sexta-feira, 26 de julho de 2013

A Esquina - Capítulo 47

Sábado, 19 de julho de 2003.

18:40

Após muito conversarem, ele a tentando convencer a abrir logo o exame e pôr fim àquela expectativa, Ana Cláudia diz a Peninha que não o abrirá hoje e lhe pede que vá embora. Firme, ele diz que não desgrudará dela até que o envelope seja aberto. Ela se serve de uma bebida.

20:00

O tempo passa. Eles conversam e bebem. Conversam e bebem. Ouvem música.

21:00

Conversam e bebem. Choram.

22:00

Conversam e bebem.

23:00

Conversam.

23:18

Após uma pequena discussão motivada pela demora dela em se arrumar, o que, e ele por óbvio não o poderia saber, explicava-se pela sua ansiedade relativa à possibilidade de lá encontrar Rodrigo, Natália e Fernando saem de casa rumo à badalada festa na mansão de Dudú. Estando ele com o pé esquerdo enfaixado devido a uma contusão adquirida numa partida de futebol com os amigos, em que chegou a romper os ligamentos do tornozelo, é ela quem dirige o Peugeot. No cd player, toca o álbum "Violator", da banda inglesa Depeche Mode, que Natália adora.

23:34

Ao som da canção "Enjoy the Silence", Natália acha uma vaga a um quarteirão e meio da mansão, já que a rua está lotada de carros estacionados. Feita a manobra, ela salta e dá a volta para ajudar o marido a apoiar-se nas muletas que usa em função do pé torcido. Um guardador da carros com um colete laranja se aproxima e Fernando tira uma nota de dez de sua carteira, com que lhe obsequia. O casal põe-se a caminhar rumo à entrada da mansão.

- Eu devia ter te deixado na porta e depois vindo estacionar o carro... 

- Tudo bem, Natália! Eu já estou me acostumando com estas muletas...

23:41

Fernando e Natália entram na festa e são cumprimentados por vários dos convidados de quem são amigos. Muitos brincam com a situação de Fernando, que é logo convidado a se sentar num sofá. Desde logo, Natália sente-se tensa a com os olhos ariscos procurar Rodrigo por todos os cantos, sequer dando a devida atenção às pessoas com quem troca beijos no rosto.

23:45

Ana Cláudia e Peninha bebem.

23:46

Sentado no sofá, ao lado de um velho amigo seu, Cláudio, Fernando é servido com um copo de uísque por um garçom.

23:48

Natália pega uma taça de vinho branco de uma bandeja que passou diante de si enquanto, conversando rapidamente quase sem saber com quem, verifica que naquele primeiro ambiente Rodrigo em definitivo não está. Mas a mansão, ela bem sabe, tem várias outras salas, varandas e espaços descobertos, como o amplo jardim em volta da piscina, e devem ser mais de trezentas as pessoas na festa àquela altura, ou seja, ainda há muito o que olhar para saber se Rodrigo está lá ou não.

23:55

Natália encontra Camila perto da piscina conversando com um paquera. As duas se cumprimentam com alegria. Natália vê passar por sua mente a idéia de perguntar à amiga sobre a presença ou não do primo, mas, sem coragem, refuga. Quando Camila lhe pergunta sobre Fernando, ela explica sobre a sua mobilidade reduzida devido ao futebol. Finalmente, Natália indaga sobre Carolina, a quem Camila diz ter visto há alguns minutos mas não sabe onde está neste momento.

23:59

Num outro ambiente da mansão por onde resolve circular um pouco, Natália encontra Carolina. Cumprimentam-se e esta a chama para com ela ir ao banheiro. Lá, ambas se ajeitam diante do espelho enquanto Carol fala sobre um sujeito com quem empolgadamente está flertando, e com quem acredita que ainda nesta noite "vai rolar". Tendo posto o copo de vinho já quase vazio sobre a pia, Natália pensa na dra. Ana Clara, e, olhando-se no espelho, confessa em silêncio a si mesma uma súbita pequena inveja da amiga, já que, no seu caso, mesmo que, como espera, encontre Rodrigo na festa, não há, mesmo que, como secretamente ela, ele o queira, nenhuma possibilidade de "rolar", ao menos por ora ela assim o imagina. Decerto, de todo modo, precisa, pensa, lembrar-se de falar sobre essa pequena mas por óbvio significativa inveja que sentiu da amiga para a terapeuta na próxima sessão.

Domingo, 20 de julho de 2003.

00:04

Natália e Carolina saem do banheiro e, virando à esquerda num corredor que leva a uma das salas de estar da mansão, dão de cara com Rodrigo, que, com um copo de uísque na mão, vinha em sentido contrário. Sentindo um baque no peito, Natália leva um instante para sorrir. Quando o faz enfim, ele, retribuindo-o de pronto, pergunta-lhe exatamente o mesmo que lhe perguntou por telefone, quando ela, trêmula e de olhos fechados, desligou sem responder...

- Natália? É você?

Sentindo, ainda mais do que então, seu coração disparar, rufar, desembestar, ela novamente quase não sabe como reagir. Talvez, se houvesse um telefone na sua mão que, desligado, fizesse com que ele imediatamente sumisse da sua frente, por mais que o encontrar tivesse sido, paradoxalmente, tudo o que  esperava até então, ela, admite-se, muito provavelmente outra vez desligaria. De todo modo, de algum modo, do melhor dos modos, pensando novamente na dra. Ana Clara, Natália se controla e, fingindo com razoável sucesso um mínimo de naturalidade, diz enfim...

- Tudo bem, Rodrigo?

Pensando no sujeito com quem está a flertar, Carolina pede licença e segue adiante pelo corredor. Após uma promissora pausa, em que são trocados olhares de um desejo não assumida mas sabidamente correspondido, Rodrigo pergunta a Natália se ela aceita uma bebida...

- Eu estava tomando vinho...

- Quer outra taça? Ou me acompanha no uísque?

00:15

Cada um com um copo de uísque na mão, Rodrigo e Natália encontram um lugar razoavelmente discreto para sentarem e conversarem no jardim da mansão, a alguns metros da piscina. Ele, inevitável seria, pergunta a ela sobre o marido, a quem chegou a ver sentado no sofá. Ela lhe explica sobre a torção no futebol, a que, sorrindo, ele propõe um brinde, já que a pouca mobilidade de Fernando obviamente proporciona que eles possam conversar um pouco com alguma liberdade. Por um segundo, ela acha estranha a idéia de celebrar a contusão de seu cônjuge, chegando a sentir um prenúncio de culpa, da culpa que dentro em pouco tanto se agravaria, mas, pensando novamente na terapeuta, chegando a vê-la sorrir em seu pensamento, também ela novamente sorri, e ergue o copo.

- Eu jamais imaginaria... - diz Rodrigo então - ... que você pudesse ser casada com ele...

- Pois é... Depois daquela tarde em que nos encontramos naquele museu, ele me disse que vocês foram colegas... Colegas e grandes amigos...!

- É? E ele disse que eu o traí?

Pausa. Ela olha bem.

- E não traiu?

- Não!

- Não?

- Não! As coisas não se passaram exatamente como ele pensa...

- É? E como as coisas se passaram?

Outra pausa. É ele quem agora olha bem para ela.

- Não importa! Já faz muito tempo! Além disso...

Outra. Ela corresponde ao olhar.

- Além disso...?

- Além disso, talvez eu ainda o traia... A vida, afinal, é cheia de reviravoltas, não?

Ela sente um novo golpe em seu peito, mas, pensando novamente na sessão da antevéspera, parece ainda ouvir a terapeuta dizer "Vamos então tentar apurar se essa paixão é algo que pode desaguar num amor de verdade..." e, bebericando do uísque, com os olhos já cheios de uma adúltera sensualidade, olha ainda mais fundo dentro dos dele.

01:00

O tempo passa. Eles conversam e bebem. Conversam e bebem. Conversam e bebem. A música que toca é pop rock dos anos 80, o que é muito do gosto de ambos. Fernando, por seu turno, bebe uísque com Cláudio e outros amigos, e, já alto, ciente de que Natália tem também muitos amigos na festa na festa, nem se preocupa em saber dela.

01:23

Rodrigo e Natália conversam e bebem.

01:45

Servem-se de mais uísque. Conversam e bebem.

02:01

Conversam.

02:12

Bebem.

02:15

Peninha está dormindo no sofá da sala. Bêbada, Ana Cláudia passa pelo berço no quarto de Manoela, onde como um anjo esta dorme.

02:22

Rodrigo diz a Natália que a mansão do Dudú tem muitos lugares interessantes, como um certo quarto que ele conhece no andar de cima, e lhe pergunta se ela não gostaria de ir até lá. A bombástica mistura de seu desejo proibido com as três doses de uísque, além da taça de vinho, que já tomou desde que chegou na festa, a fazem incapaz de recusar a proposta, e ei-los discretamente a caminho do tal quarto.

02:24

A chave está na porta e Rodrigo a tranca por dentro. Natália vai à janela semi-fechada e espia um pouco a festa lá embaixo. Ele se aproxima dela por trás e a toca nos braços. Arrepiada de pronto, ela os levanta levando as mãos ao alto de sua própria cabeça, num claro convite para que ele desabotoe a alça do seu vestido, o que faz a seguir.

02:27

Ainda por detrás dela, que não usa sutiã, Rodrigo envolve-lhe os peitos carinhosamente com as mãos enquanto toca-lhe a nuca com os lábios. Tendo o pênis dele ereto a entrementes de leve pressionar-lhe as nádegas, ela, por um momento já sem saber se mais seduzida por ele ou pela prazerosa e para si inédita experiência do proibido, descontroladamente leva ao membro a sua mão direita, apalpando-o e sentindo o querer ter naquele momento mais do que a tudo.

02:30

À meia luz que transpassa as frestas das janelas, já que do quarto nenhuma lâmpada eles acenderam, eis Rodrigo e Natália a ardentemente se beijarem, ela, com o vestido arriado, nua da cintura para cima. Na trilha sonora anos 80 que vem lá de baixo, ouve-se agora a canção "Woman in Chains", da banda inglesa Tears For Fears, que Natália simplesmente idolatra. Como nunca antes desde que seu casamento entrou em crise, e pela primeira vez com o máximo de sinceridade para si mesma ela o admite, Natália se sente, enquanto sua língua passeia pelos lábios de Rodrigo, uma mulher que rompe as grades que a aprisionam, e, naquele mesmo momento, pensando ainda uma vez mais na dra. Ana Clara, ela admite também, também com aquele máximo de sinceridade, que, sobretudo quando se está assim, e definitivamente ela o está, apaixonada, é bom, é muito bom trair, e já mais agora, um minuto, dois, quando ele lhe beija os peitos e ela, por trás da sua cabeça, afaga-lhe afoita os cabelos.

02:33

Tomada de um desejo tamanho que quase faz com que não reconheça a si própria, Natália se deixa cair sobre os joelhos diante de Rodrigo. Decidida, mistura inflamável de desinibição etílica com secreção vaginal, ela leva as mãos ao cinto dele e o desabotoa. E desabotoa o jeans, e baixa o zíper, e baixa a cueca, e eis, diante de si, a um palmo de sua boca, pela primeira vez desde que começou a namorar o seu cônjuge, nove anos no total, um pênis que não o dele, um lindo, enorme e, sobretudo, deliciosamente proibido pênis, não dele.

02:34

Com a incontrolável força que leva alguém a fazer aquele algo extremamente errado que tem que ser feito, Natália abocanha o pênis de Rodrigo e, sentindo de pronto, no gosto e na forma, uma mistura irresistível de mucosa, álcool, proibição e alívio, e de verdade, liberdade e psicoterapia, chupa-o. Chupa-o, chupa-o, chupa-o. Chupa, chupa, chupa, chupa, chupa. Com um prazer muito mais pleno do que o que sentiu, não que se lembre, quando tinha três anos e chupou o seu primeiro picolé, chupa. Que doce lhe escorra, pensa, seu enorme picolé de porra! Dez segundos, quinze, vinte, vinte e cinco. Natália chupa. Até que algo  acontece...

02:35

"Woman in Chains" chega ao fim e, mantendo o clima anos 80 da festa, o dj põe para tocar a canção "40", da banda irlandesa U2, a favorita de Fernando. Chupando, Natália ouve e aquela culpa novamente surge e, intrusa, súbita, intensa, de assalto toma-lhe o peito. "Meu deus, o que eu estou fazendo?" E ela chupa e sente culpa. E chupa, e sente culpa. E chupa. E sente culpa. "Mas eu ainda sou casada com ele! Não posso estar fazendo isso!" Chupa. Culpa. Pensa na dra. Ana Clara. "Mas ela disse apenas para eu avaliar este sentimento...!"Culpa, culpa, culpa. "40". U2. "Meu deus! Meu deus! Que loucura! Que loucura é esta, meu deus? O quê que eu estou fazendo" E, na seqüência, mais uma lembrança... Tanto Fernando adora o U2, que, por sua insistência, foi uma outra música deles, "Party Girl", que tocou no casamento, quando Natália, de braços dados com seu pai, adentrava a igreja a caminho do altar. "Meu deus! "Party Girl"?!? "Garota de Festa"?!? E eu aqui?!? Numa festa?!? Fazendo isso enquanto ele está lá embaixo machucado?!?" Chupa, culpa, chupa, culpa, chupa, culpa. Chupou quarenta segundos, culpa, cinqüenta, culpa, um minuto, até que, numa reação que a Rodrigo deixa pasmo, ela se levanta bruscamente e, derramando lágrimas de seus olhos, diz-lhe atabalhoada...

- Não!... Não!... Eu não posso!... Desculpe!... Eu não posso!...

E, recompondo-se aos trancos e barrancos, ela abre a porta e se vai, os peitos ainda desnudos, os olhos vazando quente, quarto afora, festa afora, a vagina ainda melada, e eis Rodrigo, quatro uísques, calça arriada, o pênis duro ainda úmido da saliva dela, ao som de "40", U2, sozinho à meia luz naquele quarto.

Gugu Keller 

2 comentários:

  1. Obrigadíssimo mais uma vez, Jú! Agora, nesta reta final, em que tudo vai se costurando, está ficando interessante, não?
    Bjs!
    GK

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