domingo, 19 de maio de 2013

A Esquina - Capítulo 37

Natália hesita. Como em tudo há tanto tempo, assim tem sido, em sua vida, um ano, outro ano, outro ano, hesita. Hesita, hesita, hesita, hesita, hesita. Mas mesmo tanto hesitando, tamanha é a ânsia desta feita que ela apenas por alguns segundos o evita. Sim, a idéia assusta, mas, sim, mesmo que depois a angústia a leve ao suicídio, o de fato a o daquela noite, simbólico, completar, sim, por deus, ela o fará. "Oi, Sâmia! Quanto tempo! É, aqui estou! Sim, agora eu te entendo! A gente perde mesmo o controle, não é? Sim, entendo-te perfeitamente! Muito, muito triste! Sim, é verdade! Arrependo-me imensamente por tê-la julgado tão desequilibrada! Sim, pois é! Olha agora como eu estou!"

Eis Rodrigo no espelho de pau duro, na festa, na mansão, a lhe sorrir. Eis Natália no banheiro, suada, excitada, arrepiada, a sozinha quase ainda e já chorar. Num último segundo antes do que pretende, não sua mente mas seu corpo, independente hoje a ponto de ter, e lhe impor, idéias como esta, ela ainda pensa nas inúmeras vezes em que pensou em comprar num sex shop algo mais apropriado, o que, sempre, como parte do castigo tão severamente auto-imposto por seus crimes, dois num, jamais se permitiu. Por outro lado, ainda neste último instante, mesmo a idéia lhe parecendo tão insana, a ponto de tanto a remeter a Sâmia, Natália ainda encontra, decerto vinda do mais recôndito de seu inconsciente, seja ele mental ou corpóreo, uma pequena afinal hipótese de atenuante, na medida em que, de certo modo, de muitos modos, dos mais tristes e pesarosos modos, é, não se negue, Fernando, seu único e legítimo esposo, mesmo sendo Rodrigo atrás do pau duro no espelho, quem, ao cabo de mais alguns segundos daquele descobrir o que é ser dois sendo só um, dentro dela afinal estará. 

Trêmula, trôpega, trapo, Natália, nua e descalça, ergue a perna direita até ter o pé apoiado sobre a pia. O pé no chão, bem como todo o seu corpo, ela então inclina para o seu lado esquerdo, onde, a poucos centímetros, eis a cadeira de rodas. Com o braço esquerdo, ela a toca na manopla direita e a puxa, manobrando-a devagar até que venha até a posição que permita o pretendido. Um segundo, três, cinco, e, feito, eis a cadeira vazia com as costas voltadas para Natália, de modo que a manopla, a mesma, a direita, a poucos centímetros eis da sua vagina. Tremores, Eros, Tânatos, tesão.

Natália dá uma última olhada para o espelho, onde Rodrigo desfaz o sorriso e, com uma expressão de desejo enquanto brande o pênis na sua direção, diz-lhe assertivo... "Vem!" Ela então fecha os olhos e vê Fernando, que deixou, como sempre, imóvel sobre a cama, a ainda pedir-lhe que ponha a vagina sobre a sua boca, dizendo igualmente... "Vem!" E, rasgada, sem saber se é o pênis que tanto deseja ou a língua que tanto agora deseja desejar, ela começa a introduzir a manopla em si. Vai Fernando, cadeira de rodas, seu marido, boceta adentro. Vai Rodrigo, seu louco e proibido amor, a roda da vida, boceta adentro. E ei-la, Natália, tão louca, ou mais, do que Sâmia naquela tarde tão triste, a se masturbar com a cadeira de rodas de seu marido tetraplégico. Manopla na vagina. Manopla na xana. Manopla na boceta. Eis o metal coberto pela borracha negra e dura cruzando os pêlos e lábios e invadindo bem-vindo a encharcada mucosa rosa.

Movimentando o seu quadril apoiada sobretudo na perna que tem no chão, a esquerda, Natália vai aos poucos acelerando o movimento. Brusca, tomada, possuída, fora de si, logo toda a borracha da manopla eis dentro dela, por volta de quinze centímetros. E ela vai, e vem, e vai, e vem, e pensa em Rodrigo, e em Fernando, e em Rodrigo, e em Fernando, e, culpada, em Rodrigo, e, ainda mais culpada, em Fernando, e pênis, e língua, e festa, e cama, espelho, esperma, esquina, bebida, boceta, "Vem, Rodrigo! Me fode!", "Vem, Fernando! Me chupa!", "Eu te amo!", "Eu te odeio!", "Eu te amo!", "Eu me odeio!", enfia, mete, fode, rasga, "Vai, arregaça!", e Natália agarra firme a cadeira de rodas como se ela fosse o último homem do mundo, agarra-a pela outra manopla e pelo ferro abaixo da que lhe entra, e a balança, agita, puxa, empurra, e vai, e vem, e vai, e vem, e abre os olhos, Rodrigo, e fecha os olhos, Fernando, e aperta a certa altura os arrepiadíssimos próprios peitos, e novamente Sâmia eis. Sim. Peitos e Sâmia eis. Sâmia, morte, morgue, peitos, fundo, medo, mundo, mastro, pau. Um minuto, dois, três, Natália vai gozar. Quase, quase, quase, mas não, não consegue decidir. Gozar pensando em Fernando? Ou em Rodrigo? Dilema, dois, dor. Drama, dicotomia, duplo. De repente, como se abrisse a porta e a flagrasse naquela situação inexplicável, decerto fruto daquela sua dúvida a culpa entra em cena e atinge Natália com um forte golpe no peito. Acusando-o de pronto, ei-la um passo atrás e a manopla vagina afora. Culpa, culpa, culpa, culpa, culpa. Não, ela não pode gozar com a cadeira de rodas seu marido, aleijado por culpa dela, e ainda a pensar, ainda que com nele alternadamente, em quem foi o motivo. Não. Um segundo, dois, cinco, e ei-la, sem ter gozado, ou, de certo modo, agora gozando quente pelos olhos, novamente sentada nua na privada. Outro segundo. Dois. Três. Natália ofega. E se odeia. Mas seus peitos arrepiados com lágrimas nas mãos ainda esfrega.

Natália se levanta novamente. Como quem encara deus, que fixamente lhe olha enquanto segura uma ficha de antecendentes, ela se observa com pena. E com ódio. E vergonha. E medo. E dor. E coragem. E determinação. E enfrentamento. E evasão. E ela hesita. E hesita. E hesita. Ainda gozar evita. Solidão. Mas não. Ela fecha os olhos por um momento e, quando volta a os abrir e olhar para o espelho, de novo lá eis Rodrigo, ainda de pau duro, tampouco ele gozou, e novamente ele lhe diz... "Vem!" Culpa. De novo ela fecha os olhos e procura Fernando. Não. Ei-lo deitado, entrevado, plantado. Quase definitivamente enterrado. Culpa, culpa, culpa. Ela volta a abrir os olhos e ao espelho. Susto. É Sâmia quem agora lá está, trajando uma blusa roxa, que logo abre e, a sorrir-lhe mostrando os peitos, diz... "Dá o cu pra ele, Natália!"

Natália jamais fez sexo anal em sua vida. Contudo, sem jamais o ter dito para ninguém, nem mesmo para a dra. Ana Clara, sempre o desejou. Certa vez, quando Fernando e ela ainda eram namorados, ele o tentou e ela recusou. Mas foi uma espécie de manha, de truque, de charme. Natália apenas quis fazer ao parceiro parecer que não seria tão fácil, mas sempre esperou que ele tentasse de novo, para que, aos poucos, devagar, a coisa acontecesse. Mas não. Tímido talvez, nunca mais Fernando tentou e, tímida decerto, tampouco ela o pediu, ou sequer insinuou, e, agora, no meio de toda esta tempestade catártica, abrupto cataclisma de emoções e sentimentos, era Sâmia, logo ela, quem, do quase sobrenatural labirinto daquele espelho, dizia-lhe peremptória... "Dá o cu pra ele, Natália!"

Mas quem seria ele? Fernando ou Rodrigo? Não, já não importava, concluíu Natália, até porque, de certo modos, de muitos modos, de todos os modos, ambos já eram um mesmo, já eram o mesmo, já  a esmo ela eram. Ambos pênis, ambos um pênis. Ambos culpa, manopla, dor e prazer. Ela então desta vez leva a outra perna, a esquerda, pia acima. Por um instante, indaga de si mesma se é melhor usar a mesma manopla ou a outra, também a esquerda. Fica com a primeira opção na medida em que calcula que a lubrificação vaginal que decerto nela ficou haverá de facilitar o quanto agora quer. E eis Natália, mistura homogênea de prazer e culpa, de dor e gozo, de morte e vida, a introduzir a manopla direita da cadeira de rodas de Fernando em seu ânus virgem. Vai, vai, vai, foi.

A do mesmo modo mover os quadris, eis então Natália em novo vai-e-vem, agora com a manopla não boceta, mas cu adentro. Dói mas ela gosta e faz vir mais, mais, e mais, e ela geme, e se contorce, e sua, e baba, e, segurando a base da manopla com a mão esquerda, ela agora leva a direita à vagina, e, com o dedo médio, acaricia o clitóris hirto a ponto de explodir. De soslaio, dá uma nova olhada para o espelho, onde ainda eis Sâmia, agora com Calú nos braços a lhe dar o peito. E o garoto mama enquanto Natália afinal decide... Rodrigo eis a lhe tirar o cabaço do cu enquanto Fernando, ajoelhado no chão e a abri-la com os dedos que livremente move, chupa-lhe a boceta. Um segundo, seis, sete, onze, vinte, e, soltando um grito que mistura homogêneos desespero e alívio, Natália goza o maior gozo de sua vida. Goza, goza, goza, goza, goza. Sim. Como se estivesse a desencarnar naquela esquina, naquela noite, naquele dois, ela, leve, livre, em gozo, deixa afinal o seu corpo trapo, trôpego, trêmulo, que, então, observa afinal ela mesma de dentro do espelho.

Após lavar bem com água e sabão a manopla da cadeira de rodas, a enfermeira no dia seguinte a empurrará, Natália volta para o quarto onde, à meia-luz do abajur, Fernando jaz deitado planta em seu lado vaso da cama estufa. Sem saber por quê, quase, após tudo, não está ali, ela olha para a porta do armário onde guardado na gaveta o revólver eis. É quando Sâmia, agora sem espelho, novamente aparece em sua mente, sorrindo e ainda a amamentar o pequeno Calú. E a Natália uma nova idéia assusta. Não menos insana, definitivamente, esta, sim, a idéia.

Gugu Keller

2 comentários:

  1. Imagino que Natália se masturbou dessa maneira tão incomum para não só alcançar o orgasmo mas também para de alguma maneira, punir-se. A palavra é auto-flagelação. Inebriar-se pela dor a fim de esquecer, pelo menos por alguns instantes, o duro julgamento que incessantemente estava a fazer de si mesma. Capítulo sensacional! Parabéns, Gugu!

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  2. Sim, inequivocamente! Aliás, a luta dela contra uma gigantesca culpa que a tortura é tamanha que, vez por outra, busco-o no texto, ela toma atitudes tresloucadas em que ao máximo a tenta negar, mas que, depois, dentro do processo cíclico que claramente permeia a sua personalidade no lidar com esse sintoma, redundam em ainda mais e mais culpa. Obrigadíssimo, Alexandre!
    GK

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