sexta-feira, 31 de maio de 2013

A Esquina - Capítulo 39

Secretamente inspirado na morte do pequeno Calú, o plano, apesar de bastante simples, pareceu a Natália, que antes de o executar muito a respeito pensou, absolutamente perfeito.

Apenas por uma questão de, talvez exagerada, prevenção, ela esperou passarem-se as semanas até que fosse agosto, o mês do aniversário dele, assim, não que isso fosse necessariamente preciso, teria um argumento a mais com que se defender caso inquirida fosse quanto ao porquê da comilança programada. Desde o acidente, ilustre-se, Fernando tomou horror por qualquer tipo de festa, e uma ceia a dois vinha sendo então o que marcava a sua mudança de idade.

Naquela sexta-feira, ainda durante o dia, a enfermeira Rosa atendeu vários telefonemas através dos quais, via "viva-voz", Fernando recebeu calorosas congratulações de parentes e amigos pela data. Também à noite, enquanto Natália concluia a preparação do jantar, as ligações continuavam a chegar. Mas o plano, com ela a muito caprichar na cozinha, já ia em franco andamento. Era o 36° e último aniversário de Fernando.

- O jantar está pronto, querido! Vamos lá?

Natália o ajeitou sentado numa poltrona na sala e começou a trazer a comida. O prato principal era uma macarronada bastante pesada, mas havia outros itens complementares não menos calóricos e de difícil digestão. Ademais, tanto quanto possível, apesar das recomendações médicas contrárias ao álcool, já que ele tomava vários remédios, o antidepressivo inclusive, ela o fez beber vinho. Com mais disposição do que nunca, Natália levou pacientemente o garfo à boca do marido inúmeras vezes, até que ele estivesse literalmente empanturrado de comida. Depois, a cantar alegremente "Parabéns a Você", ela apareceu com um cremoso e suculento bolo de chocolate, do qual serviu-lhe um exagerado pedaço, a ponto de ele quase recusar degustá-lo, sempre através das solícitas mãos dela, até o fim. Se eram dez horas quando o jantar começou, às onze e quinze Fernando estava absolutamente entupido de comida, vinho e refrigerante. E ela ainda o fez tomar uma generosa e bem açucarada xícara de café.

Após toda a operação que, exceto para Rosa, tão acostumada, é sempre árdua para uma pessoa só, de devolver Fernando à cama via cadeira de rodas, ei-lo, afinal, quase à meia-noite, deitado com a cabeça apoiada em seu travesseiro. Já fazia um bom tempo que o telefone não tocava. Àquela altura da noite, quem houvesse de ligar para dar os parabéns já o teria feito. Sim, comida pesada a lotar o estômago, era a hora.

Natália entra no banheiro e se olha no espelho. Vem-lhe à mente aquela noite em que se masturbou com a cadeira de rodas e, culpada como nunca, e como sempre, ela sente algo estranho ao rememorar que foi justamente então que teve a sinistra idéia que vai levar a cabo agora ao cabo de segundos. Ela pensa em Rodrigo e o ponteiro pênis do seu grau de culpa entra no vermelho do conta-giros. Na dra. Ana Clara e racha-se o visor semáforo do mostrador. Finalmente, ela pensa em Sâmia, que, numa fração de segundo, eis de novo no mesmo espelho a lhe mostrar os peitos, e, afinal, estranha e indescritivelmente, Natália sente pela prima de Fernando um ao mesmo tempo culpado e desesperado quê de cumplicidade. Sâmia, Ana Clara, Natália. Peitos nos peitos nos peitos.

Afinal, após apanhar a colher de pau e o saco plástico com um barbante previamente ali deixados e os meter no bolso de trás da calça que usa, ela, como tem sido quase raro ultimamente, vê a si mesma só no espelho. Sim. Como nunca, como sempre, ei-la só naquele banheiro. Ei-la só na vida, ei-la só no mundo. Vida, culpa, vácuo. Só. Só. Só. Ei-la só a sobreviver naquela esquina. E, a defender-se daquela culpa esquina que há muito já lhe saltou painel na cara e lhe fundiu o motor, porrada, morte, morgue, aleijão, cu, manopla, boceta, gozo, Natália diz, olhos nos olhos com o espelho, uma frase que, tanto quanto ela ainda consiga mentir para si mesma, haverá de, de algum modo, de algum improvável modo, isentá-la alheia um dia daquilo tudo...

- É o que ele quer!

Natália eis decidida de volta ao quarto. Olha para Fernando ali deitado e sorri para ele, que lhe diz...

- Nossa, Natália! Acho que eu comi demais...!

Ela não diz nada. Vai nele e ajoelha-se sobre a cama como se montasse sobre a sua barriga. Fernando não entende, mas imagina que ela, até em função da data, queira novamente beijá-lo e pôr a vagina em sua boca para que ele a chupe. Dado o exagero da tão recente comilança, a idéia parece-lhe algo desconfortável para o momento, mas também ele sorri para ela na medida em que, com a mão esquerda, ela carinhosamente lhe toca no rosto, também ainda sorrindo ela. Após alguns segundos, diz-lhe romântico ele então...

- Obrigado pelo jantar, querida! Estava delicioso!

Pausa. Ela olha bem para ele.

- Você gostou?

Ele continua sorrindo.

- Adorei! Tanto que até comi um pouco demais...! Obrigado, Natália! Obrigado por tudo, meu amor!

O casal troca mais um sorriso e ela, então, ainda com a mão esquerda sobre o rosto dele, aperta-lhe as bochechas de modo que o faz abrir a boca. Ele estranha mas não tem tempo de dizer nada. Com a mão direita, ela saca a colher de pau do bolso traseiro e a enfia rápida e bruscamente pela sua goela, tão fundo quanto consegue.

- Aaaahhh...!

Obviamente assustado, Fernando tenta se desvencilhar mas não tem como. Ela o agarra com a mão esquerda agora pelos cabelos, impedindo que ele agite a cabeça, e, tão forte quanto pode, continua a com a direita forçar a colher contra a garganta do marido. Sequer cinco segundos se passam e, conforme ela planejara, o vômito comparece à cena. Dada a fartura da recém-finda refeição, os jatos são fortes e pesados. O plano vai de vento em popa. Resta apenas a conclusão...

Natália afinal tira a colher de pau da boca de Fernando, que já vomitou bastante, e, ato contínuo, saca agora o saco plástico de seu bolso. Ele olha para ela com os olhos esbugalhados, tossindo, engasgando e ainda vomitando. Ele então mete-lhe o saco plástico na cabeça e, com o barbante, amarra-o no pescoço. Agora é só esperar enquanto ele se sufoca. Um minuto, dois, três, quatro, cinco. Pacientemente, Natália se mantem sentada sobre a barriga de Fernando até estar-lhe claro que ele em definitivo já não respira. Feito.

Lenta e cuidadosamente, meia-noite e quinze agora quase, Natália tira o saco plástico da cabeça do marido e ei-lo diante dela morto com os olhos entreabertos. Ela vai ao banheiro, onde lava o saco plástico e, a seguir, com uma tesoura, o picota em dezenas de pedaços, que joga na privada e dá a descarga. Na seqüência, lava bem a colher de pau e a devolve à sua respectiva gaveta na cozinha. Depois lava também a tesoura e a pia, de modo que nenhum resquício do vômito restará fora da cama. O plano, adiante-se, daria certo. Tragicamente, Fernando terá morrido afogado com o próprio vômito após ter comido e bebido demais na noite do seu aniversário. Pela cabeça de ninguém jamais passará a hipótese de ter sido um homicídio.

Natália apaga as luzes e se deita ao lado do cadáver ainda quente. Agora é esperar amanhecer e telefonar para os pais dele e para os seus relatando a terrível cena com que dará ao acordar. Mas, no escuro, eis clara, como sempre, como nunca, a sua infindável, e doravante decerto ainda mais dilacerante, culpa, e ela pensa na frase dita por Fernando quando este lhe contou sobre a traição de Rodrigo com a intercambista...

"Nunca mais saiu da minha boca o gosto amargo da palavra 'traição'."

Ironicamente, o mesmo Rodrigo com quem ela o traiu. E por quem o entrevou. E agora, há minutos, o matou. E ei-lo, Fernando, morto com, de vômito, traído, para sempre a boca amarga. Culpa.

Mas, como pode, Natália ainda tenta se defender, e, quase com sua voz, diz para si mesma a mesma sua frase de há pouco diante do espelho, apenas agora noutro tempo verbal...

- Era o que ele queria!

Eis Natália no escuro. Deitada ao lado da planta. Ao lado da coisa que ela mesma plantou. Ao lado do corpo. Ao lado. Morgue. E de novo ela pensa na dra. Ana Clara. E no seu próprio vômito naquela tarde tão triste. Morta. Morto. Motor. Morte.

Gugu Keller

6 comentários:

  1. com calma irei le, adorooo le livros =)

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  2. Obrigado, amiga! O primeiro capítulo está postado em 07-09-12!
    GK

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  3. Oi, Jú!
    Interessantíssimo vc fazer essa indagação! Como autor do texto, a princípio eu tenderia a não dizer nada a respeito, na medida em que, acima de tudo, esse tipo de juízo é algo que cabe a cada leitor. Contudo, já que, ao contrário de muitos outros, este é um trabalho no qual desde o início propus-me a o compartilhar passo a passo com quem se interessasse, permito-me dizer-lhe que não, a princípio não concordo com a idéia de que ela seja uma psicopata, uma vez que vive torturada por uma dilacerante culpa, o que, ao menos segundo o senso comum, não combina com os psicopatas. A grande questão, tendo a crer, reside em avaliar até que ponto atitudes aparentemente insanas impulsionadas pela fusão entre sentimentos pungentes e uma realidade extremamente cruel podem ser consideradas como resultado de uma patologia psíquica ou apenas como uma resposta comportamental compreensível e, acima de tudo, humana. De todo modo, além de respeitar demais essa tua tão enriquecedora colocação, sobre a qual decerto vou muito refletir na continuidade, fico sempre muito feliz com a tua participação! Obrigadíssimo mais uma vez!
    GK

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  4. Levei dois dias para comentar porque fiquei pensando sobre a atitude da personagem, por fim achei melhor perguntar. Sinceramente achei, dessa vez, a atitude dela planejada demais para ser apenas um ato insano de desespero. Uma morte desejada, arquitetada, bem planejada, fria e egoísta. Atos impensados e ápices de desesperos tendem a ser mais bruscos, impensados, não arquitetados para salvar a própria pele. Mas enfim, continuo acompanhando, agora já não tão simpatizante com a moça, mas tenta rei não julgar sem ver o fim. Parabéns pela escrita maravilhosa. Beijão.

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  5. De fato, Ju, considerando esse aspecto dela ter planejado tudo direitinho após ter tido a idéia de matá-lo da forma como fez, você não está sem razão. Além disso, sem sombra de dúvida, por mais que se sinta culpada de várias formas, ela queria, sim, livrar-se dele. Provavelmente muitos que lerem a vão condenar, outros, ter pena dela e outros, ainda, ambas as coisas, não acha? De todo modo, mais uma vez te agradeço imensamente! Vc não imagina como é gratificante para quem escreve poder trocar idéas assim como quem lê! Muitíssimo obrigado mesmo! Beijão!
    Ah... Agora faltam apenas 13 capítulos!!! Dá pra acreditar???
    GK

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