sexta-feira, 22 de março de 2013

A Esquina - Capítulo 29

Eram quinze para as oito da noite quando Raquel abriu a porta da frente e entrou no apartamento. Deu com um Rodrigo que de cara estranhou muito. Sentado no sofá, ele vestia uma calça de moleton cinza e uma velha camiseta do time de futebol para que torce. Diante dele, uma garrafa de uísque pela metade, mas sem nenhum copo por perto, ao menos que ela pudesse ver. O mais intrigante, contudo, era o olhar. Vermelhos e grudentos, seus olhos tinham um quê de distância, de ausência, de embaçamento, meio que parecendo de vidro, plástico ou porcelana. Celulose talvez. Estranhando muito a cena, também porque ele nada fazia, não lia, não ouvia música, nem assistia televisão ou falava ao telefone, ela o cumprimentou com interrogação...

- Querido? Está tudo bem...?

Raquel se aproximou do marido, que para ela olhou com aqueles olhos de nada, ou, se de algo, nada de que se saiba o nome, e com um rosto suado, abatido e sem cor. Por três longos e para ela já ansiosos segundos, ele a encarou sem dizer qualquer coisa. Limitou-se a, a seguir, esticar a mão até a garrafa de uísque e a trazer aos seus lábios, dela bebendo no gargalo. Raquel sente forte o cheiro da bebida, menos vindo da garrafa do que dos poros de Rodrigo. Num segundo gole, ele deixa boa parte do líqüido entornado escorrer-lhe até o queixo. Babando, olha-a de novo bem dentro dos olhos e a vê assustada.

- Rodrigo...! O quê que está acontecendo? Por que você está bebendo assim, desse jeito, sem copo?

Ele ergue a outra mão, a que não tem a garrafa, com que segura o controle do aparelho de dvd, deixando claro para ela que o vai acionar. Faz e a gravação começa a se desenrolar. Aparece na tela da tv o quarto de hotel. Alguns instantes e entra o senhor de cabelos brancos, terno cinza e gravata azul.

Entendendo a situação ao cabo de poucos segundos, até porque agora já pode ver a si própria entrando em cena, Raquel sente um golpe no peito qual a da bola de ferro de uma máquina demolidora contra a parede condenada. Tanto que dá de susto um passo para trás e tropeça em si mesma com os calcanhares, caindo com a cabeça sobre o revisteiro de madeira logo ali. Chega a abrir um corte, que sangra, mas nem o sente. Como se fizesse algum sentido, levanta-se depressa para o que quer que seja. Babando já também mas não uísque, lágrimas, volta a encarar o marido, que toma da garrafa outro gole. Qual se de pé no convés de um barco durante uma súbita procela em alto mar, ela meio que cambaleia. Tonta, zonza, ondas, abismo, precipício. Decide então dizer palavras que não saem, de que, já em seguida, por isso mesmo, desiste. Resta-lhe, lágrimas no queixo e sangue nos cabelos, ir de novo na direção destes, para trás, marcha à ré, talvez esperando novos tropeço e queda, ou, quem dera, que o tempo voltasse e nada daquilo fosse nada daquilo. Mas não. Chega à cadeira onde deixou a bolsa assim que entrou e a apanha. Prende no ombro a sua alça e continua, instintivamente, regredindo rumo à porta. É quando, com uma voz reveladora de que decerto não foi pouco o que bebeu, diz Rodrigo...

- Assiste mais um pouco, meu amor! Ó... Ele já está tirando a roupa... Já vai aparecer você chupando o pau dele...!

Novamente ela falaria mas nada sai. Recua, acua-se na crua nudez de seu desmascaro. Como explicar o inexplicável? Sim, há uma explicação. Mas não, não o explicaria. Mais um passo. Para trás. Para trás. Para trás. Kamikaze que outrem traz na cabine do avião, Rodrigo, já de mãos dadas com o consolo manjedôurico da bebedeira, destila um pouco mais daquela por isso doce ironia...

- Vem, meu amor! Assiste! Depois que você chupa, ele te chupa... Daí, tem você dando de frente, dando de quatro, de conchinha... E aí, no fim, ele goza na tua cara...! Vem ver, vem!

As pernas bambeiam e Raquel se deixa cair de joelhos. Seu choro agora é ruidoso. Ainda que o corte na cabeça seja considerável, a escorrer pouco é o sangue e muita é a lágrima. E quem dera na mão dela estivesse a garrafa. Ela beberia o que resta do uísque e a quebraria de modo que da parte mais alta se fizesse uma arma, que fincaria forte em seu peito, bem sobre o coração, e, aí sim, em prantos sangraria até o fim tudo o que, pensa, merece. Mas é Rodrigo quem dá outro gole, depois do qual, babando bêbado, diz...

- Eu só não vi se você deu o cu para ele... Deu?

Raquel chora de joelhos. Eis, para sempre, o fim de um grande amor. Para sempre eis o fim do seu amor. Para sempre, nunca mais. Nunca mais o de até ontem para sempre. E Rodrigo bebe. E baba. E bebe. E baba. Até que, ao som do choro dela, no momento em que na imagem ela senta sobre o pênis, ele se levanta do sofá, e tonto, mareado sobre o mesmo trêmulo convés ao vento, atira com extrema violência a garrafa contra a televisão, ao mesmo tempo em que, com o máximo de uma voz amarga e embargada, põe para fora a maior dor de toda sua vida...

- Aaaaaaahhhhhhh!!!!!!!

A duras penas Raquel se levanta e, sempre de ré, avança em retrocesso rumo à porta. Trôpega, alcança-a enfim. E já não ousa olhar para Rodrigo. Gira a maçaneta e, chorando de cabeça baixa, deixa o apartamento, aonde jamais voltaria. Uma semana depois, Priscilla, sua melhor amiga, viria buscar alguns de seus pertences.

É Rodrigo quem agora cai sobre os joelhos. E, diante dos cacos da tv e da garrafa espatifadas, um dos quais fez-lhe um corte numa das mãos, sobre o chão da sala é ele quem agora chora. E, pelo corte, quem agora sangra.

Gugu Keller

4 comentários:

  1. Forte e triste! Agora pensei, como o livro é escrito por capítulos aleatórios no tempo, mas que se explicam, daria uma ótima peça teatral.

    ResponderExcluir
  2. Sim! A subversão da cronologia é da essência da proposta!
    GK

    ResponderExcluir
  3. Culpa e dor, uma mistura irresistível. Muito bom!

    ResponderExcluir
  4. Obrigado, Julia! Se quiser ler a história desde o começo, o primeiro capítulo está postado em 07-09-12. São capítulos semanais e a previsão é de que sejam 52.
    GK

    ResponderExcluir