sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A Esquina - Capítulo 51

Do U2, principalmente "Bad", "40" e "Where the Streets Have No Name"; do New Order, sobretudo "This Time of Night", "True Faith" e "Confusion"; do Tears For Fears, várias vezes "Shout", "Woman in Chains" e "Memories Fade"; do The Cure, incansavelmente "A Night Like This", "The Kiss" e "Pictures of You"; e, por fim, do Depeche Mode, sem parar "Somebody", "I Feel You" e World in my Eyes". Desde o telefonema de Dudú com aquela notícia, por volta de dez da noite de sexta-feira, avançando pela madrugada de sábado até o dia raiar, com um par de fones Rodrigo ficou ouvindo em bom volume todas aquelas canções daquelas bandas surgidas nos anos 80 que ele sempre tanto amou. E, ainda e mais do que nunca, sentindo-o, amando-a, ele pensou no seu grande amor, com quem tantas vezes ouviu todas aquelas músicas que agora tanto a tudo aquilo o remetiam. Haveria, com aquela notícia de morte, chegado, viva, enfim, a grande chance? Depois de tantas andanças, Inglaterra, França, Espanha, Portugal, Itália, Alemanha, Áustria, Suiça, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia, Rússia, era uma sensação indescritível saber que ela estava em São Paulo, perto, acessível, localizável, táctil, ao alcance. Com uma garrafa de uísque cheia ao seu lado, Rodrigo ficou ouvindo todas aquelas músicas, e pensando, meditando, calculando, esperando, planejando, relembrando, conjecturando, arrependendo-se, culpando-se, chorando, sofrendo. E bebendo. Bebendo, bebendo, bebendo, bebendo. Raiava o dia, U2, Depeche, New Order, e eis a garrafa vazia. Por volta da meia-noite, o telefone tocou de novo, mas, vendo pela bina que era Natália, ele não atendeu. Preferiu ficar bebendo. Bebendo. E pensando. Derretendo, desmanchando, desfazendo-se, doendo. Raiava o dia, The Cure, Tears For Fears, e eis a garrafa vazia.

Despertador programado, Rodrigo ficou na cama das sete da manhã até as duas da tarde, mas, mesmo bêbado, de tão ansioso não chegou a dormir um segundo sequer. Quanto ao telefone, que tocou outras quatro vezes, ele não atendeu. Nada, nem Natália, nem Flávia, nem Inah, nem mulher nenhuma no mundo, nem nenhuma outra notícia de morte, ou de extrema sorte, nada, nada mudaria os seus planos. No horário marcado, e era melhor, pensou, que chegasse justamente no momento do enterro, quando se encerra todo o ritual funerário iniciado no velório, sim, no horário marcado, nem que fosse a última coisa que fizesse, ele estaria lá. Apurou, antes de entrar no banho, que as ligações eram todas de Natália. Não importa. Nada importa. Se alguém que fora tão parte daquilo tudo havia morrido ontem, hoje tudo aquilo haveria de renascer.     

Eram cinco da tarde em ponto, exatamente segundo Dudú o horário marcado, quando Rodrigo adentrou o cemitério. Que todo o passado, pensou ele adentro dando os primeiros passos, aqui hoje fique, qual seu sogro, para sempre enterrado. Passos, passos, passos. Coração, compassos, passos. Golpes, coração, galope. Dudú informara tudo. A quadra era a 27. O túmulo, o 13. Pelas pequenas tabuletas, que logo observou, Rodrigo orientava-se pelo cinza arborizado. Segundos, sístoles, segundos e em seu bolso o celular vibra. Ele o apanha e vê que novamente é Natália. Sem atender, desliga o aparelho e segue caminhando. Cinza, passos, cinza, passos, cinza. Numa estranha espécie de auto-cortejo ao contrário, de volta à vida cemitério adentro Rodrigo caminha. A garrafa de uísque, entrementes, ele então sente, com uma certa ânsia cobra o preço de seu fígado. Pouco importa. Ei-lo, afinal, que assim seja, ele pensa, no seu, se é que deste modo o pode dizer, desenterro. É. Exitosa, espera, exumação. Passos, passos, procura. 27, 13.

Mas não. Já nem precisa procurar. Da capela amarela bem pouco adiante, ele vê sair em lenta comitiva uma pequena e silenciosa multidão. Rodrigo observa. Sim só pode ser. A quantidade de pessoas, sua faixa etária e elegância, o clima, a pompa, a circunstância. Sim, só pode ser. Dos homens talvez o único a não trajar terno, ele adere ao grupo. Observa alguns rostos que já viu antes. Políticos, atina. Vereadores, ex-vereadores, deputados, ex-deputados, lideranças partidárias, empresários, secretários de estado. Também, aqui e ali, agora ele vê, alguns parentes dela de que se recorda. Sim, definitivamente Rodrigo eis no enterro do dr. João Silas do Amaral Torres. Definitivamente, ela, a quem procurou por tantos países, estações, praças, cafés, consulados, haverá de estar agora a poucos metros dele, decerto na dianteira do grupo, ao lado do esquife. Passos lentos. Cortejo, corpse, cripta. Coração que corre. Treme, tremula, tamborila.

Segundos, passos, segundos, passos, segundos, meses, anos, países. Psicoterapia. Periférico naquela pequena multidão, Rodrigo a vai seguindo até que percebe que houve uma parada e que todos agora procuram posição meio que a circundar o centro dos acontecimentos. Decerto, conclui, chegou-se ao túmulo 13 da quadra 27 e os presentes se ajeitam para o sepultamento. Ato contínuo, uma voz masculina se levanta sobre o silêncio geral e começa a emitir palavras augustas em tom solene. Sem dúvida, um discurso de última homenagem àquele homem que Rodrigo tão bem sabia ter sido extremamente corrupto em sua autoprofícua vida pública. Mas isso pouco importa agora. Sem sequer ouvir as palavras, Rodrigo fica  atento à fala apenas na expectativa de que ela logo se encerre, o que, seguida por uma salva de palmas, ocorre ao cabo de um minuto e meio, e, afinal, como se de certo modo elas revolvessem a sua própria história de vida, começa a se fazer ouvir o típico barulho das pás na cal. Com o coração freneticamente disparado, qual o de um cataléptico recém desperto em adrenalina no lacrado e escuro interior de seu sepulcro acimentado, Rodrigo tenta abrir caminho entre os presentes para se aproximar. Criança perdida em praia lotada, procura, pede licença, pede desculpas, espreita, esgueira-se, até que, agora a talvez cinco metros de si, ele vê, ao lado do túmulo, não túmulo mas mausoléu, de costas, abraçada a uma outra mulher que a ampara, sim, ele vê, sim, só pode ser ela, sim, sim, é ela, sim, sim, sim, só pode ser, sim, Raquel, a sua tão amada e saudosa Raquel. Coração, cinza, voz que não sai, ânsia, cimento. Domingo, maldito domingo, domingo bendito, 20 de julho, 2003, dr. João Silas, Europa, cinco anos, Dudú, psicoterapia, sexta-feira, 25 de julho, 2008, telefone, Dudú, notícia, dr. João Silas, cemitério, cinza, cortejo, eis.

O enterro está concluído. Vagarosamente as pessoas começam a se dispersar. Alguns fazem uma rápida prece, outros se socorrem de lenços e outros, ainda, gesticulam o sinal da cruz. Quatro, Rodrigo agora vê melhor, são os ainda mais próximos do mausoléu da família. Quando, aqui e ali assistidos por outras pessoas, os dois primeiros se viram, eis que são, ele de pronto os reconhece, sua sogra e seu cunhado, mãe e irmão de Raquel. E, ao lado, ainda de costas, ainda amparada por outra mulher, sim, Rodrigo agora tem certeza absoluta, ela, sim, ela.

A dispersão aumenta. A absurda freqüência cardíaca de Rodrigo idem. Conforme todos aos poucos vão se afastando, ele dá mais dois passos adiante. Sogra e cunhado, e ele crê melhor assim, passam ao largo sem o notarem. Foram. Segundo, segundo, segundo, e eis Rodrigo, coração solo de bumbo, a dois metros de Raquel, ela ainda de costas para ele, jogando, com a mão direita, num último gesto de despedida de seu pai, uma flor branca jazigo adentro. Um quinto de segundo, um quarto, meio, dois terços e, puxada pela que lhe ampara, ela vai se virar. As pernas dele bambeiam e, mesmo a duras penas mantendo-se de pé, de certo modo, de muitos modos, ele se sente cair de joelhos sobre o cimento cinza, e sobre os cacos da tv e da garrafa espatifadas, e, com as mãos por cacos cortadas, sem sangue ele sangra, e, sangrando em lágrimas, chora. Raquel e Priscilla afinal se viram. Ei-los, dez anos se passaram, frente a frente.

Catatonia recíproca. O bombardeiro se afastou e a bomba o chão beijou. Devastação. É Priscilla quem toma a primeira iniciativa. Fala algo no ouvido direito da melhor amiga e sai da cena, deixando ali, diante do mausoléu, todos os demais assistentes igualmente já se afastaram, apenas os dois ex-cônjuges. Frio. Vento. Cinza. Cimento. Um segundo, dois, três, vinte. Vento, vídeo, cacos de vidro.

Com a boca cheia de um arame farpado feito de cabos de uísque amargo e solidificado, Rodrigo enfim balbucia...

- Eu... Eu sinto muito pelo seu pai...

Com os lábios mornos de sal glandular, ela responde semi-gaga em palavras trêmulas...

- Obrigada... Não foi o melhor pai do mundo... Mas era o meu pai...

Ele heista. Pensa. Considera. Analisa. Até que, enfim, decide falar logo antes que do sonho, se um sonho for, parece provável, acorde...

- Eu não sei se você sabe, mas ele teve um gesto muito bonito...

Ela chora com os olhos. Com os órgãos. Com os poros. Chora toda.

- O que?

Pausa.

- Foi em 2003...

Outra pausa.

- 2003?

Outra.

- Sim... 2003... Ele... Ele me chamou... Me procurou... Aí, eu fui lá na casa de vocês... E ele me contou tudo...!

A conversa segue pausada, lenta, medida, estudada. É meio como se não fossem duas pessoas ali. Duas bocas e quatro ouvidos ali. Em pleno cemitério, cinco e meia da tarde quase agora, são, isso sim, duas almas que, seus corpos já num plano abaixo em lágrimas afogados, elevam-se e, na emoção etérea de um divino reencontro, devagar trocam palavras como quem troca a mortalidade pelo eterno.

- Ele te contou, né?

Ele se assusta.

- Você... Você sabia???

- Na verdade... Na verdade eu soube ontem, Rodrigo...!

- Ontem???

- É... O Dudú esteve no velório...

Ele compreende.

- Ah... Então ele te contou...?

- Sim...! Contou...!

Pausa longa.

- E ele te contou o quanto eu te procurei depois que eu soube...?

O choro agora vem tão forte que ela não consegue responder, a não ser, afirmativamente, com a cabeça. Ele pergunta então...

- Você estava na Europa? Era a única informação que eu tinha... A de que você tinha ido para a Europa...

- Eu... Eu fiquei um tempo na Europa... Até 2003...

- 2003?

- É... 2003... Depois eu me mudei...

- Para onde?

- Austrália!

- Austrália? Não acredito! Que cidade? Sidney? Melbourne?

- Perth!

- Perth???

- Sim! Na costa do Índico!

- E... E como você foi parar lá?!?

- Eu conheci alguém na Inglaterra... Ele é de lá... Aí, nós fomos para lá...!

Pausa longa. Rodrigo a quer abraçar como nunca, nem a ela própria, ninguém jamais ele abraçou. Mas o que ela acaba de dizer traz-lhe um temor súbito, forte como tampouco ele jamais temeu. Trêmulo, pergunta-lhe afinal...

- E você... Você... Você ainda está com essa pessoa...?

Primeiro novamente com a cabeça, mas desta vez em seguida com a palavra propícia, ela responde, agora negativamente...

- Não! Ficamos juntos até 2004...! Ele se casou há seis meses...!

Alívio. Ele chora mas, de súbito todo dentes, seu coração a galope sorri.

- E mesmo assim você continuou lá em Perth?

- Sim!

- Por que?

- É um lugar muito bom para se viver... Eu tenho um bom emprego... Bons amigos...

- Entendi...

A conversa tem uma nova longa pausa. A maior até aqui. É que, meio que magicamente, ambos se dão conta, tudo que era tão complicado, de repente, de um modo rápido, está explicado. Ele chora. Ela mais. Ele ainda mais. Ela muito mais. Estudam-se. Olham-se. Definitivamente, sentem, adoram-se. Inseguro contudo, sobretudo ali, naquele lugar, naquele momento, ele imagina quanto do pranto dela seria em virtude da morte do pai, e não do fato de o reencontrar, a ele, Rodrigo. Insegura igualmente, ela por seu turno imagina que o fato de ele a ter ido procurar ali, naquele lugar, naquele momento, pode ser um sinal de que, sim, ele ainda a ama tanto quanto ela a ele, mas ainda tem medo, muito medo, de acreditar. Ele daria o mundo para a abraçar. Ela, a vida por um abraço dele. Mas ele apenas, ao menos por enquanto, o mausoléu por testemunha, tem coragem de lhe estender abertas e voltadas para cima ambas as mãos e lhe dizer, meio que em interrogação...

- Volta pra mim...?

Um segundo que, levando dez anos, dá a volta ao mundo, América do Sul, Europa, Oceania, e Raquel estende as suas mãos e segura as dele. Uma década e ei-los enfim a se tocar. Vermelhos, quentes e úmidos, os olhos se olham profundamente. De muitos modos também se tocam, fundem-se, atravessam-se. Cinco segundos, dez, quinze e, antes de dizer qualquer coisa, ela surpreendentemente tira os olhos dele e os lança à volta. Parece procurar algo, que logo acha e por uma das mãos ela agora o puxa. Ele não entende.

- O que foi? Você quer sair daqui para a gente conversar?

Mas, puxando-o com decisão, ela diz apenas...

- Vem aqui!

Ela o traz até uma árvore que, entre algumas outras, rapidamente escolheu a cerca de quinze metros do mausoléu. Olhando novamente de modo fixo para os olhos de Rodrigo, que, dejà vú, estremece ao antever o quanto vai se passar, ela no tronco se encosta e, lentamente, baixa o zíper da jaqueta de couro que veste. Depois, ele de novo com as pernas a bambear, ela abre um por um os botões de sua blusa, e, exatamente como naquela tarde, naquele sítio, o sutiã que ela usa tem um fecho frontal.

Raquel desabotoa o sutiã e, agora sorrindo entre as lágrimas, a Rodrigo, exatamente como naquela tarde, naquele sítio, oferece os peitos. Um segundo, dois, três e, como num lago alguém que correu vários metros com o corpo em chamas, o rosto ele neles mergulha um mergulho de volta à vida.

- Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! - diz ele a abraçando, e nos seios a mordendo, e beijando, e chupando, e sovendo, e chorando.

- Eu também! Eu também! Eu também! - responde ela com os braços o acolhendo, e o recebendo, e se abrindo, escancarando ao vento frio o seu só dele coração.

Ambos agora ajoelhados ao lado da árvore às costas dela, Rodrigo afoga-se naqueles mágicos dois volumes enquanto ela, como uma idosa solitária ao pequinês amigo único doente, afaga-lhe os cabelos, a nuca e o pescoço, até que, a certa altura, tamanha é a catarse de emoções, que Rodrigo sente uma acidez quente subir-lhe pelo esôfago intrusa às avessas. Sim, a bebedeira da noite em claro, aditivada pelo estresse daquela angústia em sua vida sem precedentes, emergia para cobrar a sua conta, e eis Rodrigo, entre beijos, chupões, mordidas e um louco desejo de de algum modo os transfixar com sua língua, vomitando sobre os mais do que nunca lindos peitos de Raquel. Quentes e ácidos, bile, malte e suco gástrico. E o vômito escorre. Mamilos, ventre, umbigo, chão.

De certo modo envergonhado mas de muitos outros não, Rodrigo olha turvo bem dentro dos olhos de seu grande amor e diz...

- Desculpe! Eu estava tão ansioso... Tão tenso... Tão angustiado por pensar que ia te ver hoje... Que passei a noite sem dormir... E bebi... Bebi muito escutando as nossas músicas... E acho que nem me lembrei de comer nada...

Perdoando o maior perdão de sua vida, comparável apenas ao que dele recebeu naquele domingo em que seu pai lhe explicou tudo, ela responde...

- Tudo bem, meu amor! Pode pôr tudo pra fora! Vem! Põe pra fora essa bebida como se fosse aquela que você bebeu naquela noite horrível, naquele dia maldito em que aquele desgraçado te entregou aquele vídeo!

Ele fecha os olhos e vomita mais sobre os seios desnudos. Soluça, engasga, baba, chora. Ela acrescenta...

- Aliás, tem uma coisa maravilhosa, sabe? Não sei se o meu pai chegou a te contar... Aquele desgraçado, aquele maldito... Ele morreu! Sim, o filho da puta está morto! Faz coisa de seis anos! É! Teve um câncer no fígado que o levou a uma morte horrível! Sofreu o diabo! Teve o que mereceu o desgraçado! E agora, meu amor, nós estamos juntos para sempre! Eu te amo, Rodrigo! Ah, como eu te amo! Vai! Vomita tudo! Põe tudo pra fora que nada nunca mais vai nos separar...!

Rodrigo lança o último jato. Como, disse-se, nada havia ingerido nas últimas horas, foi um vômito ralo, biliar, suarento, líqüido, e, a seguir, enquanto ele, aliviado como um moribundo que dá com vida do outro lado, respira ofegante a envolver a amada agora pela cintura, ela, como se o sêmem dele fosse, e tomada de um prazer que ninguém além de ambos jamais entenderia, com as mãos espalha pelos peitos o que neles recebeu, sendo que, a certa altura daquele escatológico devaneio de recém resgate, ela pensa que de Rodrigo agora quer logo ter um filho, e chega a imaginá-lo, o filho, como sendo dono daquele vômito de renascimento, que em seus mamilos eis logo após dar de mamar. Colostro.

Ainda arfante, Rodrigo se deixa cair para trás e Raquel, com os peitos abertos e vomitados vem então sobre ele. Náufrago na praia que o salvou, ei-lo deitado sobre o chão cinza do cemitério, quadra 27, com ela, só na ilha há anos, deitada em cima, ambos a se abraçarem. Assim permanecem por vários minutos, ao lado da árvore, ao vento frio.

Numa providencial torneira encontrada ao lado de um cesto de lixo junto ao portão de saída, quase seis da tarde agora, Rodrigo lava o rosto e faz bochechos com abundância. Quando Raquel e ele eis enfim em seu carro, e agora tanto faz para onde vão desde que juntos, longa e apaixonadamente o casal se beija. Um minuto, dois, três, quatro, cinco, até que ela lhe diz com um desejo quase desesperado...

- Eu quero que você faça aquilo...!

Sentindo a bola de ferro de uma máquina demolidora bater em seu estômago ainda sob escombros de pós-revolução, Rodrigo entende de pronto aquela frase tão comum nos tempos de namoro e casamento...

- Por trás?

Com lágrimas que já não correm mas que brilham estrelas em sua aura, ela com a cabeça e um sorriso responde que sim. Ele então pergunta...

- Quando?

Uma pequena pausa e, olhando um olhar de mendigo faminto diante do religioso voluntário que lhe traz um prato de sopa, ela responde...

- Agora!

Gugu Keller 
 

2 comentários:

  1. Essa história deveria virar livro. Não pensaste nisso? Beijos e um ótimo fim de semana.

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  2. É o plano desde o início, querida amiga. Até o final deste ano estará publicado.
    Obrigado.
    GK

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