sexta-feira, 7 de junho de 2013

A Esquina - Capítulo 40

Terça-feira, 29 de julho. Quatro horas da tarde.

Como quem, de certo modo, o faz para para sempre nele ficar, Natália cruza o portão e adentra o cemitério. Numa espécie de auto-cortejo fúnebre, mais solitária do que jamais concebeu, caminha lenta pela larga alameda central. Rasgada, arrasada, resto, a cada passo muda de idéia sobre a viver haver ou não algum sentido em continuar. A certa altura, já há muitos segundos mas poucos passos alameda adentro, ela repara no quão o lugar é belamente arborizado. Sim. É o verde das plantas dando, pensa, vida à morte. Caminhando como quem já não quer ir, Natália não imagina o quanto a palavra "planta" será perto dela pronunciada nos próximos três anos, sempre com um irônico sentido que tudo terá a ver com a divagação vida-morte do momento. Caminha. A tarde é fria. O vento espatifa-se gelado no seu rosto. Duas mulheres vêm adiante em sentido contrário. Tanto quanto, e é pouco, pode, ela tenta se orientar a partir das informações passadas na ante-véspera pelo tal dr. Clóvis Hernandez, quadra 13, túmulo 27. Pequenas tabuletas, afinal ela observa, mostram o número de cada quadra. Como se, numa estranha espécie de escuro turvo, tateasse uma realidade disforme, Natália continua lentamente caminhando. Passo com a perna direita e nada mais vale a pena. Passo com a esquerda e é preciso ser forte. Com a direita e, não, não vale. Com a esquerda e, sim, "força!", "coragem!", até que, quando procura com os olhos já nublados de pesadas perspectivas lacrimais o número da próxima quadra, Natália pisa num buraco e, torcendo contundentemente o tornozelo direito, cai com um grito de dor e susto...

- Aaaaiii!!!

Sem saber devido a qual das dores, a da já tomada de inchaço torção ou a de todo o contexto, Natália, oculares nuvens negro-avermelhadas, chora. As duas mulheres se aproximam e a acodem. Quando uma delas, jovem, morena e bela, dirige-lhe a palavra, a voz lhe soa extremamente estranha...

- Se machucou?

Atinando que aquele dolorido contato com o chão cinza e duro de um cemitério pode ser um sinal de que melhor seria estar debaixo dele, Natália responde às lágrimas...

- Acho que torci o pé...

Com a mesma voz estranha, rachada, desafinada, a morena bonita diz para a outra...

- Mércia, me ajuda aqui a levantar ela!

A outra ajuda e ambas pelos braços amparam Natália, que assim se levanta.

- Obrigada! Muito obrigada!

A de que ela agora sabe o nome, Mércia, abaixa-se a seguir e apanha o buquê de flores que Natália trazia, e que ficou caído no chão.

- Ó! Toma aqui as suas flores! Nossa! Sabe que nós compramos um buquê igualzinho a este agora há pouco...?

Estranhamente, também esta, a tal Mércia, tem uma voz bastante incomum, meio que fora de tom. Finalmente, podendo-as então observar um pouco melhor, Natália entende o porquê. Não são, na verdade, duas mulheres, mas dois travestis, o primeiro, o que não é a Mércia, impressionantemente belo e feminino, mas decerto claramente um travesti.

Natália agradece pela gentileza e experimenta o pé torcido com um pouco mais de peso de seu corpo. A dor é grande mas ela acha que dá para andar.

- Tudo bem? - pergunta ainda o travesti bonito, que, tanto quanto Natália consegue observar, parece há pouco haver também chorado.

- Acho que sim... Podem deixar que eu me viro... Obrigada!

- Talvez fosse bom você ir a um hospital...

Os dois travestis se vão. Natália pensa em Fernando, ainda internado com seu definitivo quadro de tetraplegia, e conclui que, fora "cemitério", "hospital" é a última palavra do mundo que ela gostaria de ouvir. Mas logo lhe vem à mente a prima Sâmia e o velório de Calú, e, com eles, aquela palavra "morgue", aquela maldita nefasta palavra, "morgue", e, agora, como Fernando naquela noite, futebol maldito e nefasto, razão de tudo talvez decerto, Natália eis mancando cheia de dor, esquina, hospital, cemitério, túmulos, tombo, e, examinando drogada de pranto os recentes instantes, tabuletas, buraco, queda, torção, travestis, ela a chorar se sente ali perdida como Alice, a do "País das Maravilhas", mas numa versão que não há, underground, depressiva e noir.

Passo, dor, passo, medo, passo, lágrimas, passo, desespero. Eis enfim a tabuleta com o número 13. Natália manca e chora. E anda e ora. Lágrimas, lápides, labirinto. Lado ímpar. Passo, passo, passo. 1, 3, 5, 7, 9, 11, 13, 15, 17, 19, 21, 23, 25, 27. Sim. É. Eis. Como disse o dr. Clóvis, pelo recente do acontecido, ainda não deveria haver, e não há, entre as placas de bronze a com o nome da nova ocupante, mas, sim, é, eis, lá está no túmulo, sobre o qual há um buquê de flores parecidíssimo com o que Natália traz, aparentemente ali recém-depositado, o nome da família. Eis. É ali que ela jaz.

Como se por um instante não sentisse o tornozelo inchado, Natália, após depositar sobre o mármore também o seu buquê, deixa, tanto quanto mais e mais lágrimas pelo rosto, a si mesma cair sobre os seus joelhos diante do jazigo, os braços agora a sobre ele se apoiarem enquanto os peitos quase tocam a portinhola, e uma palavra então ecoa sem parar de sua boca, que perdigoteja trêmula, além das lágrimas, uma densa, fosca e ungüenta baba branca...

- Perdão!... Perdão!... Perdão!... Perdão!... Perdão!...

Os minutos se passam. Frio do vento, quente das lágrimas. Natália ergue o rosto e olha para o céu cinzento. A seguir fecha os olhos, que então ardem de sal, e aos pedidos de perdão acrescenta uma promessa...

- Eu juro!... Eu juro!... Nunca mais eu vou trair!... Juro pela minha vida!... Juro pela tua vida!... Eu quero estar aí embaixo, com você, se eu voltar a trair!... Nunca!... Nunca mais!... Eu sei que foi você quem disse para eu ir lá, para ver o que acontecia... Mas eu não podia ter feito o que eu fiz!... Eu não podia!...Olha aí o resultado!... Eu te perdi!... Eu te perdi para sempre!... Por minha culpa!... É!... Eu te matei!... Assassina!... É isso que eu sou!... Uma assassina!... Eu não podia ter feito aquilo!... Eu não podia!... E ainda bebi daquele jeito!... Eu sou uma vaca!... Uma assassina!... Uma filha da puta!... Eu estraguei tudo!... Eu fodi com tudo!... Eu te matei!... Eu te mateeeeeeeeiii!... E o Fernando?... Olha só o que eu fiz com ele!... Que merda!... Que merda, meu deus do céu!... É minha culpa!... É minha culpa!... É tudo minha culpa!... Me perdoa, pelo amor de deus!!!... Eu juro!... Eu juro!... Eu juro que nunca mais!...

Apoiando-se com as mãos no túmulo e sobre o pé bom, Natália se levanta mas subitamente sente-se tonta. Ela ainda se sustenta no mármore mas agora tudo gira. Eis o cinza entrecortado de verde da quadra 13 a girar feito um carrossel, santos e anjos de concreto qual cavalos de cowboys. Um nó no estômago, pontadas na nuca, náusea, embriaguez e, numa repentina espécie de implosão explosiva, eis Natália, gêiser magmático de seu angustiado esgotamento, a caudalosamente vomitar sobre o túmulo. Culpa, bile, arrependimento e suco gástrico. Mármore, flores e a poça morna amarelada.

27. Náufraga do navio da vida, Natália eis sentada no chão diante do túmulo. Dez segundos, vinte, trinta, tontura ainda. Decide. Como um soldado a avançar na guerra, ali, no piso abrigo do cemitério, rasteja. Sim, restou-lhe, rasteja. 25. Não, nunca mais! Reage. Agora engatinha. 23. Seu tornozelo dói. Continua. Lentamente avança em retirada. 21. Levanta-se afinal. Trôpega, caminha trapo. 19, 17, 15, 13. Manca, dói, treme, tonteia, tateia, escuro, disforme. 11, 9, 7, 5, 3, 1. Alameda central. Manca, Natália anda. Panda, Natália manca. Perda. Passa pelo ponto onde pisou em falso e caiu. Observa no chão uma flor igual às do seu buquê, e às do outro que no túmulo havia, que decerto naquele momento despercebida ficou para trás. Apanha-a e pensa em Fernando, que sempre lhe presenteou com flores durante o namoro, e durante o noivado, e também nas datas importantes após o casamento. Leva a flor aos lábios e com eles a toca de leve. O gesto, entretanto, a faz subitamente pensar em Rodrigo, novamente e sempre desde já com o pênis em ereção, o que, já no segundo seguinte, a faz sentir uma nova ânsia e mais do que nunca odiar a si mesma. Vazio, contudo, o oco do estômago, o vômito já não vem. Ela anda. Manca. Num cesto de lixo que vê já ao lado do portão, repetindo em voz baixa para si mesma que, não, nunca mais, joga, e com ela Rodrigo, a flor. Também ali, numa providencialíssima torneira que encontra, lava o rosto e bochecha a tirar o amargor biliar de sua boca. Levantando a seguir a barra de sua calça, avalia um pouco mais pausadamente a contusão.

São quase cinco quando Natália deixa o cemitério. Pé torcido, tombo, desespero, vômito. Sem ainda nem de longe imaginar que o pesadelo que para Fernando começou com um pé torcido terminará um dia com um vômito, ela novamente pensa nele, a quem pretende ainda hoje ir ver no hospital, onde, talvez, afinal, conforme sugeriu o travesti, mande examinar o seu tornozelo. A caminho de um ponto de táxi algumas dezenas de metros adiante, Natália manca.

Gugu Keller

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