelido de Genésio, biscateava naquela esquina. Tendo tanto a rua Hermann quanto a Violeta um razoável movimento, o cruzamento com farol e pouca concorrência ambulante de pronto paraceu-lhe promissor. No começo ele se limitava a esmolar. Com o tempo, passou a vender coisas. Balas, chicletes, água, refrigerantes, flanelas, adesivos, bichos de pelúcia, alho. Em certa fase angariava trocados lavando pára-brisas. Noutra, usava muletas para melhor tentar apiedar os passantes. Quando não mais as agüentou, já que, mesmo velho e cansado, a rigor delas não precisava, e também porque, tendo sido encontradas no lixo já bastante usadas, encontravam-se elas agora em lamentável estado de podridão, explicou aos muitos que ali já o conheciam que havia conseguido realizar uma milagrosa cirurgia num hospital municipal, a qual, com a bênção do senhor, trouxe-lhe de volta o movimento das pernas. Para o bem de sua reputação, teve a sorte de praticamente ninguém ter reparado que, ainda quando ele usava as muletas, durante um assalto, com tiroteio e tudo, ali acontecido em 99, ele, de tanto medo, as deixou para trás quando saiu correndo. De todo modo, talvez inconscientemente influenciado pela constante lembrança do vexatório episódio, foi justamente algum tempo depois disso que ele, também, como se disse, reconhecendo a sua referida podridão, fartou-se delas e inventou a referida cirurgia que as aposentou.

Piauiense, nascido no ano de 1922, "seu" Nésio chegou a São Paulo na década de 60. Trabalhou como porteiro de prédio, jardineiro, pedreiro, lixeiro e numa padaria, para mencionar apenas os empregos em que logrou manter-se por mais de três meses. Contando os demais, mais de trinta ele teve. A custar-lhe qualquer possibilidade de sucesso profissional, o álcool sempre foi a sua tragédia. Viu sua esposa morrer atropelada em 1971 e um de seus filhos, numa briga de bar, a facadas em 1973. Seus outros três filhos, um filho e duas filhas, já há muito perdeu de vista. O rapaz, de que soube pela última vez já faz vinte anos, encontrava-se preso então. A mais velha das moças casou-se e voltou para o Nordeste, ele não sabe bem se Pernambuco ou Paraíba, e a mais nova ele sequer chegou a ter ciência de que se enveredou pela prostituição e de que foi morta por um cafetão num desentendimento financeiro, também, como o irmão, a golpes de faca.

Tendo já vivido em muitos barracos de favela e passado inúmeras noites em albergues públicos ou sob viadutos, foi para o "seu" Nésio um golpe de sorte da vida a dona Escolástica ter-lhe cedido aquele quarto no fundo do cortiço, a três quarteirões daquela esquina, sem qualquer custo. Com a metragem de dois por dois metros, ali ele tem uma cama, um armário velho e uma pequena mesa onde pode deixar os seus poucos pertences, entre eles o precioso rádio de pilhas com que, sem quase entender nada devido à rapidez dos locutores, ele gosta de acompanhar os jogos do Corínthians. Seu coração ainda é do Ríver de Teresina, mas já há décadas não tem qualquer notícia do campeonato piauiense, razão porque acabou escolhendo o alvi-negro paulistano. Chegou a ter uma antiga televisão, com que, com um pedaço de bombril na ponta da antena, conseguia às vezes assistir alguma coisa. Gostava muito do programa Sílvio Santos. Numa época de poucos ganhos na esquina, entretanto, acabou vendendo o aparelho para comprar bebida, gênero de que, definitivamente, nunca pode abrir mão para se manter. Pelo quanto bebe, a rigor, muito mais do que a operação de que fala e que jamais houve, ele estar vivo e razoavelmente lúcido, a ponto de montar quebra-cabeças, passatempo por que é apaixonado desde moço, é, indubitavelmente, um verdadeiro milagre.

Sim, o "seu" Nésio sempre teve essa paixão por quebra-cabeças. Mesmo nunca tendo tido o prazer de entrar numa loja de brinquedos para comprar um, possui dezenas deles em seu pequeno quarto. Sempre já usados, alguns, como as muletas, achou no lixo, e vários outros ganhou de presente, inclusive, naquele julho de 2003, um da dona Escolástica, uma bucólica paisagem de montanha que havia sido de um de seus netos, com que este já não brincava.

Naquela madrugada fatídica, domingo, dia 20, "seu" Nésio ainda estava na esquina. Frio que fazia, havia tomado uns goles de pinga, mas não o bastante para lhe tirar a razoável lucidez. Tanto que, cansado de por horas ter vendido balas, ele estava sentado no seu caixote, diante do qual, num outro caixote, sob a luz do poste, lentamente montava o quebra-cabeça recém ganho de sua benfeitora. Aos poucos ia-lhe surgindo a bela paisagem. Montanha, verde, flores, um lago, céu azul, pássaros, árvores, pôr do sol. "Lindo", pensou o "seu" Nésio. Quando ele encaixou a última peça, sorriu com seus apenas cinco dentes e levantou a cabeça. Foi quando observou os dois carros vindo em altíssima velocidade. O que vinha pela rua Hermann tinha o farol aberto para si. Entretanto, mudando o farol para o amarelo quando se encontrava a poucos metros do cruzamento, ele não fez menção de tentar parar. Ao contrário, acelerou ainda mais. O que vinha pela rua Violeta até pareceu diminuir um pouco a velocidade, já que o farol estava fechado para ele, mas, vendo-o abrir conforme se aproximava da esquina, novamente forte acelerou. Eram 3:53 daquele domingo, 20 de julho de 2003.

Gugu Keller    

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