sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A Esquina - Capítulo 23

4 de julho de 2003.

O passar dos meses após a separação da irmã havia feito, o tempo tem esse dom, com que Ana Clara visse um pouco diminuir a sua quase perene preocupação com a possibilidade dela, a irmã, ter sido contaminada pelo hiv. Ana Cláudia, apesar de todo o acontecido, decerto por um compreensível medo, procrastinava em fazer um novo teste, por mais que seu amigo Peninha, desde que soube de tudo com relação a Gladston, permanentemente insistisse na importância de tanto e sempre se prontificasse a, retribuindo a anterior solidariedade, acompanhá-la no refazer o exame. Quanto a Ana Clara, que, por óbvio, com extremo sofrimento ansiava para que aquilo fosse afinal tirado a limpo, esta preferiu, de todo modo, não fazer nenhuma recomendação. Mesmo a torcer fervorosamente por uma decisão positiva da irmã nesse sentido, mantivera-se durante esses meses, seguindo o conselho do dr. Clóvis, calada a respeito. Contudo, com aquela estranha febre que Ana Cláudia vinha apresentando quase que diariamente nas últimas semanas, o pesadelo havia voltado com força total. Ela, Ana Cláudia, consultaria seu clínico geral na próxima terça-feira, dia 8, e, quando fosse a este relatado o motivo de sua semi-recente separação, certamente, cria Ana Clara, ao menos, enfim, o teste seria pedido.

Mas Ana Clara, profissional de extrema ética e competência, sempre conseguia manter-se alheia a tudo isso quando em atendimento. De fato, como se entrasse numa espécie de transe, se em sua sala com um paciente diante de si, o mundo para ela, incluindo até a sua família, ficava do lado de fora. Tanto que, tendo a irmã se separado do cunhado afinal, ela conseguiu, mesmo diante de toda aquela situação, continuar a atender Andréa normalmente, num trabalho que, a poucos dias de completar um ano, vem fazendo muito progresso, com uma espantosa melhora na auto-estima do travesti, que, diga-se de passagem, e Ana Clara, é claro, o sabe, já não mais tem estado ao lado de Gladston, com quem, por motivos que nada têm a ver com Ana Cláudia ou com a sua, de Andréa, soropositividade, ficou extremamente decepcionada.

E particularmente nesta sexta-feira, dia 4, Ana Clara quer estar concentrada em seu trabalho, na medida em que, até por ter tido a agenda bastante cheia, um ano quase após Andréa, que é a mais recente, ter iniciado seu atendimento, ela receberá, numa vaga que se abriu, uma nova paciente, recomendada por um amigo do dr. Clóvis. Às cinco horas da tarde, eis no consultório, diante de Ana Clara, Natália.

- Tudo bem?

- Tudo bem!

Ambas sentadas frente a frente, a terapeuta tem uma ficha sobre uma prancheta em que, como é de praxe no primeiro contato, fará algumas anotações...

- Natália Cristina Lemos Brito! Esse é o seu nome inteiro, certo?

- Exatamente!

- E quantos anos você tem, Natália?

- 30!

- 30 anos... É casada?

- Sou!

- E o nome do seu marido é?

- Fernando!

Ana vai anotando.

- Certo! Fernando... Tem filhos?

- Não!

- E a sua profissão? Você trabalha?

- Sim! Eu sou advogada e trabalho no departamento jurídico de um banco!

Anota.

- Tá! E você já fez algum trabalho de psicoterapia antes?

- Não! É a primeira vez!

- Certo! Então, Natália, eu quero que você fique à vontade para me falar sobre a razão, ou as razões, que te trouxeram aqui... Nós estamos sob sigilo profissional, tá? De modo que qualquer coisa que seja dita, mesmo que você não volte, ficará apenas entre nós!

Pausa. Natália respira fundo. Pela primeira vez depois de um ano, vai falar com alguém sobre aquele sentimento, sobre aquele louco desejo que tanto a corrói por dentro. Felizmente, pelas primeiras palavras trocadas, simpatizou bastante com Ana Clara. Intuitivamente seu coração lhe diz que pode nela confiar.

- Dra.... Eu estou casada há quatro anos e não agüento mais o meu casamento!

- Sei...

- E não é só isso... Eu estou muito apaixonada por outro homem! E com um detalhe, dra.... Este homem por quem eu estou apaixonada é um antigo inimigo do meu marido!

Gugu Keller

8 comentários:

  1. É o primeiro capítulo que leio, dos 23. Parece uma trama bem interessante, e real. Bem real, a provável soropotividade em mulheres casadas, traição, relação extraconjugal, homens casados que tem relações com outros homens....Vou tentar acompanhar.

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  2. Obrigado, Paula! O primeiro capítulo, caso queira pegar do começo, está postado no dia 07-09-2012! De todo modo, é interessante para mim deparar-me com essa tua opinião, de alguém que lê o 23° capítulo sem ter lido nenhum dos anteriores...! Fico feliz por saber que te despertou interesse mesmo sem vc saber o que veio antes... Curioso como as coisas sempre podem ser surpreendentes, não? Seja sempre bem-vinda!
    GK

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  3. hehehehe me vi torcendo para que Ana não tenha HIV pos.
    A dor de Natália deve ser absurda, não é a dor de Natália, mas de muitas Natálias.
    Estou no aguardo do próximo capítulo.
    Bjs

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    1. Pois é, amiga... Não sei se consigo sempre, mas tento fazer com que minhas histórias de ficção sejam o mais próximo possível de situações reais da vida...
      Obrigado!
      GK

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  4. olá, já adicionei o aplicativo dos seguidores..é que até agora nunca tinha sido necessário, hehe. mas obrigada!
    achei seu blog muito interessante tbm.

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    1. Legal! Com muito prazer, serei teu seguidor! E, uma vez mais, obrigadíssimo por tua presença aqui!
      GK

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    2. mudei o aplicativo, agora deve funcionar :)

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