sexta-feira, 12 de abril de 2013

A Esquina - Capítulo 32

- Faz o seguinte, Gladston... Eu te dou quinze minutos para você pegar o que quiser das tuas coisas... Depois você sai por aquela porta... E não volta nunca mais...!

Ele chora, e chora, e chora. Ela conclui...

- Só mais uma coisa, Gladston... Acho que agora você entendeu, não? Eu não bebi! E estou, sim, falando coisa com coisa! Andréa, como se vê muito bem nesse vídeo, não é mulher!

Faz-se uma longa pausa. Gladston tenta se refazer. Ana Cláudia, ao contrário, por mais que já tenha chorado, a mais lágrimas prefere se deixar. Tomara, pensa, chore todas as possíveis hoje, para já amanhã, quem sabe, começar uma vida nova, ou, ao menos, fazer algo de novo, e construtivo, com a sua tão dolorida, e lacrimejante, vida velha. É Gladston quem, tendo respirado fundo, rompe o silêncio de quase um minuto...

- Espera, meu amor! Vamos conversar um pouco...

Num riso choro irônico e autopiedoso, Ana mostra os dentes a exclamar em interrogação meio que para ele e meio que para si mesma...

-"Meu amor"...? Você ainda tem coragem de me chamar de "meu amor"...?

- Eu amo você, Ana Cláudia! Sempre amei e sempre vou amar!

- É? Só falta você dizer que pensava em mim quando transava com esse travesti...

- Olha... Eu admito que errei... Mas vamos conversar! Não tem sentido a gente terminar assim, meu amor...!

Incrédula com o que ouve, Ana Cláudia olha agora fixamente para o marido e lhe pergunta com extrema seriedade...

- Gladston... Será que você faz idéia do que significa para uma mulher descobrir o que eu descobri?

- Eu entendo que você esteja magoada, meu amor...

- Magoada??? Eu estou dilacerada, arrebentada, sangrando no coração!!! Se ao menos tivesse sido com uma mulher, Gladston...

- Ah, Ana Cláudia! Isso não faz tanta diferença, vai...!

Esta última fala dele a faz começar a tremer. Tamanhos são o ódio e o desprezo que ela sente por aquele agora traste ali diante, que Ana Cláudia começa a sentir medo do que a partir daqui possa vir a fazer. Babando pelos cantos da boca, ela o fuzila com um olhar de fera ferida, acuada e faminta. Seu peito agora é um barril de pólvora, e com o que, a cada dizer revelando mais e mais da sua incomensurável insensibilidade, Gladston tentará a seguir, eis riscado o fósforo no pavio.

- Você quer saber, Ana Cláudia? - diz ele - Você quer saber mesmo?

Ela olha. Treme, baba, chora e sua. Ele segue...

- Isso aí que você viu nesse vídeo em boa parte é culpa sua!

Sentindo o coração bater na garganta, como se estivesse a internamente lhe subir pelo pescoço, ela pergunta pasma...

- Como é que é, Gladston???

- É isso mesmo! Em boa parte a culpa é sua!

- Seu desgraçado, calhorda, filho de uma puta!!! Como é que você ainda tem a coragem de me dizer isso??? Seu monstro doente!!!

- Quer que eu te diga por quê que a culpa é sua?

Ela começa a se sentir tonta. A sala do apartamento agora é um submarino e o mar está agitado. Terremoto sub-aquático, tsunami.

- Por que, Gladston? Por quê que a culpa é minha?

Pausa. Ele olha para ela. Seu cinismo vai pedir truco numa jogada já perdida. Pensa ainda. E tenta...

- Há quanto tempo, Ana Cláudia, nós não fazemos sexo anal?

Tranco. Tudo balança. O submarino parece ter batido em algo.

- Não, Gladston... Não... Você não me fez essa pergunta... Eu me recuso a acreditar que você me fez essa pergunta...!

Mas ele insiste...

- Faz muito tempo! Faz muito tempo, Ana Cláudia, que você tem me negado isso! E você sabe como eu gosto!

Decerto foi um rochedo no fundo do mar. Tudo gira. As luzes piscam.

- Filho da puta! Cafajeste! Desgraçado! Eu matar você, sabia? Eu vou matar você!

Para agravar, ele grita com ela...

- Pois é isso mesmo!!! Você sabe que eu gosto e, mesmo assim, me nega!!! Resultado... Tive que procurar na rua!!! A culpa é sua, sim!!!

O submarino foi a pique. De cabeça para baixo, ei-lo no fundo do mar. E, com a vida a pique, de cabeça para baixo, eis Ana Cláudia levantando-se do sofá, ou do fundo do mar, trazendo consigo o abajur ao seu lado e o atirando violentamente contra Gladston, enquanto grita...

- Você gosta de sexo anal, sim!!! Só que é no seu cu!!! Seu veado, filho de uma puta!!!

O abajur o atinge meio de lado e se espatifa na parede. Ela continua gritando...

- Veado!!! Bichona louca!!! Você gosta de chupar rola, né??? Gosta de um caralho enfiado no cu, não é isso???

- Calma, Ana Cláudia! Vamos conversar, meu amor... ! Pelo amor de deus...!

- Meu amor, o caralho! Sai daqui agora, seu veado filho de uma puta!!!

Pausa. Tensão. Ele ainda apela...

- Mas este apartamento também é meu!

- Saaaaiiiiii!!! Eu te odeeeeeeeeio!!! Seu porco imundo!!!

Outra idéia torpe...

- E a Manú? Eu quero ver a minha filha!

- Ela está com minha mãe!

- Então vamos buscar! Se for para eu sair daqui, eu levo ela...

- Leva ela, o caralho!

Ele sobe o tom...

- Eu não saio daqui sem a minha filha!

Ana Cláudia descontrola-se de vez. Parte para cima de Gladston a socos e pontapés. Chegar a fincar as unhas de sua mão direita no rosto dele, que começa a sangrar. Ele então a empurra. Ela vem para trás e tropeça, caindo de costas sobre uma pequena mesa de canto, de onde um cinzeiro, um porta-retrato e outros objetos caem e se espalhem pelo chão. Mas ela levanta rápido e, tomada de um estranho impulso que jamais a ninguém saberia descrever, deixa a sala e se dirige para o quarto do casal. Gladston volta a chorar. Passa a mão pela face e sente as lágrimas que se misturam com o sangue. O que fazer? O que dizer? Como recuperar a sua máscara, no chão ali espatifada ao lado do abajur?

Um minuto, um e meio, e Ana Cláudia reaparece. Vem andando devagar e tem algo nas mãos. Alguns segundos e Gladston não pode crer no que vê. É um revólver o que ela traz. Negro, ei-lo, o revólver, que ela agora ergue, apontado na sua direção. Gladston chora, sangra, treme e sua. 

- Que é isso, Ana Cláudia??? Onde foi que você arrumou isso???

- Era do meu pai!

- Abaixa isso, pelo amor de deus!!!

- Sai daqui agora, Gladston! Sai daqui agora e não volta nunca mais!

Pausa. Medo. Ódio.

- Mas Ana... Eu... Eu...

Ela grita...

- Saaaiiiii!

Ele chora. Ela está a um metro dele. Ele olha. Ela engatilha o revólver. Medo. Ódio. Medo. Ódio. Ele vai recuando devagar rumo à porta. Ainda olha para ela tentando provocar pena. Mas é dela mesma que ela sente pena agora. Dele, só ódio. Um ódio que jamais ela se soube capaz de odiar. E, agora baixo, quase soprada, ela repete...

- Sai!

Ele abre a porta. Ainda olha para ela a com os olhos pedir piedade. Um segundo, dois, três, e, mesmo com a boca seca, ela consegue ainda reunir saliva para, com a maior convicção de sua vida, cuspir-lhe na cara.

Depois que ele enfim se vai, oxalá para sempre, Ana tranca a porta por dentro e se deixa desabar a ela encostada. De um modo surpreendente para si mesma, descobre que ainda tem lágrimas suficientes para chorar uma cascata. Frágil, chora ali, junto à porta numa posição meio que fetal, o duro golpe que levou do destino. Segura o revólver e chora. A certa altura, deixa o posterior de sua cabeça se encostar na porta atrás de si e, perdida no labirinto da vida, leva arma atá a boca, onde introduz o cano até tocar o céu. É puxar o gatilho e, daquele cano com um quê do pênis duro de Andréa, a porra de uma bala daria um jeito na porra toda. Mas não. Um segundo, cinco, dez. Ana Cláudia pensa em Manuela e compreende que não pode. O pior do labirinto da vida, conclui, é que já sequer faz sentido dele sair. Depois de uns cinco minutos ali, sempre a segurar o revólver, põe-se a, como uma criança fingindo-se de bicho, andar de quatro na direção do quarto. Lá, ajoelha-se diante de seu armário, onde, na gaveta em que sempre esteve desde que a herdou do pai, Gladston jamais o soube, guarda a arma. Depois, cão sem dono com fome e frio, segue de quatro de volta para a sala e vai ao telefone. Tecla. Ana Clara atende...  

- Alô! Claudinha??? O quê que foi??? O quê que você tem???

O dr. Clóvis acompanha preocupado. Ana Clara olha para ele enquanto fala...

- Calma, Claudinha!!! Fica calma!!! É algum problema com a Manú??? Não, tudo bem! Tá, eu tô indo! Em meia hora eu tô aí! Mas fica calma, pelo amor de deus!!!

Desliga.

- Meu deus do céu, Clóvis!!!

- O quê que aconteceu???

- Ela não disse! Mas estava em prantos! Pediu para eu ir para lá agora!

Gugu Keller

6 comentários:

  1. Sensacional Keller.Aguardo o próximo cap.Ve se posta rápido rs.
    Abs

    Cainã Ito

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    1. Obrigado mais uma vez, Cainã! Salvo algum imprevisto, sexta-feira que vem o próximo estará postado!
      GK

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  2. Aguardando o próximo capítulo. Tu deverias escrever um livro nessa temática. Gosto do seu jeito de escrever. Beijos.

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    1. Querida amiga...
      "A Esquina" é um livro! O único diferencial é que o estou escrevendo aqui e com uma freqüência pré-determinada. Mas, depois que o concluir (serão 52 capítulos), eu o publicarei no formato de livro! Obrigado por teu incentivo!
      GK

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  3. Tão melodramático, previsível e cafona que chega a ser cômico.

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