sexta-feira, 24 de maio de 2013

A Esquina - Capítulo 38

Terceira sessão de Natália com a dra. Ana Clara. Sexta-feira, 18 de julho de 2003.

- ...

- Então ele deve estar nessa festa de depois de amanhã, nessa mansão do Dudú?

- A Carol ouviu a Camila dizer que vai!

- A Camila era a dona da festa em que você o conheceu, não é isso?

- Exatamente! O Rodrigo é primo dela!

- E como você está se sentindo com essa perspectiva de encontrá-lo depois de amanhã?

- Ai, dra.... Nem sei te dizer... Estou muito aflita... Muito ansiosa... O coração batendo a mil...!

- O Fernando vai com você nessa festa, eu imagino...

- Sim, vai!

- É... Isso complica um pouco, né?

- Demais!

- Mas esse lugar, essa tal "mansão do Dudú", é uma mansão mesmo?

- Sim! É uma casa gigantesca!

- Bom... Isso pode facilitar que você converse com o Rodrigo, pelo menos um pouco, sem que o Fernando veja...

- Sabe que aconteceu uma coisa que de repente pode ajudar?

- O que?

- O Fernando torceu o pé jogando futebol com os amigos... Rompeu os ligamentos e tudo...!

- É mesmo?

- É! Tá andando de muleta!

- Entendi! Isso significa que provavelmente ele vai passar a maior parte da festa sentado, o que pode facilitar que você converse com o Rodrigo sem que ele saiba...?

- Sim! Foi exatamente o que eu pensei!

- Então... Viva o futebol!

- Tá! Tudo bem! Mas aí eu fico remoendo, sabe? Se eu conseguir convesar com ele a sós, o que exatamente eu vou dizer? Eu não posso chegar e ir me abrindo...! Por outro lado, não sei quando eu terei outra oportunidade... Aí eu já fico neste dilema, entende?

- Você não precisa ir se abrindo, Natália! Insinue-se aos poucos e use a sua sensibilidade de mulher para captar como ele reage...!

- É, né?

- Claro! Não dá para montar um roteiro na sua cabeça sem saber como que o outro vai reagir a cada passo...!

- E eu também fico pensando muito nessa coisa de ele e o Fernando serem inimigos... Talvez ele possa me evitar por conta disso...

- Ou talvez, ao contrário, possa, justamente por conta disso, querer se aproximar de você...

- É... Pode ser...

- Por que eles são tão inimigos, Natália?

- Bom... Eu nunca ouvi a versão do Rodrigo, é claro... Mas o que o Fernando me contou foi o seguinte...

- Hum?

- Eles eram grandes amigos! O melhor amigo um do outro! Aí, houve uma tal intercambista que ficou um tempo na casa do Fernando...

- Intercambista?

- Sim! Uma australiana!

- Sei...

- E o Fernando se apaixonou perdidamente por essa intercambista...

- É mesmo?

- Ele me confessou que foi a pessoa que ele mais amou antes de me conhecer...!

- Nossa!

- Mas, aí, o que aconteceu? Além de não ter correspondido ao sentimento dele, ele descobriu que ela estava ficando com o Rodrigo, que sabia que ele era louco por ela... O Rodrigo era o confidente dele...!

- E ele ficou com raiva do Rodrigo...?

- Ah! Para o Fernando isso foi uma traição imperdoável! A ponto de ele mudar a faculdade para a noite só para não ter que encontrar mais o Rodrigo...!

- Eles estudavam juntos então?

- Fizeram o colégio juntos e entraram juntos na mesma faculdade!

- Entendi! E em que momento o Fernando te contou essa história?

- Foi uma grande e terrível coincidência...

- Hum?

- Então... Como eu te expliquei, eu conheci o Rodrigo naquela festa da Camila em que eu fui sozinha porque o Fernando estava no Rio...

- Sim! Quando ele te deu o cartão...

- Isso! Aí, eu liguei alguns dias depois...

- E não teve coragem de dizer nada... Mas ele sabia que era você...

- Exatamente! Nossa! Você sempre consegue guardar assim tudo que os teus pacientes te falam?

- Digamos que quase tudo...! Mas e aí?

- Bom... Depois disso, ele tentou me ligar... Umas três ou quatro vezes...

- O Rodrigo tentou te ligar? E você atendeu?

- Não! Eu só sabia que era ele por causa da bina do celular...!

- Certo! Ele pegou o teu número na bina dele, e você via que era ele na tua bina...!

- É! Aí, passaram-se alguns dias e eu estava com o Fernando num museu... Um típico passeio de domingo, sabe? E quem aparece bem diante de nós?

- O próprio!

- Sim! E foi então que, obviamente sem saber que eu o conhecia, o Fernando me contou essa história toda... Eu jamais imaginaria que eles se conheciam... E muito menos que tinham sido grandes amigos...

- Entendi! E depois disso? O Rodrigo tentou te ligar? Ou você para ele?

- Não! Nunca mais! Eu nunca mais tive coragem...!

- Ou seja, se você conseguir conversar com ele depois de amanhã, será a primeira vez desde quando o conheceu?

- Sim! A rigor, é isso mesmo!

- Quer dizer, esse seu sentimento, apesar de tão intenso, é por alguém que, na verdade, você mal conhece?

-  É, dra.! Eu sei que louco mas é isso mesmo! Tanto que estou aqui com você, né?

- Bem, minha querida... Eu acho que o mais importante então seria você aproveitar esse encontro de depois de amanhã para, acima de tudo, procurar avaliar esse sentimento, entende? Tente observar a si mesma, observar como você reage na presença do Rodrigo, para, a partir daí, a gente trabalhar no que virá depois... O que você acha?

- É... Acho que é por aí mesmo, dra....!

- Como você mesma disse na nossa primeira sessão, o seu casamento já vem se desgastando há algum tempo, desde antes de você conhecer o Rodrigo e se apaixonar assim... Vamos então tentar apurar se essa paixão é algo que pode desaguar num amor de verdade, ou se é um sentimento projetivo, fugidio, talvez até de certo modo simbólico, fruto desse desgaste do seu casamento...!

- Certo!

- Aguardemos então, Natália, o seu reencontro com o Rodrigo, depois de amanhã, na festa na mansão do Dudú...!

Gugu Keller

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