sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A Esquina - Capítulo 50

00:04

Natália e Carolina saem do banheiro e, virando à esquerda num corredor que leva a uma das salas de estar, dão de cara com Rodrigo, que, com um copo de uísque na mão, vinha em sentido contrário.

00:15

Cada um com um copo de uísque na mão, Rodrigo e Natália encontram um lugar razoavelmente discreto para sentarem e conversarem no jardim da mansão, a alguns metros da piscina.

01:23

Rodrigo e Natália conversam e bebem.

01:45

Servem-se de mais uísque. Conversam e bebem.

02:01

Conversam.

02:12

Bebem.

02:15

Peninha está dormindo no sofá da sala. Bêbada, Ana Cláudia passa pelo berço no quarto de Manoela.

02:22

Rodrigo diz a Natália que a mansão de Dudú tem muitos lugares interessantes, como um certo quarto que ele conhece no andar de cima, e pergunta-lhe se ela não gostaria de ir até lá.

02:24

Arrepiada, Natália levanta os braços levando as mãos ao alto da sua própria cabeça, num claro convite para que Rodrigo desabotoe o seu vestido.

02:30

À meia luz que transpassa as frestas das janelas, já que do quarto nenhuma lâmpada eles acenderam, eis Rodrigo e Natália a se beijarem, ela, com o vestido arriado, nua da cintura para cima.

02:33

Natália se deixa cair sobre os joelhos diante de Rodrigo. Decidida, ela leva as mãos ao cinto dele e o desabotoa. E desabotoa o jeans e baixa o zíper.

02:34

Natália abocanha o pênis de Rodrigo e o chupa. Dez segundos, quinze, vinte, vinte e cinco.

02:35

Num gesto que a Rodrigo deixa pasmo, Natália se levanta da posição em que estava a o chupar e, derramando lágrimas de seus olhos, diz-lhe atabalhoada...

- Não!... Não!... Eu não posso!... Desculpe!... Eu não posso!...

E, recompondo-se, ela abre a porta e se vai, os peitos ainda desnudos, os olhos vazando quente.

02:38

Estrangeira na praça central da maior metrópole de um país longínquo, Natália vaga pela festa disfarçando em sorrisos sem dentes suas lágrimas para quem lhe olha. Como um são bernardo com chocolate quente no pescoço, ela agora perdida na neve, um garçom a socorre com outra dose de uísque. Natália bebe. Tudo gira. Tudo menos o mundo, que para ela ainda há pouco parou para sempre.

02:59

Entre lágrimas e gelo, Natália liqüidou o quarto uísque da noite, ou será o quinto, ou o primeiro era vinho, ela já nem sabe. Vai novamente ao banheiro, lava o rosto e se olha no espelho. Como há muito não via, ei-la ali apenas si mesma, de quem sente pena, e ódio, e nojo, e, ao mesmo tempo, um estranho e revolucionário ímpeto de se salvar sem saber bem de quê. Com sua vontade de chorar ainda não totalmente satisfeita tendo definitivamente prevalecido sobre o tesão que há pouco tanto sentia, e precisando  urinar ainda que com disso preguiça, Natália se senta no vaso. Dez segundos, vinte, trinta. Olhando para a sua pequena e elegante bolsa preta, que ficou sobre a pia, ela pensa em pegar o celular e ligar para a dra. Ana Clara. Mas não. Mesmo forte, a bebedeira não a impede de avaliar o quanto o horário é impróprio. Amanhã, decide, decerto. Por ora, afinal, sem qualquer outra opção que não seja o pranto, Natália levanta o vestido, baixa a calcinha até o meio das coxas e urina.

03:00

Frio que fazia naquela madrugada, "seu" Nésio havia tomado uns goles de pinga, nada que lhe tirasse a lucidez bastante para, à luz do poste, começar a montar o quebra-cabeça que havia ganho da dona Escolástica. Cansado por ter vendido balas por horas, poucas as vendas, muitas as horas, ei-lo sentado em seu caixote, diante do qual, num outro caixote, lentamente insinuava-se nos primeiros encaixes a paisagem de montanha. Goles de pinga, peças, goles de pinga, peças, goles de pinga, peças. Àquela altura, já poucos carros passavam pela esquina. Concluiria o quabra-cabeça, decidiu, e recolher-se-ia. Uma peça aqui, outra ali, e devagar a paisagem surgia. Frio e goles de pinga. Rua Hermann, rua Violeta.

03:12

Bêbado, sentado no mesmo sofá onde, devido ao pé torcido, permaneceu praticamente a festa inteira, Fernando fala besteiras e dá gargalhadas com seus amigos Cláudio, Richard e Rafael. Natália, que ele não vê há horas, igualmente bêbada aproxima-se e lhe diz que já é hora de ir embora, com o que ele concorda, pedindo apenas um momento para ir ao banheiro. Cláudio o ajuda com as muletas. Tudo gira. Ato contínuo, ela observa que café está sendo servido numa mesa próxima à porta de saída. Sabendo que tem de dirigir até em casa, pede uma xícara com pouquíssimo açúcar. Enquanto bebe, pensa novamente na dra. Ana Clara. Amanhã decerto, decidido está, telefonar-lhe-á. Uma brisa gelada vem da porta. Natália ainda quer chorar. Frio e café. Pênis, sucção.

03:18

Como um jato de magma que numa expansiva liberação sísmica vem num brusco golpe à superfície, um forte jorro de vômito tira Ana Cláudia de seu estado fronteiriço entre o sono do esgotamento nervoso e o torpor da embriaguez da mistura de bebidas que tomou. Contorcendo-se sobre a cama já lambuzada, ela se vira para a esquerda e no chão despeja o que ainda resta daquele suco amargo de bile, malte e angústia.

03:21

Em ritmo lento, frio, goles, pinga, a paisagem vai surgindo conforme "seu" Nésio acrescenta cada peça. 50% eis encaixado. Vê-se um lago, árvores e flores. Um carro passa pela esquina. Outro minuto e outro. O sinal abre para a rua Violeta e fecha para a Hermann. Outro minuto e vice-versa. Outro e de novo. Ele encaixa outra peça. Outra. Outra. Há neve no topo da montanha.

03:24

Acompanhado por Cláudio e despedindo-se de pessoas aqui e ali, Fernando vem do banheiro apoiado nas muletas. Tendo com Natália ao lado da mesa onde se serve café, também ele pede uma xícara e põe-se a beber. Cláudio lhe pergunta se está podendo dirigir, a que ele responde negativamente deixando claro que em função da contusão e não da bebedeira, mas que está tudo bem porque é a esposa quem hoje dirige. Também de saída, Carolina aparece de mãos dadas com um rapaz que Natália não conhece, decerto, ela imagina, aquele com quem disse que provavelmente "rolaria". Também ambos pedem café. Carol observa que a amiga tem um semblante estranho, pesado, carregado, como se tivesse chorado ou vantade de chorar, ou as duas coisas, e discretamente lhe pergunta se está tudo bem.

- Tudo bem, sim, Carol! Obrigada! Só estou um pouco cansada... Sabe quando bate aquele sono?

- Tomou um café?

- Tomei! Tomei, sim!

- Então vê se se cuida, hein?

- Pode deixar...

03:33

Cláudio ainda não vai embora mas acompanha Fernando e Natália até o portão da mansão.

- Não me despedi do Dudú... - diz Fernando enquanto, dificuldado pelo alto teor alcoólico em sua corrente sangüínea, apóia-se nas muletas para caminhar.

- Não se preocupe... - responde Cláudio - Eu digo que vocês deixaram um abraço...O Dudú é especialista em sumir nas festas dele mesmo...!

- É... - observa Fernando - Deve estar com alguém num daqueles famosos quartos da mansão...

E ambos riem enquanto Natália sente um tranco no ventre e discreta e novamente lacrimeja. Frio.

03:35

O telefone de dona Eneida toca e obviamente assustada ela o atende. Mas muito mais assustada fica ao ouvir o quanto Peninha, sob um fundo de tumulto e gritaria, relata.

03:36

Ao contrário do que se fez na chegada, o álcool consumido agora muito mais o justifica, Fernando fica esperando no portão da mansão enquanto Natália vai buscar o carro. Cláudio se oferece para a acompanhar mas ela o recusa, dizendo-lhe que fique com Fernando. Ei-la então a caminho do Peogeot estacionado a um quarteirão e meio. Passos, frio, pênis, álcool, U2, lágrimas, culpa. Será que ligando para ela amanhã, Natália pensa, a dra. Ana Clara teria como a atender já na segunda-feira?

03:38

Dona Eneida desliga o telefone e, trêmula e às lágrimas, tem como imediata reação ligar para Ana Clara, que certamente poderá chamar aquele médico psiquiatra com quem trabalha.

03:39

Natália chega no Peogeot. Assistida pelo guardador de carros, abre a porta e entra. Ao pegar a chave para pôr no contato, observa-se trêmula. Muito trêmula. Parkinsonianamente trêmula. Lágrimas novamente lhe escapam. Ela olha para a bolsa que jogou no banco do carona. Pensa. Hesita. Decide. Apanha-a e dela tira o celular.

03:40

Após o terceiro toque, Ana Clara atende assustada o telefone...

- Alô!

- Clarinha?

03:41

Natália disca. A dra. Ana Clara afinal é psicóloga. Não haverá de ser a primeira vez que um paciente em desespero telefona para ela de madrugada. Segundos e a ligação se completa, mas dá sinal de ocupado e cai na caixa. Ocupado a esta hora? Será possível? O que fazer? Tentar de novo? Ou deixar um recado? Não. Fernando está esperando. Natália devolve o celular à bolsa e, com as mãos trêmulas, liga o carro. Amanhã, está decidido, assim que acordar, ligará para a terapeuta. Sim, com sorte ela haverá de a poder encaixar em algum horário já na segunda...

03:43

Natália pára o Peogeot diante do portão da mansão e, amparado por Cláudio, lá vem Fernando, que, ajeitando no de trás as muletas, entra e se acomoda no banco do carona. Com o vidro lateral aberto, os dois amigos ainda conversam por alguns instantes, após o que se despedem e Natália toca. Antes da primeira esquina, principalmente por não querer conversar para que ele não perceba o seu contido mas insistente choro, ela aciona o cd player, e, a bom volume, eis o casal a ouvir a parte final de "Enjoy the Silence", com Depeche Mode.

03:45

3/4 do quebra-cabeça estão montados. E a reta final, o "seu" Nésio bem o sabe, vai mais rápido, já que menos peças restam a serem encaixadas. A para ele escalada daquela montanha está quase concluída. Balas, caixotes, pinga, frio e, sim, ele está quase lá. Sinal abre, sinal fecha, pouquíssimo movimento.

03:47

Menos de três minutos após ter falado com a mãe, Ana Clara já vestiu uma roupa e ei-la na garagem de seu prédio manobrando o seu Renault. Segundos e ela já está na rua a caminho do apartamento de Ana Cláudia. A soma de seu nervosismo com o trânsito livre da madrugada resulta em que corre. Enquanto dirige, liga para o dr. Clóvis do seu celular, e chora, e expressa em extrema angústia palavras de auto-condenação pela situação da irmã...

- É minha culpa!... É tudo minha culpa!...

Cinco toques e o dr. Clóvis não atende. A ligação cai na caixa.

- Que droga! Será que ele está dormindo?

Ela tenta de novo. Disca. Chora, condena-se e pisa fundo no acelerador.

- Tudo minha culpa!... Tudo minha culpa!... Eu tinha que ter falado para ela!...

03:48

Faltam menos de dez peças para o quebra-cabeça estar montado. Alegre com isso, "seu" Nésio toma um último e generoso gole da garrafa de pinga.

03:49

Natália e Fernando acabaram de ouvir "Policy of Truth", a faixa 7 do cd "Violator" do Depeche Mode, que tem 9. Natália não gosta tanto das duas últimas, mas adora a primeira, "World in my Eyes". Ela dá então três toques no jump do cd player e eis, como quando saíram de casa para a festa, a faixa 1 começando. O Peogeot entra na rua Christie, uma íngreme descida que vai dar na Violeta. Ansiosa por chegar e se deitar, Natália pisa fundo. Tudo meio que girando, ladeira abaixo é um tobogã. Em voz baixíssima, ela canta junto com a música...

-"Let me take on a trip... Around the world and back..."

03:50

Chorando e repetindo para si mesma que a culpa é sua, Ana Clara pisa fundo no acelerador do Renault enquanto tecla novamente o número do dr. Clóvis...

- Vamos, Clóvis...! Atende, pelo amor de deus...!

Novamente cinco toques e cai na caixa. Ela de novo diz "droga" e vira à direita na rua Hermann. Trânsito livre, pisa fundo. Respira, chora, culpa-se, sofre.

- Eu tinha... Eu tinha que ter falado para ela...! Ah, Gladston, seu maldito...! Como eu te odeio...!

03:51

Fernando chega a pensar em pedir para Natália não correr tanto, ela chegou a 100 na descida da Christie, mas, também ele bêbado, não o faz. Ei-los já na rua Violeta. Natália pisa. E canta...

-"Let me show you the world in my eyes..."

03:52

Ana Clara segue pela rua Hermann. Desespero, angústia, ansiedade, medo. E culpa. Culpa, culpa, culpa, culpa, culpa. Disca novamente o número do dr. Clóvis. A cada algarismo, repete para si...

- É minha culpa!... É minha culpa!... É minha culpa!...

03:53

"Seu" Nésio encaixa a última peça do quebra-cabeça. Eis paisagem completa. Ele sorri e levanta os olhos. Observa dois carros que vêm ao longe. Parecendo ambos em alta velocidade, aproximam-se rápido. Sim, já num instante estão bem próximos, um pela rua Hermann, outro pela Violeta.

...

O Peogeot está a 105km/h. Sentindo o vento frio que entra pelo vão deixado na janela e bate em seu rosto, Fernando tem os olhos fechados. Alcoolizada e amargurada, Natália continua cantando em voz baixa. A música está no verso de que ela mais gosta... 

-"Let me put you on a ship... On a long, long trip... Your lips close to my lips..."

...

O Renault está a 95km/h. Ana Clara discou e o telefone do dr. Clóvis novamente toca. Um toque, dois toques, três toques.

- Atende, por favor!

...

O Peogeot se aproxima do cruzamento. Cinqüenta metros, quarenta, trinta. O sinal está verde. Natália pisa. 105. De repente, o sinal fica amarelo, mas ela calcula que dá para passar e pisa ainda mais fundo. 110, 112, 115.

...

O Renault se aproxima da esquina. Cinqüenta metros, quarenta, trinta. O sinal está fechado. Ana Clara reduz a velocidade. 80, 70, 60.

- Atende, Clóvis! Atende!

Apesar de estar fechado para ela, que vem pela rua Hermann, o ângulo em que o semáforo está posicionado para a Violeta permite a Ana Clara perceber que ele ficou amarelo para quem vem de lá, e de novo ela pisa. 60, 70, 80.

- Atende, Clóvis! Caralho!

...

Antevendo o que vai acontecer, o cérebro de "seu" Nésio, já lento pelo cansaço da idade, e naquele momento muito mais pelos tantos goles de pinga, e peças de quebra-cabeça montanha acima, chega a mandar para o seu corpo uma ordem para que se levante do caixote e faça algum sinal com as mãos. Impossível.

...

No instante exato em que o semáforo muda de amarelo para vermelho para quem vem pela rua Violeta e de vermelho para verde para quem pela Hermann, os dois carros se tocam.

...

O dr. Clóvis Hernandez, que dormia e enfim acordou, atende assustado o telefone... 

- Alô!

Mas, após um barulho forte e estranho, silêncio. Do outro lado ninguém fala nada.

...

Três minutos após ter se deitado em sua cama, Rodrigo tem a impressão de ouvir ao longe uma brecada e uma batida. Ruídos típicos, infelizmente, pensa, da madrugada da grande metrópole. Dez minutos depois, também ao longe, ouve sirenes que a seguir se dissolvem no contínuo rugido urbano que entra pela janela entreaberta apesar do frio. 

Gugu Keller 


4 comentários:

  1. E que cada dia se aumente o dom de escrever!
    Bom final de semana!

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  2. E eu, agora que me acostumei com a idéia, estou adorando o novo projeto!
    GK

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