sexta-feira, 5 de abril de 2013

A Esquina - Capítulo 31

É meio-dia quando, mais apaixonada do que nunca, Flávia se vai. Ainda com o pênis ereto, Rodrigo entra no já segundo banho desta manhã. Passa-lhe pela cabeça, com o peculiar gosto da vagina da jovem vizinha ainda forte em sua boca, a língua meio que amortecida de tanto a chupar, masturbar-se, talvez de novo pensando em Natália, até gozar também já nesta manhã pela segunda vez. Mas não. A desagradável perspectiva do encontro de daqui a pouco com o dr. João Silas com ansiedade prevalece e o pênis descansa. Depois do banho e de estar vestido, café da manhã e eis Rodrigo a dirigir a caminho do nefasto endereço, que, desgraçadamente, ele na mente ainda guarda de cor.

É claro que, quando o assessor do seu ex-sogro o procurou solicitando o inesperado encontro, pela cabeça cabeça de Rodrigo passou a possibilidade de Raquel estar presente, ou mesmo por detrás daquilo, e desde logo ele claro deixou que não, não a queria ver. Se ela lá estiver, asseverou, ele, Rodrigo, irá embora imediatamente. Já são cinco anos desde que a viu pela última vez, naquele maldito princípio de noite, quando ela saiu pela porta do não menos maldito apartamento em que moraram enquanto casados, e não é neste domingo, o maldito, que ele, ao menos até aqui, a pretende ver. Tomara, aliás, pensa então, dirigindo, ele continue sem a ver por mais cinco anos, e mais cinco, e mais cinco, lustro, lustro, dez, cinqüenta, até o fim da sua vida. A separação, inclusive, depois de tudo aquilo, todo aquele pesadelo, chupando, de quatro, gozo na cara, foi assinada por ambos através de seus respectivos advogados. Tendo tomado a rua Hermann, Rodrigo pára no farol da esquina com a rua Violeta e, observando uma considerável quantidade de cacos espalhados pelo chão, pensa no quanto o casamento com Raquel foi um desastre em sua vida, e não evita lembrar-se bêbado naquela noite, a chorar de desespero e desilusão enquanto sangrava numa das mãos, cortada por um dos cacos da tela da televisão.

Estacionar defronte daquela casa, ei-lo lá no horário marcado, traz a Rodrigo uma espécie de déjà vu às avessas. É meio como lembrar-se de algo de que nunca esqueceu mas fingiu esquecer, e essa lembrança de certo modo agora o denuncia a si mesmo pelo flagrante fracasso do fingimento. Tentando pensar o menos possível, esperando apenas que, o que quer que o ex-sogro queira, custe-lhe o menos possível de tempo ali, ele se aproxima do portão e pede ao segurança na guarita que o anuncie. Um minuto e surge o mordomo, que o faz entrar e o conduz ao escritório, ao lado da sala de estar, onde, a o aguardar, sentado numa poltrona metido num hobby de chambre, com meias grossas, chinelos, um cachecol a envolver o pescoço e um cobertor sobre o colo, está, enfim, o dr. João Silas do Amaral Torres, seu ex-sogro, se é que sogros podem ser ex, pai de Raquel, ex-deputado federal e ex-secretário de estado. Dela, Raquel, conforme garantiu o assessor, felizmente, Rodrigo o pensa, nem sinal.

- Boa tarde, Rodrigo! Obrigado por ter vindo!

- Boa tarde, dr. João!

- Sente-se, por favor! Toma alguma coisa?

- Não, obrigado!

Pausa. Rodrigo sentou-se numa cadeira a cerca de um metro e meio do interlocutor.

- Eu imagino, Rodrigo, que você tenha ficado surpreso com o meu chamado para esta conversa...

- Sim, de fato! O senhor há de convir que não era de se esperar... Depois de todo esse tempo, depois de tudo o que aconteceu...

- Pois bem... Então vamos ao assunto sem rodeios...

Rodrigo se apruma. O dr. João Silas segue...

- Você falou em tempo... Eu o chamei aqui para esta conversa porque já não tenho muito tempo... Estou doente, Rodrigo... Estou muito fraco... Sei que me resta pouco tempo...

- Eu... Eu não sei o que dizer, dr....

- Tudo bem! Não precisa dizer nada! Sou eu quem tem algo a lhe dizer... Algo que você precisa saber e que eu tenho a obrigação de lhe dizer antes de morrer...

Extremamente atento, Rodrigo ouve. O ex-sogro segue...

- As coisas não se passaram, Rodrigo, exatamente como você imagina que tenham se passado... Ou como os fatos lhe fizeram crer que tenham se passado...

- A que o senhor se refere, dr. João?

Pausa. É o velho quem agora melhor se apruma na poltrona.

- Você sabe quem foi Arthur Alípio?

- Arthur Alípio...? Não me soa estranho...

- Foi um político! Durante algum tempo, deputado federal, como eu!

- Foi? Já morreu?

- Sim! Morreu no ano passado!

- Sei... E o que tem ele?

- Você sabe, Rodrigo, que na política às vezes a gente mete os pés pelas mãos... Acabamos fazendo coisas de que depois nos arrependemos e tal... Bem... Para resumir... O Alípio era um adversário meu, sabe? Na verdade, ele me odiava... Desde muito jovens travamos uma espécie de guerra na política um contra o outro, sabe?

- Sei...

- Por outro lado, Rodrigo, houve algo que ninguém nunca soube que marcou demais esta nossa, digamos, rixa...

- O que?

Pausa.

- Uma vez, Rodrigo, nós nos encontramos num restaurante e a Raquel estava comigo... Ela devia ter uns 17 anos... Era dia dos pais...

Rodrigo se apruma mais. É 100% atenção.

- E o que ocorreu, Rodrigo, naquele domingo - segue o dr. João Silas. - foi que, assim que a viu, o Alípio se apaixonou por ela...!

- Como é?!?

- Sim! Isso mesmo! Mesmo sendo oito anos mais velho do que eu, um senhor já então portanto, ele ficou transtornado quando viu a minha filha! Foi uma espécie de tara à primeira vista! Ele simplesmente enlouqueceu! Passou a assediá-la de diversas formas e a fazer, inclusive para mim, propostas absolutamente indecorosas das mais diversas...!

- Que coisa louca, dr. João! Ela jamais me falou sobre isso...

- Ela tinha muito medo! Muito medo e muita raiva! E nunca ninguém soube! Ela nunca falou sobre isso com ninguém além de mim! Nem mesmo a minha esposa soube disso...

- Mas por que o senhor quis que eu soubesse disso agora, se esse tal Alípio até já morreu...?

- Como eu disse, Rodrigo, na política muitas vezes a gente mete os pés pelas mãos... E o fato é que o desgraçado conseguiu reuniu provas contra mim...

- Provas?

- Sim! Provas que me incriminavam! Provas irrefutáveis de atos ilícitos que eu cometi na vida pública! Coisas que, se viessem à tona, seriam a minha ruína! Eu estaria perdido... Certamente seria cassado e preso... E sabe o quê que ele fez com essas provas? Montou um dossiê!

- Dossiê?!?

- Exatamente! Um dossiê que acabaria comigo se viesse a público...!

- O senhor chegou a ver esse dossiê?

- Sim! Ele me deu uma cópia!

- E aí?

- E aí, ele foi claro... Só tinha uma jeito de ele não tornar público o dossiê...

Pausa. Rodrigo sente um golpe no peito. O coração dispara. As reticências já eram claras. Mas, a esta altura, ele precisava ouvir com todas as letras...

- O senhor está querendo me dizer, dr. João, que...

Outra pausa. Um olhar severo e enfim é dito...

- É isso mesmo que você já entendeu, Rodrigo! Ele só não tornaria público o dossiê se a Raquel fizesse sexo com ele...!

Mesmo sentindo-se tonto, Rodrigo tem o ímpeto de se levantar. Exatamente como aquela sala naquela noite, o escritório é agora o convés de um barco durante uma tempestade em alto mar. Tudo gira, oscila, treme, range. Sim, estamos indo a pique!

- Então quer dizer que... Que... Que...?

- Sim, Rodrigo! Você já entendeu! A Raquel nunca quis te trair! Ela te amava muito! Ainda te ama, posso garantir! Ela só fez aquilo para me salvar! E você não faz idéia do quanto foi custoso para ela... Ela tinha verdadeiro asco, verdadeira repugnância daquele maldito...

Rodrigo tem a boca seca e o coração a palpitar. Treme, sua e chora. Diz-lhe ainda o dr. João Silas...

- O desgraçado cumpriu a palavra! O dossiê jamais veio a público! Mas, por maldade, por pura maldade, ele filmou tudo e fez as imagens chegarem até você...! Por pura maldade! Ela te ama, Rodrigo! Ela só se entregou a ele para me livrar daquela chantagem!

Sobre uma mesa ali há uma garrafa com água e copos. Sem sequer pedir licença, e com as mãos trêmulas, Rodrigo se serve e bebe. Chora, sua, soluça.

- Sabe há quanto tempo eu não vejo a minha filha, Rodrigo?

Rodrigo não responde. O ex-sogro continua...

- Cinco anos! Sim, cinco anos! Naquela mesma noite em que você brigaram porque você viu aquelas cenas terríveis, ela esteve aqui... Estava arrasada, desesperada, desfigurada... Disse que me odiava... Que, com as minhas falcatruas, eu havia destruído a vida dela... E eu só pude ficar quieto... Ela estava certa, não é mesmo? Certíssima! E aí, ela saiu pela porta da frente e nunca mais voltou... Eu nunca mais vi a minha filha, Rodrigo... Nunca mais... Tudo o que sei é que ela foi para a Europa... Mas nem sei para que país...

Rodrigo dirige seu carro. Cinco minutos e pára. Não faz sentido continuar. Não está indo mesmo, percebe, para lugar nenhum. Estaciona e desce. Põe-se a andar pela calçada. Outros cinco minutos e de novo pára. Continua, atina, indo sem ir. Olha então para o meio-fio e decide se sentar. Faz. Na tarde fria, parado ali, apenas se deixa chorar. Quando o mundo virou de cabeça para baixo, ele, entre cacos e cortes, se reequilibrou. Agora o mundo voltou à posição inicial, e ei-lo, mais do que nunca, de cabeça para baixo, apenas a, provavelmente para sempre, sentado no meio-fio, deixar-se chorar.

Gugu Keller

6 comentários:

  1. Novamente parabéns pelo capítulo Keller.Sensacional a forma como seus diálogos me prendem no texto.Aguardo o próximo..

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  2. Obrigadíssimo, Cainã! Tu tens um blog? Procurei mas não achei... Em caso positivo, mande-me o endereço! De todo modo, percebi que chegaste a mim através da Pri, o que me deixou muito feliz! Trata-se de uma amiga muito querida! Abs!
    GK

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  3. Tenho Sim Keller.é http://pequenomatuto.blogspot.com.br/ . Sim,cheguei através do blog dela,pois sempre via seus comentários.Alias,é assim que vamos descobrindo os blogs né? rs.O dela foi o mesmo rs.E agora terá um leitor fiel da sua novela rs

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  4. Legal! Eu apareço lá! Obrigado!
    GK

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  5. Obrigado, Ju! É sempre uma honra para mim!
    GK

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