sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A Esquina - Capítulo 25

Despreocupado, Gladston abriu a porta do apartamento a assobiar a melodia de um pagode que acabara de ouvir no rádio do seu carro. Não tinha a menor idéia do que iria enfrentar. Mas, um passo adentro, dois, e ele logo percebeu que algo estava errado. Sentada diante da televisão, com o aparelho de dvd e ela ligados mas sem passar nada, Ana Cláudia tinha um semblante ao mesmo tempo deplorável e assustador. Inclinou o rosto um pouco para a direita e olhou para o marido, exibindo-lhe um par de olhos que pareciam haver chorado rios de sangue. Chegando a pensar em morte, ou em algo grave com a filha do casal, ele perguntou já aflito...

- Ana Cláudia? O que foi que aconteceu? Que cara é essa, meu amor?

Devagar, com uma quase frieza logo desmentida por uma lágrima fugidia, ela diz numa voz baixa e quase rouca...

- Oi, Gladston!

Estranhando, ele se mostra mais aflito...

- O quê que aconteceu, Ana Cláudia?!? Pelo amor de deus!!! Por que você está chorando?!?

Ela então sorri um sorriso turvo, que, auto-irônico, mistura-se ao novamente pranto, e continua falando em ritmo pausado, quase como se algum suspense parecesse, diante do golpe que tanto lhe abatera as forças, fazer de algum modo algum sentido...

- O que aconteceu, Gladston?... Nada demais, querido!... - Pausa. - Aconteceu apenas que eu estou sabendo...!

Ele sente um tranco de adrenalina. Passa-lhe pela cabeça mas ele rejeita a idéia. Não, não poderia ser... Como ela saberia?

Qual estudasse um ser estranho, disforme, que estivesse vendo pela primeira vez em sua vida, ela observa a reação dele reage àquela sua fala lenta e pausada. Por pequeno que fosse, infinitamente longe de ser à altura, era como se houvesse naqueles momentos um já troco para o quanto ele lhe fazia sofrer...

- Eu estou sabendo dela, Gladston!

Ele se apavora.

- Dela??? Dela quem, Ana Cláudia??? Do que você está falando???

Pausa. Ela o encara como se lhe desse um tiro na entre-vista.

- Dela! Dele!

Ele tenta não entender...

- Como é que é???

Ela sorri em luto. Do nariz escorre-lhe um catarro líqüido e quente por sobre os lábios e logo queixo.

- Ah! Você não entendeu, Gladston? 

- É claro que não entendi! Você não está falando coisa com coisa! Está tudo bem com a Manoela?

- Está tudo ótimo com a Manoela! Tirando o fato de o pai dela ser um filho de uma puta, um desgraçado de um porco nojento que não merece a família que tem, está tudo ótimo com ela!

Gladston enerva-se de vez.

- Porra, Ana Cláudia!!! Do que você está falando, afinal???

Ana olha. Pensa.

- Que tal você me falar primeiro?

- Mas falar o quê, porra???

- Sobre essa pessoa!

- Que pessoa???

Misturando agora em uma face pétrea o sorriso satisfeito do carrasco sádico com as lágrimas desesperadas do condenado inocente, Ana Cláudia pronuncia o nome bem devagar, fazendo passar como farpas pelo amargo de sua boca de mulher traída em dobro, ou ao quadrado, cada uma daquelas malditas seis letras...

- Andréa!

Gladston estremece de vez. Viciado, contudo, na falsidade, mesmo já tomado do suor e do tremor típicos do pânico, ele ainda tenta o blefe sempre intrínseco na mentira do cínico...

- Ana Cláudia... Pelo amor de deus!!! Você está achando que eu tenho outra mulher?!?

Exalando ódio de seus poros, ela o encara como ao pior dos inimigos, o que não ataca de frente, e, sempre devagar, diz o que o leva ao terror de quem sem esperar perdeu a máscara...

- Não, Gladston! Eu não acho que você tem outra mulher! Como você ouviu bem, eu estou falando de Andréa! E Andréa não é mulher!

Gugu Keller

8 comentários:

  1. Muito bom, achei perfeita a descrição das reações mentiroso, acostumar-se a mentir, acostumar-se a enganar, um vício tenebroso. Mesmo quando desvendado, é difícil encarar a verdade, ver-se sem as máscaras por tanto tempo preservadas.

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  2. Obrigado mais uma vez, Juliana!
    Olha só... Vc fez alguma alteração no teu blog? Não estou conseguindo acessá-lo...
    Bj!
    GK

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  3. Oi! Estou em um momento pessoal muito difícil e doloroso, por isso tinha tirado o blog do ar, tentarei ir voltando, conforme for conseguindo superar o que tem acontecido. Obrigada pela preocupação. bj

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  4. Muito boa a descrição. O final inesperado, numa cena tão lugar comum.

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  5. Obrigado, Tatiana! Tem acompanhado desde o início?
    GK

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  6. Adorei!!! Muito bem desenvolvida a cena.

    Acho que hoje consigo colocar a leitura em dia, ainda que fique sem tempo para visitar mais alguns amigos, mas acontece que fiquei presa aqui, quero mais!

    Beijo, GK.

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  7. Valeu, Sônia! Espero que continue gostando...
    GK

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