sexta-feira, 8 de março de 2013

A Esquina - Capítulo 27

Naquela fria e cinzenta terça-feira, Natália e Fernando passaram o dia a pensar que o acidente completava um ano. Sim, era 20 de julho novamente. Nenhum dos dois, contudo, teve coragem de o comentar com o outro. No caso dele, várias vezes durante o dia, mais um dos seus, como ele próprio auto-ironicamente dizia, "dias de estátua", veio-lhe o impulso de o mencionar ao menos para a enfermeira. Quase o fez durante a sua diária volta no quarteirão, quando pôde sentir aquele que agora é indubitavelmente o seu maior prazer, o vento no rosto, fiapo de exceção em sua hoje pela primeira vez aniversariante vida de não vida. Mas, quando ia pronunciar o primeiro fonema da frase, sentiu a voz refugar contida por um já claro prenúncio de choro. Não, não valia mesmo a pena falar sobre aquilo. Um ano. Um ano desde o fim. Para Fernando, convictamente em seu íntimo, o pior dos fins... O fim em que o finado continua, testemunha doravante permanente do que lhe é findo.

Natália tentou trabalhar mas não conseguiu. Desde a manhã até a tarde, andou a esmo, pensou a esmo, sentiu a esmo. Um ano. Pensou em passar pela esquina, o que nunca mais fez desde aquela madrugada. Não. A disfarçar de si mesma um medo estranho, argumentou sozinha não haver sentido. Pensou depois na terapeuta e em ir ao cemitério, onde também não mais esteve. Mas uma assassina, como se considerou, como considera-se desde o julho anterior, visitar a sua vítima? Não. É que queria, admite-se, sonha, ao menos mais uma sessão. Ao menos, admite-se, sonha, para poder pedir perdão. Foram apenas três! Mas como foram ricas! Mudaram-lhe a vida! Mas três sessões de terapia numa vida? Pouco, muito pouco! Sobretudo para alguém tão culpada. Culpa, culpa, culpa. Bêbada, mesmo que por sequer um minuto, ela de certo modo ainda chupa o pênis de Rodrigo, o último que, culpada e a se querer auto-vingada o prometeu, para sempre, pelo resto de seus dias, terá chupado. Chupa. Culpa. Dirige a esmo. Um ano. Assassina e mutiladora, odeia-se.

São cinco e meia da tarde quando, por pura falta de qualquer outra opção, Natália entra em casa. Tendo saído às nove da manhã e não tendo almoçado, não seria capaz de dizer o que fez durante todo o tempo. A rigor, tirante a data que a cada segundo soca-lhe a cara, foi mais um dia em que, como todos os dias neste último ano, ela viveu a esmo. Ou não. Não viveu. Apenas testemunhou distante a sua vida que, já sem ela, concessivamente segue. Melhor seria, pensa agora, ter afinal ido ao cemitério. Mas não em visita. Para ficar. Sim, e quem dera ao lado de sua vítima fatal. Não. Isso significaria, pensa em seguida, já o pensou inúmeras vezes, deixar sem amparo sua outra vítima, a não fatal, a que costuma chamar na intimidade silente de seu pensamento sua "vítima fetal". Ou quando lhe troca as fraldas, "fecal". Sim. Assassina e mutiladora. Vítima fatal e "vítima fetal". "Vítima fecal". Pênis, álcool, esquina, hospital. Cemitério. Morgue, hospício, estátua, vegetal. Entrando em casa, Natália cruza com a enfermeira, que está de saída...

- Boa tarde, dona Natália! Eu estou indo...

- Obrigada, Rosa! Como ele está?

- Está ouvindo música no escritório!

Natália passa pela porta do cômodo referido e observa o marido. Ele ouve a canção "Bad", do U2. Alguns segundos e ela observa que ele chora. Qual um vômito repentino, também para ela lágrimas vêm num impulso estranho. Sem que ele tenha percebido a sua presença ali, ela corre para o banheiro. Tranca a porta por dentro e, desprovida de qualquer porquê minimamente racional, põe-se a se despir, até que, nua, ainda chorando, fica a se encarar no espelho. Um ano. 20 de julho de 2003, 20 de julho de 2004. E agora o seu casamento é cuidar de um tetraplégico. Dar-lhe banho, vestir-lhe, pentear-lhe, barbear-lhe, escovar-lhe os dentes, trocar-lhe as fraldas, dar-lhe de comer, de beber, empurrar-lhe na cadeira de rodas, voltas diárias no quarteirão, e depender da ajuda financeira dos pais e dos sogros, e comprar vários remédios, e ajudá-lo a ler, a olhar pela janela, a mudar o canal da tv, e nunca, nunca, nunca, nunca mais ter qualquer perspectiva de sexo. E a culpa, ela bem o sabe, é toda dela! Sexo, sua assassina, nunca mais! Felicidade, sua mutiladora? Esquece! Acabou! E é bem feito, sua vadia! Sua puta! Sua adúltera sem vergonha! Além de chupar aquele pau maldito, ainda foi encher a cara...! Sua vaca! Cretina! Irresponsável! Taí! Colha o que plantou, dona Natália Sanches Santos!

Nua e de olhos fechados diante do espelho, Natália chora, assim ela o sente, todas as lágrimas do mundo. Pênis, álcool, cemitério, cadeira de rodas. Fernando, Dudu, Ana Clara, ninguém. Quando, entretanto, a profusão do pranto quente atinge-lhe e estranhamente meio que acaricia-lhe os peitos, ela, como se por um momento perdesse o controle sobre si, leva a mão direita à vagina, onde, com quase fúria, introduz o dedo médio. Um, dois, três segundos e agora ela se odeia ainda mais por ter sentido um intruso prazer naquilo, e em seguida ainda mais, tanto quanto alguém pode odiar a si mesmo, cemitério, para ficar, por, ao reabrir os olhos, ter visto, numa ínfima fração de segundo, antes de a si mesma, Rodrigo no espelho. Odeia-se. E o choro profuso agora é ruidoso. E ela corre para o vaso. Senta-se e começa a fazer força para urinar. Chora e faz força. Chora e faz força. Chora e faz força. Dez minutos e lágrimas e urina correm quentes e simultâneas.

Gugu Keller

10 comentários:

  1. Meu querido, inevitável não continuar lendo...
    "Um memorável texto, rico em detalhes; vívido e comovente na maneira de recriar o clima de grande romance. Além disso, é profundo e tais palavras, nos envolvem de tal forma... Só poderia ter sido escrito por um homem que é capaz, apesar de tudo, de manter um humor corante e um estilo tocante e único".

    Beijo no nariz!

    ResponderExcluir
  2. Certamente, o ritmo acelerado que dá aos momentos mais tensos, sejam os ligados ao desejo ou ao desespero são bem peculiares e fazem toda a diferença. Essa parte foi muito angustiantes e gostei do ritmo, só desacelerava quando para descrever o martírio de Fernando. Ficando bem evidente as duas realidades, Fernando Natália. Só ainda não consegui entender bem Natália, o desespero dela em relação ao sexo, será porque o sexo representa o calor, o pulsar a vida? E a falta de sexo lhe representa a morte?

    ResponderExcluir
  3. Em boa parte é isso, minha amiga. Mas há outro fator determinante... Conforme adiante se verá, por ter sido a culpada pelo um acidente que deixou o marido inválido, e justamente por estar fora de si devido a seu desejo por outro homem, Natália, numa doentia forma de auto-punição, terá jurado nunca mais fazer sexo com alguém que não Fernando, que já não pode, o que, decerto, fará com que essa questão fique sempre pungente em sua mente. Além do que, considere-se também, o sexo é inequivocamente uma importante forma de alívio do stress do cotidiano, altíssimo então no caso dela, e, como ela sequer permite se masturbar, a coisa vai meio que a enlouquecendo...
    Obrigadíssimo, Juliana, por vc acompanhar a história desse modo sempre tão presente!
    GK

    ResponderExcluir
  4. Agora entendi melhor, dava para perceber que existia, para a personagem, uma significação dada ao sexo, o prazer representa algo muito maior que o prazer, caso estivesse bem resolvido isso para ela, poderia ter relações fora do casamento ou dar-se prazer. No entanto, ela não conseguia superar e ver isso de forma tranquila. Porém entendo melhor agora, bem angustiantes teus personagens, ricos e angustiados, nossas loucuras e medos presentes. Muita inspiração, está ficando lindo, uma vez lido, não tem como deixar de acompanhar. bj

    ResponderExcluir
  5. Obrigadíssimo mais uma vez! Não imaginas o quanto esta rica troca de idéias me incentiva a continuar...
    GK

    ResponderExcluir
  6. Hoje li 10 capítulos de uma só vez e não vou ler mais, porque não tem. Um capítulo onde a angustia chega a ser palpável. Muito bom.
    Aguardo pelo próximo.

    Beijo
    Sónia

    ResponderExcluir
  7. Muito obrigado, Sônia! Daqui a pouco posto o 28°...
    Bj!
    GK

    ResponderExcluir