sexta-feira, 5 de julho de 2013

A Esquina - Capítulo 44

O velório estava lotado. A comoção entre parentes e amigos era indescritível. Um clima, pesado, plúmbeo, cinzento, trágico. Choros irrompiam e minguavam em cada canto, misturando-se a abraços desconfortáveis, cumprimentos evasivos e comentários redundantes acerca do óbvio, do completo nada que se torna um estranho tudo diante do racionalmente inaceitável.

Fernando e Natália saíram de São Paulo por volta das dez horas da manhã. Pararam para almoçar num restaurante na beira da estrada e chegaram a São João da Boa Vista às duas e pouco. Estando o enterro, conforme informara o tio Custódio, marcado para as cinco, pareceu-lhes um bom horário para se chegar. Uma vez na cidade, foram direto para o velório, em cujo pórtico, como que a no rosto golpear quem o adentrava, lia-se numa pequena lousa verde escrito com giz branco... "Carlos Aloísio Brito Bruno 17:00"

Após cinco minutos de cumprimentos em poucas palavras junto aos muitos rostos conhecidos porém algo estranhos àquela meia luz de perplexidade, o casal aproximou-se do pequeno caixão branco em torno do qual organizava-se o recinto. Metido num terno mirim também branco, que alguém mais observador talvez dissesse grande para o seu tamanho, e com uma deslocada gravata azul em torno do pescoço, lá jazia, com seus cabelos castanho-alourados e cacheados puxados para trás, o corpo do pequeno Calú. Diante daquela plástica aparência de anjo de cêra, talvez efeito da mistura entre a natureza da "causa mortis" e a já provável rigidez cadavérica, nem Fernando nem Natália conseguiram conter suas lágrimas. Como teria dito o tio Custódio, ver daquele tão pequeno e indefeso ser já encerrado, e de forma tão estapafúrdia, o seu tão breve traslado terrestre, era uma cena indubitavelmente dantesca. O que teria passado pela cabeça das Parcas, ou, para quem prefere a versão grega, das Moiras, malditas sejam?

Minuto a minuto, a tarde avançava ralentando enquanto um ar de mofo viciava-se naquela surreal ode ao absurdo. Entre as inúmeras conversas em voz baixa, Natália e Fernando apuraram que, a rigor, muito não havia para se saber além do que o tio Custódio relatara em seu telefonema... O garoto estava a um mês de completar três anos de idade e um sufocamento com o próprio vômito havia sido a razão do óbito, que ocorrera na creche. Caberia agora às autoridades policiais averiguar as responsabilidades.

Mas o que logo mais se comentava ali era a respeito da mãe... Viria Sâmia para o velório e o enterro, ou não? O seu marido, Mariano, pai do falecido, havia já estado lá antes da chegada de Fernando e Natália, mas, sempre amparado por amigos próximos, tinha ido ao encontro da esposa que, sabia-se, estava medicada com uma forte dose de tranqüilizantes. Teria ela condições de ver o filho morto? Era o que se especulava, e, pelo passar do tempo, parecia que não. Contudo, quando já eram quase dezesseis horas, uma onda de silêncio vinda da porta invadiu o ambiente anunciando que algo acontecia. Sim. Era Sâmia quem, amparada pelo marido e pela sogra, chegava para, ao cabo de alguns minutos, protagonizar uma das cenas mais tristes que São João já registrara em sua história, uma cena que para sempre ficaria marcada como uma tatuagem aplicada pelo mais cruel dos destinos na memória de toda aquela gente...

Àquela altura sentados em duas das cadeiras dispostas ao redor da sala, Fernando e Natália viram quando, após o referido silêncio que alardeantemente pareceu gritar a sua afinal presença, Sâmia adentrou o ambiente com passos lentos e claudicantes, como os de um deus em desolada visita ao inferno. Ainda que um par de grandes óculos escuros, dos que se costuma levar à praia em dias de sol escaldante, cobrisse-lhe boa parte da expressão facial, era fácil notar que, sem qualquer exagero, ela aparentava no mínimo o dobro da sua idade. Como se ensaiada e respeitosamente lhe dessem passagem, a reação das pessoas foi de afastarem-se de modo a deixar aberto o caminho até o caixão. Ainda amparada por Mariano e pela mãe dele, ela chegou a cerca de dois metros do esquife, onde parou e se desvencilhou dos braços dos que a apoiavam, deixando claro que dali queria seguir sozinha. Antes ainda do próximo passo, tirou o par de óculos e o estendeu para trás, para que alguém o recolhesse, a sogra o fez, exibindo afinal diante de todos um assustador semblante de zumbi. Se Sâmia tinha 30 anos, aparentava 70. Ninguém piscava naquela sala, e, dos olhos de Natália, que apertava firme a mão de Fernando, ambos cogitavam uma gravidez para talvez nos próximos três anos, lágrimas corriam cálidas e carregadas, ora alcalinas, ora ácidas.

Lentamente, centímetro a centímetro, Sâmia foi se aproximando do pequeno cadáver. Muito mais do que as lágrimas que igualmente vertia, chamava a atenção o quanto tremia, mãos e rosto sobretudo. Aproximou-se, aproximou-se, aproximou-se. Com olhos onde parecia explodir uma colisão cósmica entre cometas de amor e desespero, já ao lado do caixãozinho branco ela olhou enfim para o rosto do seu anjo ali para sempre abatido. Suas pernas também já visivelmente tremiam, fazendo com que muitos, inclusive Mariano, que agora chorava aos soluços, cogitassem aproximar-se para lhe dar arrimo. Mas ninguém ousou. Um segundo, três, dez, e, com extrema lentidão, Sâmia levou a sua mão direita, dir-se-ia, tal o tremor, a de um parkinsoniano, à testa da cria fria. O silêncio sepulcral, até ali violado apenas pelos soluços de Mariano e por, por toda parte já, muitos outros prantos, foi rompido enfim quando, com uma voz de quem se vê a próxima, ela passou a, numa perdigotejante mistura de gritos e choro, vociferar...

- Meu filho!... Ai, meu filho!... Ai, meu Calú!... Isto não é real!... Isto não pode ser real!... Ah, meu menino!... Meu filho, meu único filho!...

Por volta de 70% dos presentes choravam copiosamente. Natália e Fernando entre eles. Tão cheias de dor soavam aquelas palavras, que pareciam entrar pelos ouvidos de todos como óleo fervente, derretendo tímpanos e entranhas cerebrais como numa coletiva execução medieval, dos tantos olhos vermelhos a lava resto a correr. Mas a cena ainda se faria mais tenebrosa... Ninguém ali, enquanto vivo, esquecerá o quanto estava por vir... 

Após manter a mão sobre a testa de Calú por talvez um minuto, Sâmia novamente a recolheu para junto de seu corpo. As palavras por ora cessam e ei-la ali por alguns instantes parada e calada. Todos mantêm-se a observá-la de um modo "sui generis", como uma platéia diante de uma atriz na parte final do mais denso  dos monólogos teatrais. E o que todos vêem, segundos passados, é algo que, na vida ou teatro, ninguém ali antes jamais concebeu... Um a um, Sâmia põe-se a, de cima para baixo, abrir os botões da blusa que usa. São cinco. Ei-los todos desabotoados e, ato contínuo, ela leva as mãos às próprias costas e solta o fecho do seu sutiã. E ei-lo, o sutiã, no chão. Alguém enfim diz...

- Sâmia!

E outrem...

- Calma, Sâmia! O que você está fazendo?

Mas ela não ouve. De certo modo, de muitos modos, não está lá, mas do outro lado, o que quer que o outro lado seja, mesmo que um grande nada, com seu filho, sua cria, o seu Calú. Então, baixando o tronco sobre o esquife, ao mesmo tempo em que, qual um leitão diante do abate, agora novamente urra e chora, Sâmia leva o seu seio esquerdo ao rosto do cadáver, como se quisesse lhe dar de mamar.

A reação no ambiente é equivalente à de expectadores de um incêndio num edifício que acabam de ver alguém com o corpo em chamas saltar desesperado de um andar bastante alto. De todo modo, em meio àquela paralisante comoção de horror, três ou quatro acabam achando por bem intervir, indo até Sâmia e a puxando da situação...

- Calma, Sâmia!

- Calma, minha filha!

- Calma, Sâmia! Ele está em paz agora! Ele não viu nada!

Entre os que não ousaram chegar perto, a exclamação que entrementes mais se ouve é "meu deus!".

Mas, possuída de uma tristeza tal que praticamente a obsedia, ela não desiste. Livra-se totalmente da blusa, que até aqui havia apenas aberto, e, exibindo seus grandes peitos ali diante daquela platéia tão constrangidamente estupefata, insiste em os dar ao filho morto. Os que a acudiram a tentam deter mas ela literalmente já luta para desvencilhar-se e de novo se curvar sobre o caixão...

-Meu filho!... Meu filho!... Eu quero o meu filho!...

Mas o horror ainda aumentaria, na medida em que, como resultado daquele embate corporal entre a possuída pela emoção e os dignos e eminentes representantes da razão, Sâmia, a certa altura, livra-se abruptamente dos que a tentam conter e acaba caindo com todo o peso do seu corpo sobre o pequeno caixão, fazendo com que este caia no chão e que dele o corpo se desprenda, e eis o pequeno Calú, com o rosto voltado para baixo, caído, entre flores e velas que se esparramaram, no chão do recinto onde estava sendo velado.

Agito, consternação, a confusão se instala. As pessoas gritam, choram e falam umas por cima das outras. Nua da cintura para cima, Sâmia pega o corpo do chão e o traz aos seus peitos, abraçando-o e o embalando. Dois funcionários do serviço funerário intervêm e o tentam tomar dela, que, segura por outras várias mãos, agora grita histericamente...

- Meu filho!... Meu filho!... Meu filhoooooooooo!!!...

E, quando enfim mãe e filho são separados para sempre, ela põe-se a afirmar aos berros...

- Ele não morreu!... Ele não morreu!... Eu sei que ele não morreu!...

Os funcionários devolvem o corpo ao féretro e o ajeitam da melhor maneira possível. Sâmia é levada da sala enquanto, referindo-se ao médico dela, sua sogra grita...

- Dr. Eugênio!... Dr. Eugênio!... Onde está o dr. Eugênio?!?

Uma amiga de Sâmia, Renata, vai atrás dela e dos que a levam com a blusa e o sutiã, que haviam ficado no chão. Ajoelhado diante do esquife, enquanto os funcionários ainda tentam nele rearrumar as flores, Mariano, com o rosto coberto pelas próprias mãos e com várias outras a sobre seus ombros e cabeça o consolar, chora copiosamente. Sobre o ombro de Fernando, escondendo também seu rosto já borrado e inchado de tanto pranto, Natália idem. E ela jamais, ela bem o sabe, como todos ali, todos o sabem, esquecer-se-á desta tarde. Foi a cena mais a um só tempo triste e louca a que ela já assistiu.

Natália apenas ainda não sabe que, anos mais tarde, não sem ainda pensar em Sâmia a mostrar os peitos, ela própria, Natália, no banheiro da sua casa, protagonizaria algo não menos louco e triste. Cadeiras no velório, cadeira de rodas. Vômito, morte, morgue.

Gugu Keller


Nenhum comentário:

Postar um comentário