sexta-feira, 3 de maio de 2013

A Esquina - Capítulo 35

Uma semana havia se passado desde aquela noite. Na manhã seguinte, Natália devolveu a arma à caixa verde e esta ao fundo da mesma gaveta, e no assunto não mais se falou. Como jamais antes desde o acidente, Fernando esteve quieto durante esses sete dias. Como nunca, portou-se como auto-ironicamente se define, uma planta. Os raros e monossilábicos diálogos que houve diziam respeito apenas a pequenas coisas que a ela ele tem que pedir, como de comer, de beber, ou para trocar o canal da televisão, ou a ligar ou desligar. Quanto a Natália, triste, amarga e perdida, tampouco ela parecia encontrar algum assunto com que driblar o seu desde então constante temor de que ele novamente surtasse e voltasse a lhe pedir que o matasse. Com o aval do médico, a dose do antidepressivo foi, conforme aventado durante aquela cena de tragédia, algo aumentada, e, contudo, a despeito ou de todo modo, o clima veio vindo apavorante, sobretudo quando ao lado dele ela vinha deitar-se para dormir. Noite após noite, era como se ambos esperassem um do outro pela palavra que, como uma bomba a despencar do céu, cedo ou tarde, não se sabia a que altura estava e a que velocidade, a trazer muita dor enfim chegaria ao chão. Todavia, em completo contrário ao que Natália temia, quando Fernando, na noite de hoje, uma semana depois, afinal menciona o acontecido, não é, não que não mais o queira, para dizer que quer morrer, que precisa que ela o mate, ou, como não raro diz, acabe de matar. Não. Ele reporta-se àquela noite trazendo algo que para Natália passou praticamente despercebido, mas em que ele, em seu silêncio botânico, muito pensou durante essa sua primeira semana de suicida sem como assumido...

- Natália...

Ela está deitada de costas para ele com os olhos abertos, seu abajur no criado-mudo aceso, o dele não.

- Hum?

- Eu fiquei pensando, sabe?

- Sobre o que, Fernando?

A conversa é pausada e em voz baixa. Agora que vai entrar no assunto, ele dá uma pausa ainda maior...

- Hoje faz uma semana... Uma semana desde aquela noite em que eu te pedi aquilo...

Natália sente um nó no abdômen. Já imagina que ele vai voltar à carga. Talvez, pensa, devesse ter dado cabo do revólver. Tenta ser assertiva...

- Não vamos mais falar sobre isso, Fernando!

Pausa.

- Mas é que eu fiquei pensando uma coisa, sabe?

Pausa. Ela se vira para ele.

- Por favor, Fernando... Nunca mais me peça aquilo!

Outra pausa. Ele também, o quanto pode, vira o rosto para o lado dela.

- Eu quero te pedir uma coisa, Natália... Mas é uma outra coisa! Não é o que você está pensando! É que eu não sei se você reparou...

- Reparei no que?

- Que, naquela noite, meu amor, uma semana atrás, foi a primeira vez, desde o acidente, que você me beijou na boca... Você reparou?

Natália sente algo estranho, que não saberia dizer se é bom ou ruim, se lhe alegra ou entristece. Mas o fato é que ele está certíssimo. Sim, foi a primeira vez desde aquela trágica madrugada em que se tocaram as mucosas labiais dele e dela. Sequer ela assimilou ele o ter dito, e já se emenda o pedido anunciado...

- Você me beijaria de novo, Natália?

Natália sente-se confusa e já ainda mais confusa por confusa se sentir. Que pode haver de mais natural do que um casal, marido e mulher, beijar-se na boca? Nada, é claro, pensa ela. Todavia tudo se tornou tão turvo, tão curvo, tão lúteo. Quando fez aquele juramento sobre o túmulo da sua outra vítima, ela própria, Natália, havia, de certo modo, de muitos modos, dado-se como morta também ela, também vítima. Homens, nunca mais. Sexo, nunca mais. E ela havia, agora o percebe, de modo inconsciente, desde que o médico o declarou, como tetraplégico, incapacitado para o sexo, dado também Fernando, de certo modo, de muitos modos, do principal modo, como morto. Os três todos de muitos modos mortos naquela esquina. Sem sexo. Sem nexo. Sem plexo. E agora ele vem com essa? Beijar na boca? É! Sim! Vivo afinal, ele ainda tem boca! E pede de novo...

- Me beija, Natália! Me beija, meu amor!

Eis Natália deitada sobre Fernando com os lábios nos seus lábios. Ei-la a, dentro da boca onde há uma semana meteu o cano de um revólver, meter a língua. E quente pulsa a, por obra sua, planta de carne. E ela o beija, e o apalpa no rosto, e nos cabelos, e na nuca. E o que era nunca agora é nuca. E, quando, minutos passados, ela enfim o permite, ele lhe diz com os olhos marejados...

- Eu te amo, Natália! Eu te amo muito!

Ela quase deixa escapar o "eu também". Segura-o a tempo ao a tempo constatá-lo apenas por culpa, sem qualquer mínimo não nada de sinceridade. De todo modo, também os olhos dela eis agora carregados, avermelhados, até que, ambos face a face à meia luz do abajur, ela derrama uma lágrima sobre o canto de um dos olhos dele, que já ia por seu turno verter uma, de modo que é uma lágrima mistura das de ambos que então escorre pelo rosto dele. E novamente eles se beijam. Dez segundos, quinze, vinte, e, ofegando, diz ele a ela então...

- Deixa eu te chupar!

Ela de novo sente um nó no abdômen. Cego. O que foi que ele disse???

- Chupar??? Você quer me chupar???

- É! Quero! Vem! Tira a roupa e deixa eu te chupar!

Desgovernado e sem freio, vai o trole morro abaixo. Medo, descontrole, temor, trepidação. Acelera, acelera, acelera. O descarrilamento é iminente. Natália, meio sobre o túmulo e meio a o negar, livra-se de sua camisola. A seguir, como jamais pensou, e jurou que não faria, novamente fazer diante de um homem, ei-la a, surpreendentemente diante do seu próprio, tirar a sua calcinha. Tarado entrevado, Fernando a observa. Um fio de saliva, a buscar o caminho da lágrima duas, verte de um dos cantos de sua boca. A descida se ingremiza. A velocidade aumenta. A paisagem se distorce. Meia luz, abajur. Natália puxa o corpo de Fernando um pouco para baixo em relação à cama e vem de pernas abertas contra a sua boca. Qual de tamanduá num formigueiro, ei-la, a língua, voraz a cavoucar. Onde uma semana antes revólver, clitóris, pêlos, lágrimas e saliva.

- Isso!... Isso, querido!... Chupa!... Assim!... Ai... Ai, que gostoso!...

Tarada travada, Natália vai se excitando. Mais, mais, mais, mais, mais, até que, intruso, vilão, maldito, demônio, desgraçado, Rodrigo surge na cena, e surge, pensamento, em forma de pênis, em forma de pau, de pica, rola, piroca, cacete. E, quase tanto quanto o deseja, Natália o odeia. E, quase tanto quanto odeia Fernando, e a si por o odiar e desejar Rodrigo, Natália deseja, e, de olhos agora fechados, fantasia, que seja ele, Rodrigo, o dono daquela língua desesperada dentro dela.

Mas Natália luta. Com honra jurou sobre aquele túmulo e, não, não vai se entregar. Sim, seu marido ainda está vivo. Não, ela não o matou por um pênis alheio. Com um gozo vindouro que ela sabe mais fruto do outro homem em sua mente do que do seu dela debaixo, ela luta. E decide agora. Sim, o seu marido tem um pênis. Quem sabe, a medicina tanto avança, ainda haja um jeito de o fazer enrijecer, ou, talvez, ainda que Fernando não o sinta, ele possa, o pênis, - por que não perguntar ao médico? - enrijecer-se de modo espontâneo esporadicamente. E ela luta. Contra Rodrigo e, de certo modo, de muitos modos, de todos os modos, contra si mesma, luta, e, lutando, vira-se sobre Fernando e, de novo a, agora ao contrário, deixar a vagina sobre a sua boca para que ele a continue chupando, dispõe-se a, mesmo mole, abocanhar seu pênis. É. Fernando é o seu marido. E Rodrigo, por mais que, dele sim, seja ainda duro o pênis, é afinal em quem ela deveria atirar com aquela arma, maldita arma, ali dentro da caixa verde, ali dentro da gaveta, a da esquerda, no fundo.

Mas a luta é inglória. Natália baixa a calça de moleton que Fernando usa e depois a fralda. Excitadíssima, leva a boca ao pênis disposta a ignorar o fato de ele parecer estar menor do que nunca, murcho, flácido e enrugado. Chega a tocá-lo com os lábios mas de repente pára, quando um odor forte e repugnante lhe invade as narinas. Podridão. Ao mesmo tempo, urina e fezes. Atina então para o quanto a fralda está suja e, qual naquela tarde sobre o túmulo, vem-lhe uma repentina vontade de vomitar. Sem dizer nada para Fernando, e já vomitando a cântaros pelos olhos, Natália se levanta rápida e corre para o banheiro. Fecha a porta por dentro e ajoelha-se diante do vaso. O vômito não chega a vir. Apenas lágrimas latrina abaixo.

Natália inspira. Expira. Inspira. Expira. Luta. Luto. Luta. Luto. Luta em luto. Enluta-se em luta. Pensa em gritar. Não grita. Pensa em sangrar. Não sangra. Pensa em matar. O revólver na caixa verde. Pensa em morrer. Na gaveta da esquerda, no fundo. Pensa que já matou. Já mutilou. Transformou em planta. E pensa em Rodrigo. Odeia-o. Odeia-se. Deseja-o. Deseja. Déjà vu. Leva então o dedo médio da mão direita à sua vagina ainda molhada. Enfia-o e depois o tira e mete na boca para sentir o gosto de sua execrável excitação. Ofegante, rendida, fim de luta, nocaute, seu dedo oxalá um pênis, começa a repetir em voz baixa para si...

- Eu quero um caralho grande e duro...! Eu quero um caralho grande e duro...! Eu quero um caralho grande e duro...!

Três minutos, cinco, e Natália se levanta. Nua, encara-se no espelho. Também lá, também nu, Rodrigo. Nela, dela, de muitos modos, com muitos medos dele ela, Rodrigo. Nocaute, maca, morgue, podridão. Extremo, entranha, estranha extrema-unção.

À esquerda de Natália, ao lado da pia, a cadeira de rodas que a enfermeira usa para dar banho em Fernando. Natália a observa. Atenta para as manoplas. De repente, uma idéia a assusta. Será capaz? Ela se lembra de Sâmia. Fará ela, Natália, algo ainda mais louco, mais nefasto, mais pungente? Algo ainda mais tristemente insano do que o que todos viram naquela tarde, naquela cena tão chocante? Natália olha de novo para o espelho e lá está Rodrigo, agora de pau duro na mansão, na festa do Dudú. Sim, ela o fará. Homicida sem como, o fará. Seis anos se passaram desde aquele momento, pobre pequeno Calú, e Natália, a um passo de superar Sâmia em desespero e descontrole, concebe hoje um pouco mais o que foi aquela dor.

Gugu Keller

4 comentários:

  1. Como sempre a descrição é minuciosa, maravilhosa, forte e chocante. Confesso que li torcendo para que o casal redescobrisse o amor, redimensionasse e recriasse o prazer, mas creio que era o meu lado romântico, irracional e passional que falava. Estou ansiosa com o final deste livro. Beijos.

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  2. Obrigadíssimo mais uma vez, Ju! Com este capítulo, o 35°, passamos dos 2/3! Mais 17 e chegamos lá! Bj!
    GK

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  3. Puxa, é uma pena q os dois aparentemente não tenham jeito. A situação é complicada... =/

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  4. Pois é... Difícil para a tua xará, não?
    GK

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