sexta-feira, 15 de março de 2013

A Esquina - Capítulo 28

Com as pernas trêmulas e o coração disparado pelo pânico conseqüente da, tanto quanto desmoralizante, já óbvia queda da sua máscara, Gladston ainda tenta, como que num último suspiro do hipócrita enfim nu de qualquer farsa, refugiar-se em sua viciosa canastrice, de, agora ele o se sabe, péssimo ator...

- Que papo de louco é esse, Ana Cláudia?!? Pelo amor de deus!!! Andréa que não é mulher?!? O que isso quer dizer, afinal?!? Eu não estou entendendo nada...!

Ressecada de tanto verter lágrimas, Ana permite-se um meio sorriso de ironia. Custa-lhe crer que ele ainda se insiste como desentendido. No mar de ódio em que ela navega, uma pequena alga de piedade chega a lhe grudar no casco do barco, tamanho é já o desprezo que sente por aquela criatura diante de si, até outro dia tão íntima e querida, e agora tão definitivamente estranha e desprezível.

- Ah... Você não está entendendo nada...?

Com a boca seca e em fel, ele tenta ainda se manter de pé. Sim, ela sabe, óbvio já está. Mas coube soube? Talvez não tenha provas...

- Mas é claro que não! Você andou bebendo, Ana Cláudia?

O sorriso irônico, mesmo atravessado num rosto revelador da maior dor de uma vida, agora é inteiro. Entre o mundo de raiva e o asteróide de pena que por ele há nela, passa um pequeno e incandescente meteoro de estupefação por tamanha desfaçatez. Ela então, tentando equacionar as palavras à ironia daquele seu sorriso tiro, diz-lhe, já meio a se permitir os próximos momentos de uma tortura vingativa e consagradora...

- Ahhh... Você acha que eu bebi? Que estou louca? Tendo alucinações? É isso, Gladston?

- Você quer que eu pense o quê? Além de eu te encontrar nesse estado, você não fala coisa com coisa...! Que papo é esse de Andréa, que não é mulher??? Que merda é essa???

Ela deixa passar um, dois segundos, e lhe diz...

- Faz uma coisa, Gladston: senta aí!

- Sentar?

- É! Por favor!

- Eu tô nervoso! Não quero sentar! Eu quero é entender qual é a tua, afinal!

- Senta, por favor! Eu vou te mostrar uma coisa...

- O quê?

- Senta, que eu te mostro! É uma coisa para você ver que eu não bebi e que eu estou, sim, falando coisa com coisa...!

Gladston se senta numa poltrona a um metro e meio dela, que está no sofá. Eles trocam um olhar como o entre o caçador que caiu na sua própria armadilha e a caça que o viu e agora o tem à mercê. Quando Ana Cláudia leva a mão direita ao controle do aparelho de dvd, ele sente um frio lhe correr pela espinha. Não, não pode ser. Mas é.

As cenas gravadas por Sidney começam a fluir na tela. Gladston em seu carro a esperar Andréa, a chegada desta, o beijo na boca, o segundo beijo na boca, este mais longo, quando na parada no semáforo, e a entrada no hotel. Depois, a saída do hotel até o momento em que ele a deixa perto de onde ela se prostitui. Ana Cláudia pára o dvd. Numa cena indescritível, ambos choram copiosamente sem se olharem. Após alguns segundos, entre soluços, ela balbucia...

- Eu te amava, seu filho de uma puta!

- Me perdoa, por favor...! Me perdoa...!

Pausa. Lágrimas. Desespero.

- Te perdoar...? Perdoar o meu marido porque ele gosta de dar o cu...? E mesmo assim se casou comigo...!

- Que negócio é esse, Ana Cláudia...? O quê que você está falando, deus do céu...?

Com os dentes incisivos a brilhar em função das lágrimas que os molham, Ana Cláudia sorri o sorriso vitorioso do derrotado que para o precipício leva junto o vencedor. Encara-o e lhe diz devagar...

- A tua hipocrisia, Gladston, é a coisa mais assustadora que eu já vi...!

Mas ele não desiste...

- Tudo bem, Ana Cláudia! Tudo bem! Você me pegou! Não sei como você conseguiu essas imagens, mas você me pegou... É... Eu te trai, sim...! De fato, eu me envolvi com essa mulher...

- Seu cínico, filho de uma puta! Doente! Você ainda vai tentar mentir, seu monstro???

- Não! Tudo bem! Tá tudo aí mesmo...! As imagens mostram! O quê que eu posso dizer? Eu saí com ela, sim! Infelizmente, Ana Cláudia, eu te traí com outra mulher...

Como se de algum modo experimentasse os sentidos para checar se ainda está na realidade, ela fecha os olhos por cerca de três segundos. Reabre-os e tenta respirar fundo.

- Gladston, seu desgraçado... Você está me traindo, seu filho de uma puta, com um travesti!!!

- Que travesti, o quê?!? Você tá louca, Ana Cláudia!!! É uma mulher, porra!!!

Ana Cláudia reaciona o dvd e vem a parte final, em que Sidney aborda Andréa...

- Oi!

- Oi!

- Como é o seu nome?

- Andréa!

- Quanto está o programa, Andréa?

- Cinqüenta!

- Você faz ativo, Andréa?

- Claro! Sem problema! É a minha especialidade!

Acabou. Não há mais mentira que se sustente por sequer uma fração de segundo. Tremendo e chorando num desespero para si inédito, Gladston se levanta e encosta a testa numa das paredes, dando as costas para a esposa. Caudalosos rios que não se cruzam, Lena ela, Nilo ele, choram ambos. Ódio, desgosto, desilusão. Vergonha, desmoralização, fim. Holocausto mútuo, apocalipse a dois. Um minuto se passa e é ela quem, com uma voz cansada, embargada de tanta tristeza, rompe, numa fala lenta e pesada, aquele silêncio típico de um sombrio cemitério de vivos...

- Eu... Eu podia te perguntar se ao menos você usou camisinha quando deu para ela... Mas pra quê...? É claro que você vai dizer que sim... E também vai dizer que não deu... Que só comeu... Mas é claro que eu não vou acreditar... E pensar que um dia eu acreditei... Acreditei que você me amasse... Acreditei que nós éramos uma família... Que você, mesmo que tivesse seus defeitos, era um homem decente...

Gladston chora copiosamente. Ela continua...

- Faz o seguinte, Gladston... Eu te dou quinze minutos para você pegar o que quiser das tuas coisas... Depois, você sai por aquela porta... E não volta nunca mais...!

Ele chora, e chora, e chora. Ela conclui...

- Só mais uma coisa, Gladston... Acho que agora você entendeu, não? Eu não bebi! E estou, sim, falando coisa com coisa! Andréa, a tua amante, como se vê muito bem nesse vídeo, não é mulher! Ela tem um pinto no meio das pernas! Coisa que você, Gladston, pelo jeito, adora...!

Gugu Keller

6 comentários:

  1. Um conto que conta a vida de muitos. Mais comum do que se pode imaginar.

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  2. Obrigado, Paula! Interessante vc ver um capítulo do livro como um conto...
    GK

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  3. Muito real mesmo, as reações de cada um diante da verdade, geralmente prende-se até o limite as mentiras, difícil desvendar-se, desnudar-se.

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  4. E que triste um mentiroso acuado, não?
    GK

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  5. Já me perguntava quando voltariam estes 2 a entrar em cena.
    Gostei.

    Beijo

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