sexta-feira, 12 de julho de 2013

A Esquina - Capítulo 45

Sábado. 19 de julho de 2003.

10:15

Conforme o combinado, Peninha estaciona defronte do prédio de Ana Cláudia e a chama pelo celular. Cinco minutos depois ela desce, entra no carro e ambos seguem para o laboratório, que aos sábados funciona até o meio-dia, onde o resultado do exame deve estar pronto. Ansiosíssima, com o coração a palpitar na garganta, Ana mal abre a boca durante o trajeto. Nas paradas nos semáforos fechados, Peninha leva sua mão direita à esquerda dela, confortando-a e buscando lhe transmitir confiança.

- Vai dar tudo certo, amiga! Você vai ver!

10:55

Peninha estaciona defronte do laboratório. Desliga o motor e vai descer com a amiga, que lhe diz, entretanto, que apenas para retirar o resultado deve ser rápido e lhe pede que espere no carro. Ele hesita mas concorda. Com a boca seca e amarga, ela salta e some porta adentro.

11:06

Ana Cláudia aparece pela porta do laboratório e vem na direção do carro de Peninha. Caminha como se preferisse caminhar para sempre, sem nunca mais chegar a nada, e sem, melhor ainda, que o tempo seguisse a correr. Nas mãos traz o envelope grande típico dos em que os laboratórios lacram resultados de exames. Por fora, sob o logotipo, o nome da paciente, Ana Cláudia Wilson de Arruda. Ela entra no carro e bate a porta. Faz frio. Mesmo com sol, sopra um vento gelado. Peninha olha para ela e lhe pergunta se já quer abrir o resultado, ou se prefere que ele o abra. Ela responde com duas breves palavras...

- Em casa!

12:09

Ana Cláudia abre a porta do seu apartamento e entra junto com o amigo. Põe o envelope sobre uma estante e vê, em seguida, pela janela, que Manoela brinca no playground com a babá. Quando ela, Ana, pega um copo d'água para beber, Peninha observa suas mãos trêmulas, parkinsonianamente trêmulas, e pensa em perguntar se não é melhor, seja por ela mesma, seja por ele, que o exame seja aberto de uma vez para que se ponha fim àquela angustiante tortura. Mas não pergunta. Pesarosamente respeita o drama da sua amada amiga. Respeita o seu ritmo.

13:11

Durante mais de uma hora, Ana Cláudia mantêm um comportamento notoriamente estranho. Com frases vazias e despropositadas, fala sobre coisas desconexas, distantes, quase que desprovidas de qualquer sentido. Visivelmente, para uma crescente preocupação de Peninha, tenta agir como se não estivesse acontecendo nada de relevante consigo, ao mesmo tempo em que treme, sua e não pára de beber água. A certa altura, pega um comprimido de uma cartela e o ingere. A seguir, pergunta ao amigo...

- Amanhã você vai ao cinema com o Evandro?

Peninha responde sério...

- Claudinha... O Evandro está em Nova York!

Ela se toca da situação mas não muda...

- Ah! É mesmo! Bom... Se a Cilene puder ficar com a Manú, ou se der para deixar ela na minha mãe, a gente pode ir junto...!

13:40

Sempre estranha, lutando intensamente em seu interno contra si própria, Ana Cláudia pergunta a Peninha se ele gostaria de sair para almoçar ou de pedir alguma comida para ser entregue. Já também cada vez mais ansioso, ele afinal decide perguntar se ela não vai abrir o exame, ao que, numa mistura de peremptoriedade e evasão, ela responde...

- Daqui a pouco! Estou me preparando psicologicamente...!

14:18

Despropositadamente decidido que almoçarão fora, Ana Cláudia pede licença para tomar um banho. Esperando-a, Peninha vê passar por sua cabeça a idéia de abrir o envelope e ver de uma vez o resultado, o que obviamente não faz, já que ela obviamente perceberia se ele o violasse.

16:28

No restaurante, Ana Cláudia mal consegue tocar a comida e, a certa altura, cai no choro. Peninha diz-lhe assertivo...

- Amiga, vamos voltar para a sua casa e terminar com essa tortura! Você não vê que assim está sendo pior? Além do que, você pode estar sofrendo desse jeito por algo que nem está acontecendo...! Você não está cansada de saber que eu transei com um cara que era soropositivo e não me contaminei?!? Pois então... Isso é perfeitamente possível!!!

17:53

De volta ao apartamento, Ana Cláudia pega o envelope nas mãos. Faz que o vai abrir mas pára. Hesita, refuga, teme, treme. Solidário, Peninha a toca nos ombros.

- Vai, Claudinha! Abre! Eu estou aqui com você!

Pausa. Um segundo. Dois. Três. Outro. Outro.

- Eu... Eu não consigo...!

- Quer que eu abra e veja?

Pausa. Pausa. Pausa.

- Não! Me dá só mais um tempinho, Peninha...!

- Abre, Ana Cláudia! A gente pegou o exame às onze da manhã e vai dar seis da tarde! Já são sete horas nessa tortura! Isso não faz nenhum sentido, amiga!

Ana Cláudia pensa. Pensa, pensa, pensa e diz...

- Acho que vou deixar para amanhã...

- O quê???

- Ou, melhor ainda... Vou pedir para o meu médico abrir! É o certo, afinal, não é?

18:40

Após muito conversarem, ele sempre a tentando convencer a abrir o resultado do exame e pôr fim àquela expectativa, Ana Cláudia diz a Peninha que definitivamente não o fará hoje e lhe pede que vá embora. Firme, ele responde que não desgrudará dela até que o envelope seja aberto. Ela se serve então de uísque e bebe. Referindo-se ao comprimido que a viu engolir, ele questiona, imaginando que não tenha sido o único, se ela não está misturando a bebida com algum calmante. Ela diz que sim mas que não importa. Está precisando beber. Também extremamente angustiado àquela altura, ele desiste de polemizar quanto àquilo e acaba bebendo junto.

20:00

O tempo passa. Eles conversam e bebem, conversam e bebem, conversam e bebem. Ouvem música. Ana Cláudia fala sobre Gladston e Peninha sobre Evandro. Choram juntos e se abraçam.

21:00

Conversam e bebem. Choram.

22:00

Conversam e bebem.

23:00

Conversam.

23:45

Bebem.

Domingo, 20 de julho de 2003

02:15

Peninha está dormindo no sofá da sala. Bêbada, Ana Cláudia passa pelo berço no quarto de Manoela, onde esta como um anjo também dorme. Deita-se, a seguir, ela, Ana Cláudia, na sua cama, ainda, ironicamente, pensa, uma cama de casal. À meia luz, ela olha para o teto e tudo gira. Ódio, medo, aids. Gladston, Andréa, detetive. Peninha, Manú, medo, ódio. Quarto, cama, traição, carrossel. Quem dera dormir. Ainda que pela última vez antes da vez definitiva, dormir, ela pensa, quem dera. Sobre a mesma estante, na sala onde Peninha dorme, com o logotipo do laboratório, lacrado o envelope eis.

03:18

Como um jato de magma que, numa expansiva liberação sísmica, com um brusco golpe vem à superfície, um forte jorro de vômito tira Ana Cláudia de seu fronteiriço estado entre o sono do esgotamento e o torpor da embriaguez da mistura. Contorcendo-se sobre a cama já lambuzada, ela se vira para a esquerda e no chão despeja o que ainda resta daquele suco amargo de bile, malte e angústia. A seguir, tomada de um algo inominável, ela retoma tudo, todo o triste e tormentoso tudo desses últimos tempos, e, ao parecer ouvir vinda das paredes, testemunhas até então silenciosas das tantas vezes em que apaixonadamente ela ali fez amor com o seu marido, aquela frase que naquela noite ele lhe disse, "em boa parte a culpa é sua", ela, ainda mais tomada por aquele inominável algo, põe-se a, novamente, como naquela noite, engatinhar pelo apartamento, com a diferença de que desta feita com as mãos e os joelhos logo sujos do seu próprio vômito. De uma gaveta ainda em seu quarto, Ana Cláudia em tempo apanha aquele mesmo objeto de que então lançara mão e, mesmo a agora o segurar, segue de quatro, animal acuado a afinal fugir para a frente, rumo à sala, rumo à verdade, rumo ao que pode ser enfim o fim daquele sofrimento, ou dele apenas o fim do começo, rumo à estante, rumo enfim ao onde lacrado o envelope eis.

03:35

O telefone de dona Eneida toca e, obviamente assustada em função do horário, ela o atende. Mas muito mais assustada fica ao ouvir o quanto Peninha, sob um fundo de gritaria e tumulto, relata. Além do exame de Ana Cláudia, que durante todo o dia ela relutou em abrir e cismou de o fazer a esta hora da madrugada, ter confirmado a sua contaminação pelo hiv, ela, numa reação assustadoramente histérica, acaba de quebrar inúmeros objetos do apartamento e, entre berros de ódio contra o ex-marido, com uma arma que ele, Peninha, jamais imaginou que ela possuisse, desferir alguns tiros a esmo contra quadros, portas, paredes e janelas. Àquela altura, literalmente segura à força por vizinhos que acudiram, ela tremia e chorava enquanto jurava que não morreria antes de matar Gladston. Ademais, disse a dona Eneida o amigo de sua filha que a polícia estava a caminho, já que alguém, diante dos gritos e do barulho, tiros inclusive, houvera por bem em a acionar. Peninha solicitava, enfim, que a mãe de Ana Cláudia comparecesse imediatamente à grave cena e que, se possível, entrasse em contato com algum médico de seu conhecimento, já que se fazia claramente necessária algum tipo de intervenção através de sedativos. Dona Eneida foi, por fim, tranqüilizada ao menos quanto à situação da neta, que muito chorava ante a confusão mas que estava amparada pela solícita vizinha da porta ao lado. 

03:39

Dona Eneida desliga o telefone e, mesmo trêmula e às lágrimas, tem como imediata reação a de ligar para Ana Clara, que certamente poderá chamar aquele médico psiquiatra com quem trabalha. De tão tensa, disca primeiro o número de Ana Cláudia, de onde Peninha acaba de chamar, mas percebe o erro antes da ligação se completar e disca o número correto.

03:40

Após o terceiro toque, Ana Clara atende assustada o telefone...

- Alô!

- Clarinha?

Ao reconhecer a voz da mãe e, principalmente, ao perceber com clareza que ela chora, Ana Clara sente um baque no peito...

- Mãe??? O quê que aconteceu???

- Clarinha... A tua irmã está com aids!

Gugu Keller


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