sexta-feira, 26 de abril de 2013

A Esquina - Capítulo 34

1998

Rodrigo cai sobre os seus joelhos. Diante dos cacos da tv e da garrafa espatifadas, um dos quais lhe fez um corte numa das mãos, no chão da sala sangra e chora. Raquel se foi. A vida se foi. O sentido se foi. A porta do apartamento se fechou por fora e ele mesmo, Rodrigo, de algum modo, de muitos modos, também se foi. Foi-se, vai-se em sangue. Foi-se, vai-se em lágrimas. Trama, transa, tensão, traição. Vai-se, foi-se, foice, fim.

2003

Rodrigo dirige seu carro. Cinco minutos e pára. Não há sentido em continuar. Não vai mesmo, percebe, a lugar nenhum. Estaciona, desce e põe-se a andar pela calçada. Mais cinco minutos e de novo pára. Continua, dá-se conta, agora a pé, indo sem ir. Olha então para o meio-fio e nele se senta. Na tarde fria, parado ali, chora. Quando o mundo virou do avesso, ele entre cacos e cortes se revestiu. Agora o mundo voltou à posição inicial, e ei-lo, mais do que nunca, todo ao contrário, perdido, contorcido, invertido, apenas a, decerto para sempre, sentado naquele meio-fio, chorar, ou, pelos olhos um sangue incolor, sangrar.

1998

Ainda chorando sentado na sala, com os olhos por ainda chorar embaçados, Rodrigo olha perdido para a mão que sangra. Por alguns longos e estranhos segundos, indescritíveis segundos, fica a observar o sangue escorrer pela pele da palma. Há naquilo um quê de lágrima, um quê de lava e um quê de lama. Lavar. Sim, é preciso ir ao banheiro lavar aquela mão. Mas, antes de se levantar, naquela mão, Rodrigo atina... A aliança! Sim, naquela aliança, Raquel ainda está ali. Não, não se foi, ei-la. E, também, naquele exato momento, de um modo estranho e indescritível, ei-lo, Rodrigo, sanguinolento, sanguinário quase, a si de volta. É. Reagir, reação, resposta. Rodrigo decide. Levanta-se e vai até o banheiro. Ainda sangra. E vulcaneia lágrimas. Mas já não chora.

Rodrigo lava a mão cortada com água e sabonete. Facilitada a operação pela espuma, tira lentamente do anular a até ontem mais preciosa jóia do mundo, hoje algema. Pára, pensa, pergunta-se em silêncio enquanto fecha a torneira e, a encarar-se no espelho, enxuga as mãos, o anel descansando sobre a pia. Rodrigo se vira. Olha para o vaso sanitário. Será? Sim, e melhor já, sem qualquer hesitar. É. Reagir, reação, resposta. Rápido. Decidiu. Apanha a aliança e, qual fosse ela um atestado de sua completa imbecilidade por ter acreditado em algo torpe como é o amor, atira-a dentro da privada. A seguir, baixa o moleton e com o pênis faz pontaria. Alguns segundos e ei-lo a urinar sobre a aliança, sobre a traidora, sobre a hipocrisia humana, sobre a ilusão de que haja qualquer ética entre as pessoas, sobre o seu casamento de merda, sobre a merda toda, sobre o mundo.

Rodrigo dá a descarga e olha para dentro do vaso. Sim, a aliança se foi com a urina. Esgoto. Ele ainda cospe sobre a água agora limpa no fundo e, dirigindo-se, já sem lágrimas, a Raquel, diz...

- Vai se foder, piranha!

Voltando para a sala e observando a bagunça, Rodrigo pensa. Do aparelho de dvd faz ejetar a maldita media. Apanha-a. Pensa. Decide. Vai à pia agora da cozinha e, com um isqueiro, põe-se a queimá-la até que se derreta e entorte, deixando-a para sempre certamente imprestável. A seguir, após o deixar esfriar um pouco, novamente apanha o agora disforme e inútil objeto e vai até a janela da sala, que abre, inspirando fundo o ar da noite que sopra ameno.

Para melhor sentir em si a brisa noturna, ele tira a camiseta que usa, a do seu time de coração, que agora tem uma mancha de sangue que ele ainda não viu, e, com a media retorcida em sua mão, faz um solene juramento, que, por deus, muito mais do que o que fez na igreja para Raquel diante do padre e de todos os convidados, haverá de cumprir à risca pelo resto de seus dias... Jamais voltará a amar alguém e, tanto quanto possível, ele que sempre foi por elas muito assediado, seduzirá e fará sexo com todas as mulheres atraentes que doravante aparecerem em sua vida, sem para os seus sentimentos dar a mínima!

E Rodrigo atira a media pela janela enquanto diz para si mesmo...

- Vou foder vocês todas, suas piranhas!

2003

Ainda chorando sentado no meio-fio, com os olhos por ainda chorar desfocados, Rodrigo olha para a mão em que usava a sua aliança de casamento, a mesma mão que naquela noite sangrava, a mesma aliança que, junto com a sua urina, se foi, naquela noite, pela privada, rumo ao esgoto. A seguir, a tarde é fria, ele se lembra sem camisa a jurar diante da janela o que há cerca de uma hora já não faz mais sentido. A sangrar sem sangue, Rodrigo sente novamente, e novamente às avessas, um estranho, e indescritível, "déjà vu". Sim. Ele fecha os olhos e se vê no espelho a enxugar as mãos, e de repente parece-lhe claro o quanto ele ainda ama Raquel, o quanto ele foi um completo imbecil por, naquela noite, bêbado e irônico, sequer ter dado a ela a chance de explicar o que só agora ele sabe, e o quanto o amor, em que tanto ele sempre acreditou, e, sim, ainda acredita, é uma dádiva divina para ser vivida em sua total plenitude. E, ainda com os olhos fechados, ele deseja haver uma privada atrás de si, onde, com a bexiga no máximo do que lhe cabe, ele possa urinar sobre a sua burrice, sobre a sua precipitação, sobre a sua vida vazia de "comedor" inconseqüente, em que tanto, qual a "tigreza", tem espalhado prazer e dor, e sobre a sua tristeza tão bem camuflada, e sobre a merda que é fazer sexo com tantas e sempre pensar em Raquel, e sobre a merda toda, toda essa merda.

A temperatura vai caindo e Rodrigo sente a brisa da tarde contra si, e, ali mesmo, sentado a já não chorar lava petrificada naquele meio-fio, faz solene um juramento que, por deus, muito mais do que o que fizera naquel noite naquela janela, haverá de cumprir, nem que custe o resto de seus dias... Encontrará Raquel onde quer que ela esteja e lhe dirá que a ama, que a perdoa, até porque, agora que ele sabe como tudo aconteceu, nem há o que perdoar, e que a quer de volta para, como jurou para ela na igreja diante do padre e dos convidados, ficar para sempre ao seu lado.

1998 / 2003

Adriane, Bárbara, Fernanda, Tânia, Beatriz, Rebeca, Ana Maria, Carla, Paula, Flávia, Samanta, Inah, Débora, Karina, Taynara... Rodrigo não saberia dizer um terço dos nomes das mulheres com quem ele fez sexo durante os cinco anos que sucederam a sua separação. Muitas delas, tal o nível a que a coisa chegou, ele sequer reconheceria se passassem ao seu lado. Conforme jurou sem camisa na janela de seu apartamento naquela noite, foi, enquanto fez sentido, uma vida sexo sem fim. Sexo, sexo, sexo, sexo, sexo. Vaginas, peitos, ânus, línguas, lábios. Corpos. Houve fases em que ele fazia sexo com cinco mulheres diferentes numa mesma semana. Desde a primeira, Mariana, dez dias depois da separação, até a última, Taynara, ou Tayane, ou Flávia, com quem aconteceu dezenas de vezes, mas que na última, se assim esta puder ser considerada a última, ele fez apenas sexo oral já na manhã em que tudo se inverteu, mais de trezentas mulheres ele penetrou. E muitas, a grande maioria, perdidamente por ele se apaixonaram, mas, cumprindo à risca a sua promessa, com nenhuma delas ele sentimentalmente se envolveu. 

2003 / 2008

Inglaterra, França, Espanha, Portugal, Itália, Alemanha, Áustria, Suíça, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia, Rússia... Como Priscilla, a quem Rodrigo várias vezes procurou antes de partir, jamais concordou em lhe dizer o paradeiro de Raquel, não que ele tivesse certeza de que ela o soubesse, mas a única que poderia saber era ela, ele, num misto insano de esperança e desespero, largou seu emprego, vendeu tudo o que tinha e foi para a Europa à procura da amada. Sim, pois que ela havia ido para aquele continente era a única informação que ele tinha, se é que verdadeira era, sequer disso ele tinha segurança. Mas foi. Procurando-a literalmente a esmo, por mais de quinze países perambulou. Andava a olhar cada rosto com que cruzava, sentava em praças e estações e ficava por horas a observar os passantes, mostrava fotos a pessoas em bares, cafés, empresas e consulados. Caminhou por terminais rodoviários, aeroportos, universidades e museus. Interpelava gente que encontrava em agências de emprego, em recepções de hotéis, em teatros, cinemas e nos principais pontos turísticos de cada cidade onde esteve. Ficou quase cinco anos a, para incredulidade e extrema preocupação de seus familiares e amigos, procurar por Raquel na Europa, como quem procura alguém de quem se perdeu numa praia ou num parque de diversões. 

Durante todo esse tempo, cinco anos, registre-se, em completo oposto ao que haviam para ele sido os cinco anteriores, Rodrigo não teve nenhuma relação sexual. Foram cinco anos de total abstinência. Não que ele a isso se houvesse proposto. É que na cabeça dele só havia uma coisa... Cumprir seu juramento. Encontrar Raquel. Nas raras vezes em que, durante esse período, sentiu necessidade de se masturbar, a despeito das tantas pessoas, mais de três centenas, com quem tanto se lambuzara, pensou apenas nela. Só ela. Sempre ela. Apenas ela. Para sempre. Raquel.

Gastou todo o seu dinheiro. Perdeu mais de dez quilos. Chegou a passar frio e fome em sua tresloucada busca. E jamais encontrou nenhuma pista.

Gugu Keller

6 comentários:

  1. Meu Deus!Me deixou angustiada, GK, preocupada com esse menino... rs! O amor pode ser insuportável e, ao mesmo tempo, extasiante... Nossa busca pela plenitude muitas vezes é irracional e sempre sofrida, mas desistir dela é desistir da própria vida.
    Beijos.

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  2. Pois é, Caroline... O amor é a maior, e também a mais bela, expressão do nosso paradoxo!
    Obrigado!
    GK

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  3. Personagem muito intenso, creio que representa nossos sentimentos mais fortes, não é Rodrigo, mas a representação da raiva, do ódio, do amor, da derrota, da insanidade, tomara que um dia demonstre a harmonia e a paz. Me sentiria mais aliviada rsrsrs. Bjão.

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  4. Obrigado, Ju! Quem sabe ele possa chegar lá...
    GK

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  5. Rapaz impulsivo, esse Rodrigo. É como cada um de nós, mesmo que indiretamente. Errando, até descobrir o erro e voltar atrás. Pena que os arrependimentos nem sempre coincidem com as escolhas dos outros.
    Beijos.

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  6. Sim! E com quanta dor ele aprendeu que nem tudo é o que parece, não é mesmo?
    GK

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