sexta-feira, 19 de abril de 2013

A Esquina - Capítulo 33

- Abre o meu armário! Abre a última gaveta da esquerda! A de baixo! Isso! Agora procura no fundo dela uma caixa verde!

- Esta?

- É! Essa! Abre!

Natália abre a caixa e sente um tranco na boca do estômago. Suas pernas bambeiam e ela quase não se sustenta. Brilhante e niquelado, é um revólver o que há ali. Temendo o que sabe estar prestes a ouvir ao cabo de segundos, o contexto é inequívoco, resta-lhe, com o corpo a exalar adrenalina, exclamar ao marido...

- Meu deus, Fernando!!! O quê que isto está fazendo aqui???

- Eu nunca comentei com você, mas sempre tive isso guardado!

- Mas para quê???

- Ué... Um dia a gente pode precisar... - Pausa. - Como agora eu estou precisando!

Ela tenta não entender...

- Como é que é???

- Eu preciso que você use isso, Natália, e ponha um fim neste meu sofrimento! Porque eu não agüento mais, meu amor! Eu simplesmente não agüento mais!

Ele chora de desespero por sua impotência. Ela, de impotência quanto ao seu desespero.

- Pelo amor de deus, Fernando! Você sabe que eu não posso fazer isso...!

- É claro que pode! É só apontar para mim e puxar o gatilho! Pode ser no peito, pode ser na cabeça, dentro da minha boca...

Ambos choram copiosamente.

- Você está louco, Fernando! Eu não posso fazer isso!

- Você tem que fazer isso por mim, Natália! Pelo amor de deus! Você já não me disse várias vezes que sente uma culpa enorme pela minha situação?

- É claro, pô! Era eu quem estava dirigindo aquele maldito carro naquela maldita noite...! Naquela maldita esquina...!

- Pois então... Esta é a tua chance de consertar o que você fez! Me livra deste inferno, pelo amor de deus! Eu juro que vou em paz! E te perdôo por tudo! Eu só não quero mais ser este objeto que eu sou, que sente, que pensa, que sofre, mas que é só um objeto! Um traste, uma coisa, uma planta! Me livra disto, pelo amor de deus! É só apontar e puxar e o gatilho! Pelo amor de deus, Natália! Eu te imploro! Me mata, por favor! Me mata!

O choro de ambos chega ao soluço. Dá-se um pausa.

- Fernando... Esta coisa está carregada?

- Na última vez em que eu mexi, deixei carregado! É só você apontar e puxar o gatilho! Não tem o que errar!

Ela pensa. Odeia-se por pensar mas pensa. Afinal pondera com ele...

- Fernando... Vamos que eu tivesse coragem de fazer o que você está me pedindo... Porque é claro que eu te entendo... Não pense que não! Todos os dias da minha vida eu penso no quanto você sofre... Deve ser simplesmente horrível estar na sua situação...

- Você não faz idéia, meu amor... Você não faz a menor idéia idéia... Eu me sinto um cadáver enterrado mas com a cabeça para fora...!

- O que eu quero dizer, meu amor... É que, mesmo que eu tivesse coragem, se eu fizesse isso, eu seria presa, Fernando...!

- Eles te perdoam, meu amor! Já te perdoaram uma vez! Tem o dr. Renato! Ele é um grande advogado! Ele te livra! Pelo amor de deus, faz isso por mim! Meu corpo já está morto! Eu só preciso que você me dê um tiro para livrar de vez a minha alma!

Ela chora. Olha. Pensa. Considera. Quer. Teme. Faria. Odeia. Deseja. Odeia-se porque deseja. E porque faria. E porque não faz. E odeia-se porque teme. Porque se culpa. Porque fez o que fez. Porque fez o que fez por conta do que, naquela noite, havia feito. E, sobretudo, por ainda desejar tanto o que naquela noite havia feito, que a fez fazer o que fez, e pelo tanto que ao mesmo tempo ainda o teme, ao desejo, odeia-se.

- Eu vou te dizer, meu amor, - continua Fernando - uma coisa muito louca em que eu tenho pensado muito...

Ela olha. Ele segue...

- Você acredita em vida depois da morte, Natália?

Ela não sabe o que dizer. Ele continua...

- Tudo bem! Não precisa responder... Isso é complicado mesmo... Eu também não sei se acredito, ou como acredito, ou no que exatamente acredito... Mas sabe a que conclusão eu cheguei?

Ela continua olhando. Ele, falando...

- A de que morrer, Natália, é a minha única chance de vida!

As lágrimas que ela derrama, sem que saiba por quê, de algum modo parecem ficar mais ácidas, ou mais salgadas, e os seus olhos agora ardem em meio ao choro contínuo e compulsivo. Fernando ainda conclui...

- Eu sei que soa estranho... Mas é isso, meu amor! Vivo assim, eu estou morto! Talvez morto, Natália, em algum lugar, não sei, eu possa voltar a viver...! Você entende? É a minha única chance...!

Pausa. Ela diz enfim...

- Fernando... Se eu fizer isso, é capaz até de me acusarem de ter te matado só para ficar livre de você... Para ficar livre de ter que cuidar de você... Você sabe como são as coisas, meu amor... As pessoas são assim...!

Outra pausa. Ele pensa.

- Faz uma coisa então... Pega a filmadora!

- A filmadora??? Pra quê???

- Você me filma dizendo que eu quero que você me mate!

- Como é que é???

- É isso mesmo que você ouviu! Você registra a minha vontade de morrer, e aí ninguém vai te condenar...!

- Isso não mudaria nada, Fernando! Pelo amor de deus! Você nunca ouviu falar em eutanásia?!? É crime do mesmo jeito, você sabe!

Mais uma pausa. Ele pensa de novo.

- Tudo bem, Natália! Já que você está falando nessas questões legais, deixe-me dizer...

Ela se apruma para ouvir. Ele segue...

- Vamos que você seja condenada... Pegará o quê? Uns 15, 20 anos de cadeia? Você cumpre cinco, vai para o regime semi-aberto, bom comportamento, etc... Em menos de dez anos com certeza estará livre... Você está com 33... Aos 43 estará livre, cheia de vida pela frente... E você terá, de onde quer que eu esteja, o meu eterno perdão, o meu eterno amor, a minha eterna gratidão...! - Pausa. - Faz isso por mim, meu amor! Pelo amor de deus! Me mata! E me devolve a vida que eu perdi naquela noite!

Ela olha. Pensa. Treme. Teme. Sua. Sente. Faz a caixa verde descansar sobre a cômoda ao seu lado e dela apanha a arma. Sente-se estranha ao tê-la na mão. Se há três anos considera-se uma assassina, ei-la-o agora mais do que nunca. Com Fernando na cama ela ali de pé troca um olhar. Executores e executados um do outro ambos eis. Movendo o pescoço, é só dele para cima o que move, ele faz um aceno afirmativo com a cabeça. Ela vem se aproximando. Devagar, devagar, devagar. Passo, pausa, passo, pausa, cadafalso. Ei-la nele.

A trêmula mão direita que segura o revólver ainda o aponta para o chão. Ela põe o joelho esquerdo sobre a cama, ao lado de onde Fernando está deitado e, ainda lenta, sempre lenta, como se aquela fosse uma cena de que não participa mas a que assiste de longe em câmera lenta, ela move o braço e traz a arma. Tremendo de um modo tão frenético que a algum eventual observador talvez até parecesse proposital, ela aponta o cano para o peito dele. E treme. Sua. Pensa. Dedo no gatilho, farol, brecada. Muro, escuro, morte, morgue.

- Vai, Natália! Atira! Vai! Me mata! Me salva! Atira! Vai! Atira logo! Atira, porra! Pelo amor de deus, Natália! Atira, porraaaaaaaaa!!!

Natália ofega. Com ambos os joelhos já sobre a cama, deixa seu tronco baixar sobre o corpo de Fernando. Toca-lhe entrementes com a ponta do cano no peito.

- Atira, Natália! Atira!

Ela lhe leva a mão esquerda aos cabelos. Afaga-os. Depois a testa suada e o rosto úmido de lágrimas quentes. E vem aos poucos subindo com o revólver encostado no corpo dele. Peito, coração, pescoço, queixo...

- Atira! Pelo amor de deus, Natália, atira!

Eis o cano diante da boca. Ele de novo diz "atira" e a abre. Lentamente, como naquela noite o pênis de Rodrigo na sua, ela faz entrar o cano, que toca o céu. Fernando fecha os olhos. Ela sente o gatilho no indicador. Um segundo, dois, três, cinco, dez, vinte. Ele morde a arma e faz soar um grunhido, como se dissesse...

- Atiraaaaaaaa!!!

Natália se sente cair num choro dentro do choro. Fosso fossa fóssil. Qual vinda de um sonho pesadelo acordada, desaba sobre si mesma num duro chão de realidade. Medo, morte, morgue. Cadeado, cadeia, cadê? No limite do seu longínquo pós-limite, ela tira o cano do revólver do interior da boca de seu cônjuge e, desesperadamente impotente, diz-lhe a perdigotejar lágrimas em seu ouvido...

- Desculpe... Eu não posso...

E se afasta dele rumo ao refúgio do seu lado da cama, repetindo baixo entre soluços...

- Eu não posso... Eu não posso... Eu não posso fazer isso...

É ele quem agora sente que tem as lágrimas mais ácidas. Um minuto e ela volta com seu rosto perto do dele e diz-lhe em conclusão, repetindo a grande mentira...

- Eu não posso, Fernando! Eu te amo!

E, para uma confusa surpresa de Fernando, pela primeira vez desde que tudo aconteceu, ela calorosamente por vários segundos o beija na boca, até que de novo, virando-se, fugindo, furtando-se, ruindo, deita-se.

A ponto de chorar sangue, assim ele o sente, por tamanho stress, Fernando, não obstante o nostálgico sabor ao mesmo tempo doce e amargo daquele beijo, enfrenta o maior desespero de sua vida. Ei-lo, é como o vê, abortado a um passo do renascimento. E oxalá, pensa agora, tivesse sua mãe o abortado. Sim. Jamais ter existido o teria poupado de tanta dor. Meia hora se passa e ele já não ouve o choro de Natália, que, virada para o outro lado da cama, talvez, ele não sabe, tenha adormecido. Ei-lo então a, num desespero de tartaruga de ponta-cabeça, tentar alcançar o revólver, que ficou sobre a cama, entre ele e ela, a bem pouco de seu rosto. Virando o pescoço para o lado direito, busca-o com a boca, a língua principalmente. Ele o toca mas não tem como o posicionar do modo necessário para o que pretende. Ademais, logo parece certo que jamais teria como acionar o gatilho. Mas continua tentando. Como quem luta pela sobrevivência, luta pela morte. Tenta, insiste, por horas e horas, até que os poucos músculos que mexe chegam à exaustão. Fracasso. O dia já amanhece quando enfim reconhece que só lhe resta desistir. E Fernando sente uma enorme vontade de gritar. Gritar, gritar, gritar, gritar, gritar. Gritar o maior grito que algum dia alguém terá gritado. Um grito do tamanho da sua dor, do tamanho do seu desespero, do tamanho da sua indescritivelmente sincera vontade de morrer.

Mas ele não grita. A uma, afinal não faz sentido. A duas, plantas não gritam.

Gugu Keller

6 comentários:

  1. Doloroso. Inconcebível desespero narrado de forma robusta e profunda.
    Gugu, acho que não há voz humana capaz de gritar um grito tal que alivie essa dor esse desespero.
    Gosto do que escreve.
    Beijos.

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  2. Muito obrigado, Caroline! Mais 19 capítulos e concluímos!
    GK

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  3. Esse desespero viu...rs
    Acompanhando a novela Keller.aguardo próximo capítulo.

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  4. novela mexicana, bem escrito, porém repetitivo e muito chato.

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