sexta-feira, 29 de março de 2013

A Esquina - Capítulo 30

Com o passar do tempo, já mais de três anos, Natália meio que se condicionou a fingir que não ouve o quase diário choro de Fernando, sobretudo à noite, na cama, quando ao lado dele se deita para dormir. Não que ela não se importe com a sua dor. Ao contrário, tamanhos são a culpa e o sofrimento que lhe corróem por ter sido ela quem dirigia o carro naquela noite fatídica, que cada lágrima que corre dos olhos dele cai como uma gota de ácido sobre a cansada musculatura do seu tão auto-condenado coração. O que ocorre é que ela simplesmente já não sabe o que fazer ou dizer. O que talvez tirasse um pouco do peso do mundo de cima de si, ela não lhe diria. Não, jamais mencionaria que houve no acidente um quê de adultério. Já disse inúmeras vezes que a culpa foi dela, que a culpa é dela, que culpa sempre será dela, e Fernando, também inúmeras vezes, até já a perdoou. Mas, não, ela nunca disse, não, não o diria, e nem dirá, e por isso ei-la mais e mais culpada, que bebeu tanto naquela festa em função do que sente por Rodrigo, e muito menos que quase então a ele se entregou, a ponto de, por alguns segundos, ter-lhe chupado o pênis. E nos pesadelos que, por seu turno em contrapartida ao choro dele, quase diariamente tem, ela o chupa, a Rodrigo, até que ele goza na sua boca, e aquele esperma, que ela engole com o supremo prazer da extrema submissão, tem para ela, de um estranho onírico modo que jamais a ninguém saberia explicar, sequer à outra vítima, a falecida, o triste e indescritível gosto da tetraplegia do marido, qual se palatável de algum modo tal coisa fosse. Contudo, como se esta noite ele não aceitasse o ela fingir que não o ouve, Fernando, que desse fingimento, ela até já o atinou, decerto sempe soube, e nunca disse nada porque, igualmente, bem sabe que, a rigor, não há de parte a parte o que ser feito, ou dito, decide desta feita chamá-la entre lágrimas com insistência...

- Natália... Natália... Você está acordada, Natália?

Com os olhos abertos para o lado inverso a encarar as escuridões, a do quarto, relativa, e a da sua vida no último triênio, absoluta, e lidando com a recente culpa de crer que toda a sua culpa não é ainda culpa o bastante diante do que aconteceu, Natália se mantêm quieta por alguns instantes, numa evasiva expectativa de que ele desista do que quer que seja, até porque, sem se dar conta do quanto isso é triste, ela inconscientemente já se condicionou de que a cutucar ele afinal não tem como. Mas, a prantear hoje bem mais do que o de costume, ele insiste...

- Natália... Acorda, Natália, por favor!

Desejando ainda, como tanto tem desejado, apenas ter freado antes daquela esquina, Natália se vira e, fingindo uma vez mais, como tanto tem fingido, que a vida não se tornou para ela uma constante concessão, ela enfim responde com o já peculiar desespero travestido de doçura em sua voz, que decerto só um surdo não percebe...

- O que foi, meu amor? Não está conseguindo dormir?

- Eu não agüento mais, Natália! Eu não agüento mais!

Ele chora com profusão. Como sempre, sem saber o que dizer, ela diz a única coisa que lhe parece possível, dizível naquele momento...

- Quer tomar um pouco mais do seu calmante? Talvez seja melhor falar com o médico e aumentar um pouco a dose...

A mover a cabeça de um lado para o outro, a cabeça é tudo o que pode mover, ele se mostra arredio...

- Não! Eu não quero mais calmante! Eu não quero mais nada, Natália! Eu não agüento mais ser uma estátua! Eu não agüento mais ser um vegetal, um repolho, uma planta! Não agüento mais ser um objeto, um estorvo para o mundo!

- Não fale assim, meu amor! A medicina tem avançado tão depressa... Quem sabe logo logo haja um jeito de você recuperar os movimentos...

- Não me chame de "meu amor"! Eu sei que você me odeia! Todo mundo odeia quem está como eu estou! Eu só existo para atrapalhar! Atrapalhar e causar piedade! Esta é que é a verdade!

- Que besteira, Fernando! Eu amo você! Foi você quem eu escolhi para ficar junto para sempre, não se lembra?

- Mas quando você me escolheu eu era gente! Eu vivia, andava, trabalhava, jogava futebol! Eu podia comer sozinho, beber água sozinho, tomar banho sozinho! Cagar, mijar, limpar a minha bunda, tudo sozinho! E eu te fodia, lembra? Lembra que eu te fodia gostoso? Lembra? Agora isso acabou! Agora eu sou um objeto! Um traste! Um pedaço de ferro velho! Vocês têm que trocar as minhas fraldas, limpar o meu cu e vestir as minhas cuecas! E eu não agüento mais isso, você entende? Eu não agüento mais!!!

Natália, que não o fazia havia quase uma semana, praticamente um recorde para ela nesses últimos três anos, também já chora.

- Não fala assim, meu querido! Pelo amor de deus!

Ele fecha os olhos. As lágrimas brotam quentes e salgadas a os fazer arder. Do nariz, corre-lhe um catarro líqüido. Se pudesse, ele se coçaria ali.

- Você me ama? Jura que ainda me ama?

Ela mente sem crer na mentira sequer ela própria...

- É claro que te amo! Te amo e vou te amar para sempre!

- Então faz uma coisa por mim...! Pelo amor de deus...!

- O que?

- É a última coisa que eu vou te pedir...

- Eu sou a tua mulher! Você pode sempre me pedir o que quiser...

- Se você fizer isso por mim, Natália, aí, sim, eu vou acreditar que você ainda me ama...

- Fala! Fala, meu amor, que eu faço...!

Pausa. O pouco de luz que entra pelos fiapos da janela proprociona uma penumbra em que, com os olhos acostumados, ambos se vêem com razoável nitidez. Ele ainda não sabe se pede o que pretende pedir. Sim, o quer. Muito tem pensado a respeito, dias, meses, três anos, e definitvamente o quer. Mas não, não crê que ela o faça. Tem que ser ela, só ela o pode, mas definitivamente não crê. Dez infindáveis segundos de à penumbra olhos nos olhos e, sempre e ainda chorando, ele lhe diz...

- Você sabe o que é o pior, minha querida, de se ficar aleijado como eu fiquei?

Ela também ainda chora. Faz que não com a cabeça. Pausadamente agora, ele segue...

- Não é nada do que eu te falei... Não é o precisar de alguém para tudo... Não ter autonomia nem para comer, ou beber, ou andar, ou ir ao banheiro, ou ligar a televisão, nada disso... O pior de tudo, minha querida, é que eu não posso nem me suicidar...!

Agora ajoelhada na cama de frente para ele, ela chora mais. E treme. E, quando abre a boca para falar, sente uma saliva espessa grudada qual um fio em ambos os seus lábios...

- Não fala isso, Fernando, pelo amor de deus... Você não sabe a culpa que eu sinto aqui dentro por te ver assim... Quem dera fosse eu que tivesse ficado na sua situação... Era o que eu merecia... A culpada de tudo isso fui eu... A culpada sou eu...!

Ela chora. Ele acrescenta...

- Para que tudo estivesse bem, minha querida, você não precisava estar na minha situação... Bastava que eu tivesse morrido naquela noite, em vez de ter ficado assim, tetraplégico, aleijado, inutilizado, incapacitado... Aí, sim, tudo estaria bem...! Mais sorte do que eu teve aquela psicóloga...! Ah, como eu a invejo...! A cada segundo eu me consumo de inveja dela...! Eu e ela somos a mesma coisa, sabe? Somos objetos, detritos, entulho! Somos ambos cadáveres! A única diferença é que ela morreu! Ela teve mais sorte! Já não sente nada! E eu aqui estou... Cadáver, mas ainda com vida!

- Não fala isso, Fernando! Não fala! Pelo amor de deus!

Trêmula de desespero e culpa, ela acende o abajur sobre o criado-mudo.

- Abre o meu armário! - diz Fernando.

Natália vai. Faz. Ele a guia...

- Abre a última gaveta da esquerda! A de baixo! Isso! Agora procura no fundo dela uma caixa verde!

Pausa. Pegou.

- Esta?

- É! Essa! Abre!

Natália sente um tranco na boca do estômago. Suas pernas bambeiam e ela quase não se sustenta. Reluzentemente niquelado, é um revólver o que há ali.

Gugu Keller

8 comentários:

  1. Nossa que triste, pesado e emocionante, nem há muito o que comentar.

    ResponderExcluir
  2. Será que consegui descrever bem o desespero dele...? É que sou muito perfeccionista com o que escrevo, sabe?
    Obrigado mais uma vez por tua presença, Ju!
    GK

    ResponderExcluir
  3. Se emocionar o leitor é descrever bem o desespero do personagem, vc escreve muito bem, pois fiquei emocionada ao ler. bjs

    ResponderExcluir
  4. Obrigadíssimo! E vamos em frente...!
    GK

    ResponderExcluir
  5. Se o texto está instigando a curiosidade do leitor, é um bom sinal, não?
    Obrigado, Débora!
    GK

    ResponderExcluir
  6. É o primeiro texto seu que leio, e como mencionaram.Descreveu bem o desespero dele.Gostei bastante dos diálogos,aos poucos irei lendo os demais.Parabéns Keller.

    ResponderExcluir
  7. Muito obrigado, Cainã!O primeiro capítulo desta história está postado no dia 07-09-2012. São capítulos semanais e a previsão é de que vá até o 52°... Volte sempre!
    GK

    ResponderExcluir