sexta-feira, 19 de julho de 2013

A Esquina - Capítulo 46

O velório estava lotado. A comoção entre parentes e amigos era indescritível. Um clima pesado, plúmbeo, cinzento, trágico. Choros irrompiam e minguavam em cada canto, misturando-se a abraços desconfortáveis, cumprimentos evasivos e comentários redundantes acerca do óbvio, do completo nada que se torna um estranho tudo diante do racionalmente inaceitável.

O dr. Clóvis Hernandez estacionou sua Mercedes Benz prata a um quarteirão de distância. Sem nem ver de que valor, tirou uma nota de sua carteira e a deu para um guardador de carros que ali assistia, pondo-se a seguir a andar contra o vento frio do domingo gelado. Eram ainda, ou já, já nem lhe fazia diferença, duas e meia da tarde. O sepultamento estava marcado para as cinco. Desejando-se naquele momento um novo messias capaz de algum prodígio que a tudo revertesse, o experiente psiquiatra e psicólogo devaneia por um segundo poder caminhar sobre a água, sobre um caudaloso mar de lágrimas que ele não chora mas para que aflui, e, vencida metade da distância até o pórtico, já lhe é, isso sim, como andar debaixo da água salgada, lento, pesado, espesso, escuro, agora talvez messias às avessas, não portador da boa nova mas receptor da pior delas, submerso de ponta-cabeça enquanto pisa a superfície do ar, do seu já tão de mais nada mar infinito. Seculares segundos e ei-lo náufrago à porta, a cuja direita, com letras brancas de plástico coladas em imãs e fixadas sobre uma placa negra de metal, como que a golpear na nuca os entrantes tirando-os de qualquer possibilidade de apenas pesadelo, lia-se o nome dela, seguido do referido horário previsto para o enterro, 17:00.

O dr. Clóvis adentrou o, em razão da quantidade de pessoas ali, aquecido ambiente como quem adentra a geladeira do necrotério. Morgue. Após poucos minutos de cumprimentos em poucas palavras junto aos muitos rostos conhecidos porém algo estranhos àquela meia luz de perplexidade, ele se aproxima, já mais afogado do que apenas náufrago, do caixão morrom-escuro em torno do qual se organizava o recinto. E já não só o mar, nem o ar, mas o mundo todo, horizonte em vertical, ali de ponta-cabeça eis.

Metida num lindo vestido azul-claro, que talvez alguém classificasse como um eufemismo de tecido para a lamentável situação do corpo, lá jazia ela, com seus cabelos negros e lisos, visíveis apenas atrás das orelhas, e sua láctea e suave pele branca. A compor uma aparência quase hollywoodiana de fada violentada por uma súcia de canibais, além do aspecto de cera dado pela já àquela altura considerável rigidez cadavérica, uma touca de esparadrapo e gaze cobria toda a cabeça, cuja parte afundada fôra, via-se, preenchida por algodão. Os olhos inchados e cobertos por arrocheadíssimos hematomas pareciam, em razão da fratura na face, algo fora de prumo um em relação ao outro, e, em virtude do pescoço também quebrado na batida, a cabeça pendia um pouco para o lado direito. Ademais, toda a pele do rosto, e também a das mãos e braços, estava tomada por cortes e esfolamentos, o mesmo se diga dos lábios, costurados com suturas negras os inferiores. Ver aquela criatura tão doce, tão ética e bondosa, ter já encerrada, e de forma tão estapafúrdia, a sua breve passagem neste mundo era algo acintosamente injusto, pensou o dr. Clóvis. O que teria passado pela cabeça das Moiras, ou, para quem prefere a versão romana, das Parcas, desgraçadas sejam?

Minuto a minuto, a tarde avançada hesitante enquanto um ar de mofo viciava-se naquela nova edição da festa maior da tristeza humana. Entre inúmeros comentários em voz baixa, o dr. Clóvis apurava que, a rigor, muito não havia além do que ele já sabia... Eram cerca de quatro da manhã e os dois carros, que vinham em alta velocidade, bateram em cheio na esquina das ruas Hermann e Violeta, sendo que ainda não se sabia para quem o sinal estava aberto e para quem estava fechado no exato momento.

Três e meia agora quase e o dr. Clóvis observa um homem, a aparentar por volta de quarenta anos, que adentra o ambiente, cumprimenta algumas pessoas e logo se põe ao lado do esquife, parecendo, ainda que de um modo algo afetado, sofrer muito pela falecida. Chama a atenção o fato de ter ele, é visível apesar dos óculos escuros que usa, o rosto também coberto por vários hematomas. Os que não o conhecem, como é o caso do dr. Clóvis, perguntam baixo para alguém próximo ou sem voz para si mesmos... "Será uma outra vítima do acidente?" Já os que o conhecem o mesmo fazem numa outra versão... "Mas o Gladston também estava no carro?" O novo na cena mantem-se de cabeça baixa ao lado do corpo, parecendo, repita-se, sofrer muito mas de um modo estranho, os óculos não permitindo ver se chega a chorar. A certa altura, toma a liberdade de acariciar o castigado rosto da morta com as costas dos dedos de sua mão direita.

Mas o que logo mais se comentava ali era a respeito de dona Eneida... Viria ela para o velório e o enterro, ou não? E Ana Cláudia? Recém separada, muitos ouviram falar, como estaria se sentindo neste momento tão difícil? Teriam elas condições de comparecer? Era o que se especulava, e, pelo passar do tempo, queria parecia que não. Contudo, quando já quase se beirava as dezesseis horas, uma bruma de silêncio vinda da porta invadiu o ambiente anunciando que algo acontecia. Amaparadas, Ana por Peninha e dona Eneida por sua melhor amiga, Emma, sim, eram ambas que chegavam para, ao cabo de poucos minutos, protagonizar, Gladston e elas, uma das cenas mais chocantes que o dr. Clóvis testemunharia em toda sua vida, uma cena que para sempre ficaria como uma cicatriz feita pelo mais insano dos destinos na memória de todos ali.

Àquela altura sentado numa das cadeiras dispostas ao redor da sala, o dr. Clóvis viu quando, após o referido silêncio que aos quatro ventos pareceu gritar a sua afinal presença, o quarteto ganhou o ambiente com passos lentos e atolados, qual os de um frustrado deus em desolada inspeção na humanidade. Como se respeitosamente lhes dessem passagem, a reação das pessoas foi a de se afastarem de modo a deixar aberto o caminho até o caixão. Foi quando, ainda amparada por Peninha, Ana Cláudia levantou a cabeça que tinha baixa e viu, agora a dois metros diante de si, o quanto ali se passava. Repentinamente, para uma assustada surpresa geral, ela gritou num quase rompante de histeria...

- Tira já a sua mão dela, seu filho da puta!!!

A estupefação tomou conta do já suficientemente carregado recinto. Ao cabo de poucos segundos doravante o dr. Clóvis concluiria que o sujeito que acariciava o rosto do cadáver era Gladston, que, voltando-se então para a ex-mulher, disse com uma voz de comoção ainda pouco convincente...

- Eu só vim prestar a minha homenagem...! Eu adorava ela, você sabe! Ela foi a irmã que eu nunca tive!

Mas Ana Cláudia, para um cada vez maior assombro coletivo, retruca com ainda mais energia...

- Irmã que você nunca teve o caralho!!! Você matou ela!!!        

Todos agora entendem menos ainda. Então era Gladston quem dirigia o outro carro?!? Era por isso que ele tinha todos aqueles hematomas no rosto?!? Que coincidência mais trágica! Como podia ser algo assim?!?

- Como assim matei ela?!? Do que você está falando?!? - disse ele ainda ao lado do esquife.

Mas não houve muito tempo para novas conjecturas acerca do acidente naquele momento. O assombro geral cresceria ainda mais já no segundo seguinte, quando Ana Cláudia livrou-se de Peninha, que àquela altura já mais a segurava do que amparava, e, literalmente, partiu como uma fera para cima do ex-companheiro, passando a lhe desferir, com tanta força quanto lhe era possível, e aos berros, socos e pontapés...

- Seu filho da puta!... Desgraçado!... Você matou ela!... Você acabou com a minha vida e ainda matou ela!... Mas eu acabo com você!... Eu juro que acabo com você!... Sua bicha louca!... Veado!... Enrustido!...

Obviamente alguns presentes de imediato tiveram o impulso de intervir, mas o espanto era tamanho que, por um instante, uma espécie de paralisia coletiva pareceu se instalar. Gladston, por seu turno, defendia-se como podia dos golpes furiosos da ex-esposa, enquanto que dona Eneida, contida por Emma e agora também por Peninha, ajudava a o xingar...

- Desgraçado!... Maldito!... Demônio!...

E Emma...

- Calma, Eneida! Calma, pelo amor de deus!

E dona Eneida, para novamente incompreensão geral...

- Ele matou as duas!... Esse miserável matou as duas!...

Mas o horror ainda aumentaria... Passados mais alguns daqueles apavorantes segundos e eis Ana Cláudia ofegante parada diante de Gladston, este de frente para ela e agora de costas para a lateral do caixão, logo atrás de si. Com o rosto tomado de um ódio sulfúrico, ela lhe diz assertiva...

- Vai embora daqui agora, seu desgraçado!!!

Afinal sem os óculos escuros, que caíram no chão, ele diz com uma voz melosamente pranteada de quem sem conseguir quer causar piedade...

- Pô, meu amor! Eu só queria me despedir de um membro da família...

Salivante de ira, Ana Cláudia avança novamente sobre Gladston como um rottweiler contra o pescoço de um intruso em seu território...

- Vai emboraaaaaaaaaaaaaaaa!!!

Vindo ela abrupta para cima, ele vem para trás, de modo que o peso de ambos pende sobre o esquife, que acaba virando para a direita e fazendo o corpo despencar no chão. E ei-la, a falecida, de bruços, entre flores e velas que também vieram abaixo, caída no chão do recinto onde era velada. Pior ainda, a touca de esparadrapo e gaze que lhe cobria a cabeça se desprende, revelando não apenas o cocoruto raspado para as fotos da necropsia, mas, sobretudo, os terríveis amassamento e abertura causados pelo impacto do desastre. Dos miolos literalmente à mostra, um pouco de sangue mal coagulado escorre e suja o piso.

O tumulto se instala. As pessoas choram e gritam. As palavras "meu deus" são as que mais se ouve. Peninha volta a Ana Cláudia, que treme como uma chaleira em ebulição, e a ampara. Alguém de bom senso enfim vai a Gladston e começa a puxá-lo para fora da cena. Antes de se deixar levar, contudo, ele ainda pára diante de dona Eneida e lhe pergunta...

- E a minha filha?!? Onde ela está?!? Eu quero a minha filha agora!

Qual fosse ele o animal que a dentadas lhe arrancou os fetos gêmeos de dentro da barriga, dona Eneida encara Gladston olhos nos olhos. Um segundo, dois, três e, mesmo com a boca tomada de uma secura desértica, ela consegue reunir saliva bastante para, com a maior convicção de sua vida, cuspir-lhe na cara.

Gladston é levado velório afora. Desmaiada, dona Eneida eis posta numa maca. Entrementes, dois funcionários do serviço funerário acodem à situação e devolvem o corpo ao caixão, ajeitando-o da melhor maneira possível. Enquanto eles tentam rearrumar as flores, de pé a um metro, o dr. Clóvis, uma mão, parece, a descansar o acolhendo sobre o seu ombro esquerdo, silenciosamente chora.

Gugu Keller
 

2 comentários:

  1. Nossa quantos velórios nesse livro! Esse foi o mais interessante e surreal, gostei muito, principalmente do pano de fundo dr. Clóvis, a dor de tudo saber e de nada poder fazer. Continuo acompanhando.

    ResponderExcluir
  2. Obrigado, Jú! Estamos na reta final!
    GK

    ResponderExcluir