sexta-feira, 10 de maio de 2013

A Esquina - Capítulo 36

Domingo, 27 de julho.

Pensava-se em se esperar um pouco mais, mas mudou-se de idéia. Se, num primeiro momento, parecia mais prudente dar a Natália a notícia sobre o falecimento da ocupante do outro carro apenas algum tempo após ela haver digerido a gravíssima situação do marido, para que, a seu momento, com mais calma, também isso ela digerir pudesse, concluiu-se, após muito se o discutir, que melhor seria enfim já logo o relatar, de modo que, praticamente de uma tirada só, ainda que a carga ficasse decerto mais pesada, tudo fosse por ela enfrentado, sem que nada ficasse para depois. A revelação representaria certamente mais um baque para a sua por óbvio já fragilizada estrutura psicológica, com qualquer um tal se daria, mas, dito e feito, melhor mesmo que soubesse de uma vez. Assim, naquele domingo, uma semana após o acidente e quatro dias após ela ter tido ciência da horrenda seqüela que, em virtude dele, Fernando carregaria pelo resto de seus dias, eis, novamente, a convite dos pais de Natália, seu tio e sua tia mais próximos e sua melhor amiga, Carolina, presentes para o almoço, após o qual, escolhido o momento mais propício, o pai de Natália adentrou o assunto...

- Natália, a que horas você quer ir ao hospital ver o Fernando? 

Sob o efeito de tranqüilizantes a ela ministrados desde que soube da tetraplegia do marido, ela responde lenta...

- Ah, papai... A hora que você quiser ir, para mim está bom...!

- Você vem conosco, Carol, visitar o Fernando? - pergunta a mãe de Natália.

- Claro! Vou, sim!

- Obrigada mais uma vez por tudo, viu, amiga? - a Carolina diz Natália.

- Ah, sua boba! Amiga é a para essas coisas!

Faz-se uma pausa. Os pais e tios de Natália trocam olhares. Enfim o pai dela vai ao ponto...

- Minha filha, sua mãe e eu, e também os seus tios aqui, e certamente também a Carolina... Todos nós estamos com você neste momento tão difícil... Nem sei se nós temos condições de avaliar o que você deve estar passando, mas, enfim, nós imaginamos o quanto deve estar sendo extremamente difícil para você ter que enfrentar essa situação do Fernando... Sabemos o quanto é terrível, tenebroso, tudo isso que aconteceu...

- Eu pequei, meu pai! Pequei feio quando saí bêbada daquela festa sabendo que ia ter que dirigir...! E agora vou ter que carregar essa cruz pelo resto da minha vida... É isso! Acho que isso resume tudo...!

Faz-se outra pausa. Um indescritível mal estar toma conta do ambiente diante do peso das palavras. De todo modo, conforme lhe é possível, o pai de Natália segue na difícil introdução do quanto ainda precisa ser dito...

- Pois é, Natália... Mas há mais uma coisa sobre o acidente... Uma coisa que você ainda não sabe... E precisa saber!

Natália se assusta.

- Sobre o acidente?!? O quê, papai?

A mãe dela fala...

Nós íamos esperar um pouco mais para te contar, minha filha... Esperar que você assimilasse um pouco mais o que aconteceu com o Fernando, para depois falarmos sobre isso...

- Sim! - completa o pai - Mas depois pensamos e chegamos à conclusão de que é melhor que você já saiba de tudo e enfrente tudo de uma vez por todas...!

- Pelo amor de deus, gente! Falem logo! Isto é uma tortura!

- É que o outro carro, minha filha... - segue ele - O outro carro que se envolveu no acidente... O carro em que você bateu naquele cruzamento...

Cada vez mais assustada, Natália demonstra uma enorme ânsia...

- O quê que tem, papai??? O quê que tem o outro carro???

- Era uma moça que dirigia o outro carro, Natália! - participa o tio.

- Uma moça??? E como ela está???

Pausa. Novos olhares são trocados. Já intuindo a resposta sem o aceitar, Natália repete aflitíssima a pergunta...

- Como ela está, gente???

Carolina segura com carinho uma das mãos da amiga antes que esta ouça do pai a breve e terrível frase...

- Ela faleceu, minha filha!

Sentindo seu peito implodir, Natália leva à boca a mão outra da que Carolina segura, enquanto exclama já a verter lágrimas...
- Faleceu??? Meu deus!!! Eu matei uma pessoa?!? Eu matei uma pessoa?!?

Ao cabo de segundos, todo o sexteto eis em prantos.

- Calma, Natália! Foi um acidente!

- Sim! E ainda não se sabe de quem foi a culpa...

- Foi minha culpa! - diz ela a chorar - Foi minha culpa! Eu deixei o meu marido aleijado, e ainda matei uma pessoa!!! Foi minha culpa!

- Ela também estava correndo, Natália! Talvez a culpa tenha sido dela...

- Mas eu estava bêbada, porra!

- Mas ainda não se sabe qual das duas avançou o sinal...!

- É?

- É! Ambos os carros vinham em alta velocidade! Quando o sinal mudou, o carro para quem ele fechou, não parou, e o outro, para quem ele tinha acabado de abrir, foi com tudo...!

Natália treme.

- Então a culpa é daquele que avançou o sinal vermelho, que pegou o "rabo do sinal"...! Será que fui eu, meu deus??? Eu não me lembro! Eu não me lembro de nada!

- Não se sabe, Natália! Aquele cruzamento não tem uma câmera e a única testemunha é um senhor de idade que vende balas ali, mas ele disse para a polícia que tinha bebido pinga e que não sabe ao certo para quem o sinal abriu e para quem o sinal fechou...!

- Talvez nunca se saiba para quem o sinal estava fechado no instante exato do acidente, Natália...

- Gente! Será que eu posso ser presa por ter matado uma pessoa?!? 

- É claro que não, querida! Pode ficar tranqüila quanto a isso! Como advogada, você mesma sabe muito bem como essas coisas funcionam...!

Natália chora copiosamente.

- Meu deus! Eu matei uma pessoa! Eu matei uma pessoa! Eu sou uma assassina! Eu estava dirigindo bêbada e matei uma pessoa...!

- Shhhh! Não diga bobagens, amiga! - diz Carolina acolhendo-a nos braços - Foi um acidente! E talvez, mesmo você tendo bebido, a culpa nem tenha sido sua...!

- Quantos anos tinha essa moça? Era muito moça?

- 32 anos, minha filha!

- Meu deus! Meu deus! Era casada? Tinha filhos?

- Não, querida! Era solteira e não tinha filhos!

A mãe e a tia de Natália preparam-lhe um chá no intuito de minimamente a acalmar. Ao menos agora ela já sabia de tudo. Mais tarde, todos os seis foram juntos ao hospital visitar Fernando, que, ainda grogue por sedativos na cama, sequer tinha noção do acontecido e muito menos da gravidade de seu estado. Ainda não se sabia tetraplégico. Quanto ao nome da vítima fatal, Natália, por um compreensível instinto defensivo, prefriu não perguntar, e tampouco seus pais ou tios o mencionaram. Oxalá, passou-lhe pela mente num rápido reflexo do mesmo instinto, jamais viesse a saber. Mas não. Ela sabia que haveria um inquérito em que teria que depor, e certamente seria impossível fugir desta tão nefasta informação. Mesmo por ora sem nome, Natália agora tinha uma vítima fatal na sua vida. E, deu-lhe ele um sobrenome, ainda um mutilado para sempre aos seus cuidados. Muito mais para mergulhar num escuro oceano de tristeza e culpa do que para dormir, Natália deitou-se em sua cama naquela noite, não pregando o olho até o raiar do dia. Pensou na falecida, no mutilado, na família da falecida, no ser ela própria, Natália, a família do mutilado, no velório da falecida, nele no hospital sem ainda ter ciência do gigantesco sofrimento que o espera, no enterro da falecida, na sua culpa, na sua agora condição de assassina, e de mutiladora, e na bebida, uísque, vódca, caipirinha, e no carro, ela dirigindo, futebol maldito, na esquina, festa do Dudu, e pensou no pênis de Rodrigo, e que ele poderia ter gozado na sua boca, e, chorando, pensou no que fez, numa única noite, com toda a porra da sua vida. Pensou enfim, já o sol a entrar pelas frestas da janela, na dra. Ana Clara, a quem ainda não avisou sobre o acidente, e de quem, muito mais do que poderia imaginar nas três sessões iniciais que até aqui com ela fez, doravante desesperadamente precisará.

A mãe e a tia de Natália prepararam-lhe um chá no intuito de minimamente a acalmar, e comentaram entre si que agora ao menos ela já sabia de tudo. Mas se enganaram. Às dez horas da manhã da segunda-feira, dia 28, o celular dela tocou...

- Alô!

- Alô! Bom dia!

- Bom dia!

- É a senhora Natália Cristina Lemos Brito?

- Sim! Sou eu!

- A senhora não me conhece! Meu nome é dr. Clóvis Hernandez! Infelizmente eu tenho uma notícia muito triste para a senhora...

Gugu Keller

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