sexta-feira, 14 de junho de 2013

A Esquina - Capítulo 41

O tio Custódio, a rigor tio de Fernando mas a quem Natália, àquela altura, já há muito se habituara a, como o marido, assim chamar, sempre foi um homem de vocabulário castiço, imponente e impressionantemente vasto, a ponto de muitas pessoas de sua cidade, São João da Boa Vista, o considerarem por isso um sujeito pernóstico, um pedante, um exagerado esnobe das letras. E foi justamente por ela ter saído de sua boca, da do tio Custódio, quando, naquele fatídico abril, ele telefonou para noticiar o terrível acontecido, que Natália pela primeira vez ouviu aquela palavra nefasta, pesada, horrenda, que tanto, por algum motivo que jamais ela própria entenderia, doravante pulularia em sua mente, meio que a assombrá-la, persegui-la, condená-la, crucificá-la impetuosa em sua própria férrea e vítrea cruz-esquina. De fato, como numa espécie de agourenta predição, desde então, de 2002 ainda o abril, sem que, repise-se, nem de longe concebesse o porquê, passaria a insistentemente ecoar em seu íntimo a para ela nova e traumatizante palavra... "Morgue".

- Alô!

- Alô! Boa noite!

- Boa noite!

- É Natália quem fala?

- Sim!

- Natália... Aqui é Custódio, de São João!

- Oi, tio Custódio!!! Que surpresa!!!

- Desgraçadamente, Natália, estou ligando por conta de um acontecimento pavoroso...! O Fernando se encontra aí?

- Não, tio! Ele ainda não chegou do trabalho, mas - nossa! - o senhor está me assustando assim...! O quê que aconteceu?

- É trágico, Natália! Incomensuravelmente trágico!

- Fala, tio Custódio! Pelo amor de deus...!

- Sabe o Carlos Aloísio?

- Carlos Aloísio? O Calú? Filho da Sâmia?

- Sim, ele mesmo!

- O quê que aconteceu com ele?

- Inacreditavelmente ele veio a falecer...!

- Como é que é???

- Eu compreendo o seu espanto, minha cara... É, de fato, dantescamente trágico...!

- Mas como isso aconteceu, tio Custódio??? Foi um acidente??? Ele estava doente???

- Chega a ser revoltante, Natália... O menino sufocou-se com o seu próprio vômito...!

- Meu deus, tio Custódio!!! Que horror!!! Foi em casa?

- Não, não! Foi na creche! Ou seja, um desleixo imperdoável, abominável! Alguém certamente prevaricou de modo flagrante! Um crime! Uma situação insuportável!

- Meu deus... E a Sâmia??? Eu imagino como ela deve estar...

- Está sedada! Medicada e sedada!

- Que horror, tio Custódio! Que horror!

- Bem... Eu telefonei para dar a notícia ao Fernando e a você... O sepultamento será amanhã às dezessete horas...

- O Fernando deve estar chegando, tio Custódio... Se não formos ainda hoje, amanhã de manhã com certeza estaremos aí!

- Está bem! O velório deve daqui a pouco dar início aos funerais...

- Ah! Não está velando ainda?

- Não! O corpo ainda está na morgue!

- Está onde???

- Na morgue!

Natália não conhece a palavra, mas acanha-se em, sobretudo num momento como aquele, perguntar o que ela quer dizer...

- Ah, sei... Com quanto anos o Calú estava, tio Custódio? Três?

- Faria três no mês que vem...

- Nossa! Que coisa horrível! Eu nem sei o que dizer...

- É horroroso, Natália! Uma hecatombe paralisante, decerto fruto de um comportamento omissivo abominável e execrável!

- Bem... Estaremos aí logo mais então... Obrigada por ter nos avisado!

- Por nada! Boa noite!

- Boa noite, tio Custódio!

Morgue, morgue, morgue... O que diabos será isso? Apenas no dia seguinte ao enterro, já de volta a São Paulo com o marido, Natália procuraria no dicionário aquela palavra que tanto e tão estranhamente a incomodava, que, sobretudo após os acontecimentos protagonizados por Sâmia, a mãe, prima de Fernando, durante o velório, tão terríveis e tenebrosos quanto a morte da criança em si, parecia, numa premonição que apenas a partir do ano seguinte começaria a angariar sentido, dançar num ritmo a um só tempo frenético e fúnebre por seus pensamentos. Ao ter que "morgue" nada mais é do que "necrotério", Natália pensa que, pelo contexto, já deveria ter desde logo o entendido. Mas, de todo modo, agora já sabe. E desde logo ela passaria a fazer estranhas associações, conexões com outras palavras... Morgue, morte, amor, morrer, motor, matar, amar. Vômito, túmlo, creche, colher. Cadeira, rodas, planta, plano, pau. Associações que, com Fernando agora ali morto ao seu lado, 36 anos do parto ao porto, hoje, mais do que nunca, conectar-se-iam, e, mais do que nunca, amargo morgue seu quarto eis.

Mas, como pode, Natália ainda tenta se defender, e, quase com sua voz, diz para si mesma a mesma frase de há pouco diante do espelho...

- Era o que ele queria!

Eis Natália no escuro. Deitada ao lado do corpo. De muitos modos quase também só corpo. Parto, quarto, morte, morgue, planta. Ao lado. Necrotério.

Gugu Keller 

6 comentários:

  1. acho tão legal quem parte de aspectos simples do cotidiano pra abordar questões profundas!

    esse texto seu é bem assim =)

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  2. Muito obrigado! Está acompanhando a história?
    GK

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  3. Corrigindo, estou cada vez mais *curiOsa para saber o final...

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  4. Falta pouco, Natália! Apenas mais onze capítulos para sabermos o que acontecerá à tua tão complicada xará! Fico muito feliz por saber que vc continua acompanhando...
    GK

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  5. Acompanho sempre! É q devido a faculdade ficou meio corrido para comentar =D

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