sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A Esquina - Capítulo 52

Segunda-feira, 1° de setembro de 2008.

07:00

O despertador tocou sem cumprir aquela que "ao pé da letra" seria a sua função, já que, afinal, não se desperta o que há muito está desperto, e a verdade é que Natália, desde que se deitou, por volta da uma hora, não chegou a dormir um instante sequer. A pizza de comemoração pela data na véspera, mesmo com a presença de amigos queridos, como Camila, Carolina, Hugo e alguns outros, foi para ela não mais do que uma obrigação desprovida de qualquer sentido. Mexia muito com as suas emoções o fato de ela agora ter 36 anos, a mesma idade que Fernando completava quando ela o matou, somado à falta que, apesar de terem sido com ela apenas três as sessões, e já há cinco anos, a dra. Ana Clara, a quem também matou, insistia em lhe fazer. Ademais, e talvez sobretudo, pesava-lhe insuportável a recente decepção com Rodrigo. Sim, e, relembrando ainda e sempre a terapeuta, e tudo o que acontecera naquele tão louco e fatídico julho de 2003, e, agora, principalmente, aquela tarde, aquela única tarde/noite com ele, Rodrigo, já num outro julho, este bastante recente, seis semanas atrás, Natália, às lágrimas, como jamais antes admitiu nada, admitia enfim para si mesma que, sim, tanto quanto já o odiava, apaixonadamente amava aquele homem. E nisso tudo, sem lograr pegar no sono por sequer um instante, ficou a pensar noite adentro, até que o som de alguns passarinhos anunciasse a proximidade do amanhecer, e o despertador, um pouco depois, a sua chegada, segunda-feira, o seu de fato primeiro dia aos 36.

07:15

Quinze minutos mais na cama e está decidido: Natália não vai ao trabalho hoje. Não, não tem condições. Aproveitará o seu aniversário na véspera para alegar excessos que na verdade não ocorreram e dizer-se indisposta. Há muito não falta afinal. Ninguém haverá de reclamar. Sim, tirará a segunda-feira para si, para pensar, refletir, relembrar, eventualmente, se possível for, planejar o porvir, quem sabe procurar uma nova, ou um novo, terapeuta, tentar, enfim, a partir de hoje, idade nova, virar a página, deixar, tomara apenas por ainda hoje, primeiro dia, 36 anos, e dor há, como há, ela a negar não se atreve, doer tudo o que de doer tiver. Natália vai até a cozinha e toma uma xícara de café. A manhã é fria. Ela volta para a cama. Programa o despertador para as nove horas e se deita. Cobertores, pensamentos, lembranças. Crimes, culpa, desejo. Uísque, esquina, hotel. Café.

09:00

- Jurídico, bom dia!

- Quem está falando?

- Francisco!

- Ô, Chico... Aqui é a Natália...

- Natália!!! A aniversariante!!! Onde você está? Pensamos que já estava chegando com o bolo...! E para a gente dar os parabéns, é claro...!

- Obrigada! Mas é que eu não acordei muito bem, Chico...

- O quê? Vai dar o cano? Deve ser para não trazer o bolo...!

- Amanhã eu levo... Prometo...!

- Já sei! Abusou na comemoração?

- É... Foi por aí mesmo...

- Tá! Tudo bem! A gente entende...

- Você avisa a Elisa?

- Pode deixar!

- Amanhã eu tô aí...

- Vê se se cuida, hein? Vai ver que é idade que já está pesando...!

- Tudo bem... Obrigada, Chico!

- Beijão! Melhoras! E parabéns por ontem!

- Obrigada!

09:05

Eis Natália de volta à proteção de seus cobertores. Para um algo que ela ainda não sabe o que é, mas que é o que quer, o que precisa, o que de muitos modos necessita fazer, o dia está garantido. Trabalho só amanhã.

09:15

Com o seu corpo de meio que entorpecido embaixo das cobertas, algo na mente de Natália insiste em não a deixar dormir. Segundos, minutos, lembranças, meses, anos, culpa, desejo. A culpa pelo desejo, o desejo por, apesar do desejo, superar a culpa. Vida que correu na reta, vida que cruzou a esquina, vida em que o tempo corre, parece-lhe claro agora, sempre de volta ao momento em que, naquela esquina, de certo modo, de muitos modos, do mais triste e aniquilador dos modos, parou no outrora. Pisar fundo, psicoterapia.

09:30

Aceitando que o sono não virá, e que ainda não sabe do que se trata o algo que hoje decerto fará, Natália se levanta e vai de novo até a cozinha, onde apanha o aparelho de som microsistem que lá costuma deixar, já que é normalmente quando está cozinhando que o usa. Pluga-o na tomada ao lado da cama e o põe sobre o criado-mudo. A seguir, vai até a sala e pega alguns cds no ármario onde os guarda. Pega vários das bandas surgidas nos anos 80 que, qual Fernando igualmente amava, tanto ama. U2, New Order, Tears For Fears, The Cure, Smiths. Sente um baque no peito quando se depara com o "Music For The Masses", do Depeche Mode. Nunca mais, desde aquela noite, atina, ela voltou a ouvir Depeche Mode. Ademais, apenas agora atina também, jamais pensou no que teria acontecido com o exemplar do "Violator" que Fernando e ela, muito tempo depois ela disso se lembrou, ouviam no carro no momento do acidente. Teria o cd se quebrado com o impacto? Jamais, óbvio é, saberia. Após hesitar, ela deixa o "Music For The Masses" no armário da sala e vem com os outros para o quarto. No meio do caminho muda de idéia e pára. Volta e o apanha. Ajeita-se então novamente na cama e, justamente por ele, o "Music For The Masses", começa a ouvir os cds.

13:15

Depois de, do Depeche, o "Music For The Masses", Natália ouviu, do The Cure, o "Desintegration", dos Smiths, o "Meat Is Murder", do New Order, o "Low-life" e, do Tears For Fears, o "Songs From The Big Chair", após o que decidiu voltar ao primeiro. Sim. Eis Depeche Mode, a banda que tocava, e com quem ela cantava junto naquela madrugada, alcoolizada, angustiada, culpada e a segundos de, para muito mais culpa, mudar para sempre a sua vida, novamente a embalar seus pensamentos. Ouviu a primeira faixa, "Never Let Me Down Again", a segunda, "The Things You Said", até que, no meio da terceira, "Strangelove", ela repentinamente se levanta, desliga o aparelho e vai até o banheiro, onde lava o rosto e escova os dentes. A seguir, rapidamente escolhe uma roupa e se veste para sair.

13:22

Natália esquenta água para fazer mais um café. Solúvel, é só misturar, adoçar e está feito. Mas, uma vez pronto, desiste. Joga o café na pia e vai até o bar na sala, ao lado do armário onde guarda seus cds. 

13:24

Natália apanha uma garrafa de uísque. Pensa, hesita, decide, volta atrás, retome, decide, estorna, rasga-se, emenda-se, desiste. Devolve a garrafa ao bar e vai sair. Ei-la na porta.

13:25

Da porta, Natália volta ao bar. Faz com o uísque o mesmo que há poucas horas fez com o cd do Depeche Mode. Sim, volta à idéia. Abre a garrafa e dá alguns goles no gargalo. Devolve a garrafa ao bar e volta para a porta. Sai. 

13:37

Natália dirige. Faz sol mas frio no começo de tarde. Quase ainda sem acreditar que é para lá, afinal ela sabe aonde vai. A cada quarteirão que vence, pensa várias vezes em desistir, do que, de desistir, sempre desiste todas as vezes. Vai em frente. Ruas, esquinas, semáforos, vendedores de balas. Nunca mais, pensa, ela viu Dudú. Onde andará? Dirige.

13:55

A segunda-feira é de trânsito intenso. Mas Natália não se importa. Pressa não há. Ruas, esquinas, semáforos e já venceu metade do caminho. Dirige. De repente, contudo, uma nova idéia. Natália pensa. Decide. Sim. Mas onde? Uma loja... Uma loja... Uma loja... Sim. Lembra-se. Muda o caminho. Não, não é longe. Dirige.

14:12

Assistida por um guardador de carros, Natália estaciona no quarteirão seguinte à loja. Dá um trocado ao sujeito e caminha. Faz sol mas venta forte e frio. Passo, passo, passo. Entra na loja.

- Boa tarde!

- Boa tarde! Posso ver o que você tem aí de Depeche Mode?

14:27

Natália entra no carro e abre o pacote com o cd. Além do plástico com o nome da loja, há um outro que a protegê-lo o envolve. Ela tira ambos e os joga no lixo. Abre a caixa e vai pôr o cd para tocar no som do carro. Não. Pára. Ainda não. Deixa o cd na caixa e o guarda no porta-luvas. Liga o carro e toca. Ruas, esquinas, semáforos. Dirige.

14:49

Área estritamente residencial, ali não há trânsito. Mas Natália vem devagar. Ei-la diante da mansão. Será ainda da família de Dudú? Nunca mais ela foi a outra festa ali. Mas sim. O provável é que sim. São tão ricos. Por que a venderiam? Natália segue. Dirige devagar. Um quarteirão e eis local exato onde estacionou o Peogeot naquela noite. Ela manobra e no mesmo local estaciona o Renault que agora tem. Desliga o motor. Pensa, reflete, relembra, planeja. Lembranças, crimes, culpa, desejo. Uísque, esquina, julho, 2003.

14:53

Natália apanha o celular em sua bolsa. Tecla o número da dra. Ana Clara, que nada, nem o acidente, nem a notícia dada naquele telefonema pelo tal dr. Clóvis Hernandez, nem todo o tempo que desde então se passou, nada permitiu que ela esquecesse. Segundos e uma gravação diz que o número não existe. Amarga, ela pensa que, de fato, por sua culpa, não, a dra. Ana Clara não mais existe mesmo. Ela desliga o aparelho. Pensa, reflete, culpa-se e liga o carro.

14:55

Novamente Natália passa lenta diante da mansão. Olha, espreita, examina, observa. Tudo quieto. As janelas, todas fechadas, do segundo andar, fazem  com que ela pense em Rodrigo. Ama-o. Odeia-o. Deseja-o. Odeia-se. Ela pára o carro e tira o "Violator" do porta-luvas. Mete-o no cd player e eis a primeira canção tocando, "World in my Eyes". Natália fecha os olhos ao ouvir o primeiro verso... "Let me take you on a trip..." 

14:59

Natália desce devagar a rua Christie. Relembra o sábado, seis semanas antes, e tem vontade de chorar. Sim, ela ama Rodrigo, a quem também odeia, e, sim, odeia Heather, a quem, mesmo sem conhecer, apenas odeia. Conjectura, a certa altura, se, aproveitando a ladeira que segue abaixo, não faria mais sentido pisar fundo como naquela noite, tobogã, mergulho, chupar, e chega até a imaginar que poderia, do outro lado, decerto com muito mais paz, continuar o seu trabalho com a dra. Ana Clara. Mas não. Pensa na cadeira de rodas, cuja manopla foi a única coisa além daquele pênis maravilhoso, o daquele seu amor a quem agora tanto odeia, que entrou em seu ânus, e, mesmo que aquilo, já a manopla mas sobretudo o pênis, tenha lhe trazido tanto prazer, ela sente um medo horrível, um medo culpado, Fernando, vômito, aniversário, 36, colher de pau, e ela então segue dirigindo devagar. Natália ouve agora, lenta ladeira abaixo, a segunda faixa do "Violator", "Sweetest Perfection". 

15:01

Pela rua Violeta Natália segue dirigindo devagar. Observa as casas, as lojas, os pedestres, os outros veículos. De certo modo indo para não chegar, dirige. A certa altura, imagina se algum dia viajará para a Austrália, mas, no segundo seguinte a o imaginar, com veemência recusa a idéia, já que, muito provavelmente, o faria por ele, a quem odeia, despreza, abomina. Sim, ama-o, adora-o, deseja-o com loucura, mas, é, odeia-o, despreza-o e o abomina. Já não rumo à Austrália, mas, abominável aborígene do amor agora admite, à esquina pouco adiante, Natália dirige. Devagar.

15:04

Ouvindo ela "Personal Jesus", o Renault de Natália é o quarto carro parado na fila do semáforo, esquina da rua Violeta com a rua Laufen. Olhando à volta enquanto quase cantarola, ela observa que ali há uma sex shop. Vem-lhe à mente uma idéia. Vem-lhe, aliás, não. Volta-lhe. Sim. Desde o acidente em que Fernando ficou tetraplégico, é-lhe uma idéia recorrente, a que ela jamais se permitiu. Não. Melhor não. Até porque o sinal abriu e ela tem que tocar, sem falar que ali, observa-se, é difícil estacionar, melhor ir em frente. Ela engata primeira e vai. Segue dirigindo. Passa pelo McDonald´s no quarteirão seguinte. São agora poucos mais atá a esquina com a Hermann.

15:13

Um engarrafamento faz com que Natália leve quase dez minutos para chegar até a esquina da rua Violeta com a rua Hermann. No aparelho de som, já a sexta música do cd, "Enjoy the Silence". Ali novamente ela pára no semáforo, mas desta vez não é um semáforo qualquer. Não. É aquele, ela realiza, em que, se  tivesse parado ao vê-lo amarelo naquela noite, tudo teria sido completamente diferente. Acima de tudo, ela não seria uma dupla assassina. Morgue. Mas talvez mais estranha das múltiplas sensações simultâneas que o lugar lhe traz, é que, a rigor, trata-se apenas de uma esquina como outra qualquer. Um minuto e o sinal ainda não abriu. Natália sente que uma lágrima vai correr de seus olhos, o que só não acontece porque um ambulante, a aparentar razoável idade, vem à janela do carro e lhe oferece balas a módico preço. Voltando a si de um estranho sepulcro automotivo, ela recusa.

15:18

Natália encontra uma vaga onde estaciona o Renault a cerca de cinqüenta metros da esquina. Ela ainda não sabe ao certo o que significa estar lá de volta mais de cinco anos depois, até porque a única que poderia ajudá-la a o compreender ela matou justamente ali, naquela noite. De todo modo, ela desliga o motor e o som e abre a porta. Desce e a tranca por fora. E eis Natália a pé, a poucos passos do lugar onde, no que se refere à sua vida, e ambos então se fundiram, o tudo se encontrou com o nada.

15:21

Natália está na esquina da rua Violeta com a rua Hermann. Atravessando aquela quando o semáforo muda, ela vai até o muro contra o qual os carros foram atirados depois que se chocaram naquela noite. Cinza, ela o toca com as mãos e agora já não segura as lágrimas. A seguir, um minuto, um e meio, ela dá as costas para o muro e fica a observar tudo. Sinal que abre, sinal que fecha, carros, ônibus, motos, pessoas, passantes. Para lá a para cá pela esquina entre as duas ruas, conforme o semáforo se alterna, ela vê aquele mesmo senhor que lhe ofereceu balas. Além dele um outro ambulante, este jovem numa cadeira de rodas, buquês de flores comercializa junto aos motoristas. Natália olha, assiste, lembra, sofre, chora. Sente vir-lhe a dor e, como nunca, deixa-a doer. Ei-la pedaços no mesmo local em que em pedaços fez sua existência. Ei-la peças, ela pensa, de um complicado quebra-cabeças que, oxalá, hoje, aproveitando a nova idade, a partir deste seu tão louco ritual, se é que assim o pode chamar, ela consiga, mesmo sem a agora impossível ajuda de quem decerto a tanto tanto a ajudaria, ela consiga ao menos começar a aos poucos encaixar.

15:22

Mas, ao mesmo tempo, para sua mais completa e absoluta surpresa, numa decerto complexíssima reação psicofísica ao extremo do momento que ela própria jamais entenderia ou a quem quer que fosse, mesmo à dra. Ana Clara, saberia explicar, eis, após vários e vários dias, ela nem se lembra, sua vagina lubrificada. É. Como às vezes, sem razão consciente ei-la excitada. E, como quase sempre, por exatamente ali estar excitada, ei-la culpada. Mais e mais culpada.

15:23

Mas não. Sincronicamente algo acontece. O farol estava aberto para a Violeta e fechado para a Hermann. Quando mudou, um carro que vinha pela primeira passou no amarelo e quase colidiu com outro, que estava parado na outra e arrancou apressadamente. Uma brecada e xingamentos de parte a parte se ouviu. O coração de Natália deu um tranco e, com ele, veio-lhe uma estranha compreensão. Sim. De repente pareceu-lhe com clareza que quem vinha, quem sempre veio, quem continua vindo desembestada pela rua Violeta é a sua culpa, a sua absurda culpa, a sua tão gigantesca culpa, sempre em rota de colisão com, vindo pela Hermann, também a toda velocidade, o seu desejo, o seu tão louco desejo, o seu também gigantesco mas acima de tudo tão humano desejo. E ei-los ali, naquela tão para ela simbólica esquina, decerto desde muito antes daquele fatídico 2003, a o tempo todo destrutivamente se chocarem. Sim. É. Claro. Bem ao lado do muro cinza há uma árvore bela e cheia de verde. Natália a observa. Sim. É. O espírito da dra. Ana Clara está ali. Sim. Está. É. Ela entendeu. Psicoterapia. Insight. Quebra-cabeças. Esquina. 

15:24

Se já o fez com o "Music For The Masses" e com o uísque, por que não mais uma vez? Sim. Mudou de idéia. Natália olha então para a sua direita. A cinqüenta metros vê o Renault estacionado. Pensa. Decide. Melhor não. O trânsito continua pesado. Vira-se para o outro lado e põe-se a andar no sentido contrário do de que veio. Caminha. Um quarterão. Caminha. Pensa em como é bom poder fazer algo tão simples como caminhar, e caminha. Dois quarteirões. Três. Caminha. Vento frio. Lágrimas secas. McDonald´s. Caminha. Rua Laufen. Procura. Lá eis. Entra.

- Boa tarde!

- Boa tarde!

- Posso ajudar?

15:41

Natália deixa a loja com as duas compras numa sacola. Mais tarde, de volta à privacidade de sua casa, fará, planejou, uso de ambas. Caminha novamente no sentido da esquina. Atravessa a rua Laufen e passa na frente do McDonald´s. Passos, passos, passos. De repente, sua vagina insistindo em manter-se melada, e agora mais ainda tendo estado naquela loja, uma nova idéia. Uma idéia definitivamente louca o bastante para ser levada à cabo hoje, nesta para Natália tão definitvamente louca segunda-feira. Ela pensa de novo na dra. Ana Clara e intui que, sorrindo, ela o aprovaria. E também ela, Natália, sorri cúmplice de si mesma, a melhor e mais gratificante, observa de pronto, cumplicidade que pode haver, enquanto volta para trás e entra na unidade da rua Violeta da lanchonete mais famosa do mundo.

15:43

Natália entra no McDonald´s. É uma loja de porte médio e, naquele horário de uma segunda-feira, está consideravelmente vazia. A uma funcionária que recolhe bandejas de sobre as lixeiras, ela pergunta onde fica o banheiro.

- Subindo aquela escada, à direita!

- Obrigada!

15:44

Ei-la no banheiro. Ninguém lá. Perfeito. Ainda não acredita que fará o que fará, mas, sim, como tudo o que não acreditaria fazer e já fez hoje, fará. Para ajudar, lembra-se de olhar rapidamente no espelho e procurar Sâmia. Ei-la lá. E, relembrando com dor o seu estranho telefonema de despedida alguns dias atrás, ela aceita que, ao mesmo tempo em que o odeia, será, sim, pensando em Rodrigo, o único com quem até hoje já o fez de verdade, que fará o que fará, e, no espelho, a mostrar os peitos sorrindo apesar do luto, novamente Sâmia lhe diz... "Dá o cu pra ele, Natália!"

15:45

Há três cabines de vasos sanitários. Natália escolhe a do canto mais longe da entrada do banheiro. Confere se está bem limpa, e está, adentra-a e tranca o fecho por dentro. A seguir, fecha a tampa do vaso e sobre ele põe a sua bolsa. Tira então o par de sapatos que usa, a calça e a calcinha. Ainda não crê que o fará, mas, sim, fará, até porque, a esta altura, o melado enre as suas pernas literal e invencivelmente a obriga. Ademais, atina, tampouco creria no que fez com a manopla da cadeira de rodas do marido, e rapidamente questiona de si mesma se teria coragem de o revelar mesmo para a dra. Ana Clara, e o fez. Imagina depois se, dos milhões, talvez bilhões de freqüentadores do McDonald's mundo afora alguém já entrou numa de suas lojas com o própósito específico de fazer o que ela está por fazer. Desejo, medo, culpa, crime. Esquina, insight, sex shop, libertação. Eis Natália a pouco de sua louca e libertária fast-food masturbação.

15:47

Natália desembrulha as duas compras. Primeiro, o pênis de borracha. Depois, o pequeno tubo de lubrificante íntimo. Abre a tampa deste e aplica uma boa quantidade na cabeça do instrumento. Sobre a tampa da privada, ao lado da bolsa, deixa o tubo a descansar, e, a seguir, levanta a perna esquerda e lá também eis o respectivo pé, o direito no chão, e ei-la assim com as intimidades posicionadas para o quanto pretende. Leva então, com a mão direita, o pênis ao ânus e lentamente o começa a introduzir. Devagar, devagar, devagar, entrou. O lubrificante, nota de pronto, não apenas facilita a operação como a torna ainda mais prazerosa. Excitadíssima, Natália leva o dedo médio da mão esquerda à vagina, toca o clitóris e passa a o acariciar. E aos poucos acelera. Mais, mais, mais, mais. Um minuto, um e meio, dois, três, Rodrigo na sua boca, Rodrigo na sua boceta, Rodrigo no seu cu, desejo, desejo, desejo, medo, desejo, esquina, esporrou.

16:05

De volta à esquina, tendo gozado o gozo pleno de quem recém aprendeu a rir sem medo da própria culpa, Natália, já sem sequer se preocupar com o que a respeito possam pensar os passantes, encosta as mãos e depois a testa na árvore Ana Clara, ao mesmo tempo em que, grata de prazer a quem tanto odeia, descobre que masturbar-se daquela forma, com um pênis de borracha e uma boa dose de lubrificante, deixa em seu ânus, graças ao último, uma agradável sensação de que lá eis, ainda a escorrer melado, o esperma daquele por quem se fantasiou. Um minuto, dois, três. Ainda tocando a árvore com as mãos, acariciando-a, Natália volta a observar a esquina. Farol abre, farol fecha, carros, ônibus, motos, o velho vendedor de balas, o cadeirante que vende flores. Flores? Sim, é isso! Natália olha para árvore e tem uma outra idéia. Pensa. Decide. Sim. Não, definitivamente jamais procurará outro terapeuta, como em alguns momentos, e ainda nesta manhã, chegou a cogitar. Não. Sim. Sua terapeuta é a dra. Ana Clara, em cujo espírito naquela árvore, através do seu tronco, ela agora dá um beijo antes de ir fazer mais uma compra.

16:11

- Boa tarde!

- Boa tarde, madame! Leva flores hoje?

- Este buquê está quanto?

- Este pra senhora eu faço quinze reais!

16:52

Com nas mãos o buquê de flores comprado na esquina, Natália caminha cemitério adentro. A tarde é fria. O vento vem gelado em seu rosto. Passando pelo ponto onde cinco anos antes torceu o pé e levou um tombo, ela agora anda com cuidado. Lembra-se das duas mulheres que vinham em sentido contrário, uma delas bastante bela, que a acudiram e que, de perto, pareciam travestis. Seriam mesmo? Por que não? Travestis, afinal, conclui, também hão de freqüentar cemitérios, sobretudo sendo vítimas contumazes de tanta violência preconceituosa e de doenças como a aids. Natália caminha. Passos, passos, passos. Pelas tabuletas orienta-se em busca das coordenadas que, tanto quanto de seu próprio nome, jamais se esquecerá, quadra 13, túmulo 27. Passos, minutos, passos. Caminha.

16:55

Eis a tabuleta com o número 13. Natália caminha. Lápides, lápides, lápides. Lado ímpar. 1, 3, 5, 7, 9, 11, 13, 15, 17, 19, 21, 23, 25, 27. Eis. Sim. Chegou. Além do nome da família no jazigo, ao contrário da primeira vez em que ela lá esteve, quando o enterro era muito recente e tal ainda não havia sido fixada, vê-se, entre outras, uma placa de bronze com o nome dela e as duas datas que ponteiam uma existência humana neste mundo...

Ana Clara Wilson
*12-09-1969
+20-07-2003 

17:00

Exatamente no mesmo ponto sobre o túmulo onde cinco anos antes vomitou, ela se lembra bem, Natália deposita o buquê de flores. Depois pensa, olha, observa, planeja, calcula, conjectura, considera. Olha à volta, o vento frio batendo em seu rosto, e nota que ninguém há por perto, e, ainda sentindo no ânus o agradável trauma da emborrachada introdução masturbatória, bem como a melhor ainda lubrificação do esperma fantasioso, ela se senta diante do túmulo, bem perto da portinhola, com as pernas cruzadas na popular posição de lótus, seus joelhos chegando a tocar o metal trabalhado. Um minuto, dois e, após respirar fundo, Natália começa a falar...

17:03

- Boa tarde, dra.! Bom... Faz cinco anos que eu te matei naquela coincidência tão trágica e - nossa! - tanta coisa aconteceu de lá para cá... Você sabe que o Fernando, meu marido, ficou tetraplégico naquela batida... Acho que você se lembra que era a festa do Dudú naquela noite... É... Muitas coisas aconteceram...

17:08

- ... e aí eu acabei matando o Fernando desse jeito, sufocado com vômito, ajudando com a colher de pau... E nunca ninguém imaginou que não tivesse sido um acidente... Ai, dra.... Foi tão horrível aquilo tudo...   

17:15

- ... e eu nunca mais o havia visto, até que, um mês e meio atrás, assim, do nada, ele me procurou... Quando ele disse no telefone que era ele, Rodrigo, eu mal pude acreditar...

17:17

- ... é, eu tinha feito aquele juramento pra você aqui mesmo, de que nunca mais eu iria trair o Fernando... Mas acho que a minha vida sempre foi isso... Sempre voltar atrás naquilo a que eu me proponho e acabar me sentindo culpada... Sempre culpada... Culpa, culpa, culpa, culpa...

17:21

- ... a gente se encontrou num quarto de hotel... Foi num sábado, 19 de julho... É... Por coincidência, no quinto aniversário do acidente, no quinto aniversário da tua morte...

17:24

- ... foi maravilhoso! Simplesmente maravilhoso!

17:30

- ... e a gente tinha ficado de se ver no fim de semana seguinte... Mas ele não ligou... Aí eu acabei ligando... Liguei várias vezes, um dia, outro dia, deixei vários recados, mas ele não retornava... Eu fiquei muito mal... Ai, no começo de agosto, ele me ligou...

17:33

- ... e eu disse: Como é que é??? Austrália??? Você está indo para a Austrália???

17:35

- ... é claro que eu não acreditei nesse papo de reencontro com a ex-mulher... Ele deve é ter ido atrás daquela maldita intercambista... Que dizer, no fim das contas, o Fernando não estava errado... O Rodrigo teve, sim, alguma coisa com a desgraçada... E deve ter até hoje, né? Foi pra lá atrás dela...

17:38

- ... é, tem um cara que tá me ligando... É que outro dia eu estava meio entediada e acabei entrando numa dessas salas de bate-papo da internet, e conheci esse cara, o Gladston...

17:41

- ... nas fotos na internet ele parecia com um pouco mais de corpo... De perto pareceu tão magro...!

17:42

- ... é um cara meio sem naipe, entende? Não sei se dá para ter alguma coisa séria... Mas sei lá... Hoje eu percebi tanta coisa, dra.... Talvez valha a pena dar uma chance pra ele, mesmo que seja só para "ficar"...

17:45

- ... então eu te agradeço por tudo, dra....! Muito obrigada mesmo! No sábado eu volto para a gente continuar...! Como durante a semana eu trabalho e à noite, obviamente, o cemitério está fechado, vamos fazer as nossas sessões aos sábados pela manhã, ok?

17:48

Natália abre a bolsa sobre o túmulo e dela tira o seu talão de cheques. Preenche um cheque no valor de R$300,00, nominal a Ana Clara Wilson, e o destaca.

- Olha... Eu tava te devendo três sessões... Com a de hoje são quatro... Vou deixar pago, tá?

17:50

Natália dobra o cheque e, por um vão na portinhola, atira-o dentro do túmulo.

- Tchau, dra.! Até sábado!

17:55

Naquela mesma torneira ao lado do portão principal do cemitério em que, cinco anos atrás, bochechou para tirar o amargor do vômito de sua boca, Natália lava o rosto e toma alguns goles d'água. A seguir, cruza o portão e põe-se a caminhar até o Renault, estacionado a cerca de cem metros, um pouco depois de uma banca de jornal que se situa na calçada rente ao muro amarelo. Passo, passo, passo. Frio. Natália caminha.

17:57

Natália passa pela banca e, dois passos dela adiante, toma um susto e pára. Tendo olhado de soslaio, tem a sensação de, numa manchete de uma revista com a capa exposta, ter lido a palavra "MORGUE". Um segundo, dois, três. Ela volta e vai conferir. Na verdade, apura, trata-se de uma revista especializada em veículos esportivos, e o que está lá escrito em letras grandes é "MORGAN", uma luxuosíssima marca inglesa, segundo lê embaixo. De todo modo, Natália sente algo estranho. O que mais quer dela esta segunda-feira? Natália caminha e eis seu carro logo adiante.

19:05

O Renault dobra a esquina e eis Natália no quarteirão de sua casa. Aquela sensação estranha, contudo, persiste e faz com que ela passe diante e não entre. Hoje, percebe e aceita, ela é toda instintos, toda a sua afinal vitória do desejo sobre a culpa. Ei-la já na esquina seguinte e ela atina que, desde a esquina, aquela esquina, mesmo tendo levado mais de uma hora no trânsito após deixar o cemitério, ela não acionou mais o cd player, o que faz então. Está tocando a parte final da sexta faixa do "Violator", "Enjoy the Silence". Natália dirige. É. Já sabe para onde vai. "Enjoy the Silence" termina e ela ouve a faixa 7, "Policy of Truth", após o que, por não gostar tanto das duas últimas músicas do cd, que tem 9, ela dá três toques no jump forward e volta à primeira, "World in my Eyes". Noite, trânsito, carros, faróis, esquinas. Natália dirige.  

19:53

Natália embica o carro na garagem do hotel e o entrega para o manobrista, que acaba de trazer para o dono um luxuoso carro esportivo. Ela imagina se não seria um Morgan, mas não entende de carros para saber e não vê sentido em o indagar, seja do dono, seja do manobrista. Na recepção, pergunta se está vago aquele mesmo quarto no 12° andar em que ela esteve com Rodrigo quarenta dias antes. A resposta é positiva e ela o pede.

20:08

Nua e só, Natália olha pela janela do 12° andar. Através do vidro, observa a cidade iluminada, seca e fria numa noite típica de inverno. Pensa. Relembra aquela noite fatídica e, autopiedosa, analisa num amargo flashback a vida que levou nos últimos cinco anos. Mas agora, pensa e sorri pensando, que retomou sua terapia, sim, de algum modo, de muitos modos, tudo, sim, tudo começa a fazer algum sentido. Natália pensa. Deseja, depura-se, decide.

20:11

Pelo interfone do hotel, Natália liga para a recepção e pede um uísque.

20:15

Natália tira o pênis de borracha de sua bolsa e com ele vai até o banheiro, onde cuidadosamente o lava com água a sabonete. A seguir, toma um longo banho quente, lavando também com extremo cuidado, ânus e vagina. Enxuga-se depois diante do espelho com todas luzes do banheiro acesas. Quando acaba, pendura toalha e mantêm-se toda nua, ainda a se olhar no espelho. Segundos e Sâmia aparece sorrindo. Mas Natália desta vez se antecipa. É ela quem agora, peitos à mostra, diz à prima de seu marido... "Tudo bem! Eu sei o que fazer!"

21:04

Após bebericar do uísque, sempre nua Natália se deita na cama, o pênis de borracha qual um bicho de pelúcia descansando sob a sua axila esquerda. Por um instante, indaga de si mesma se seu novo pretendente haverá de gostar de práticas sexuais tidas como menos ortodoxas. O provável é que sim, pensa. Todo homem, afinal, dizem, gosta. Ela apanha o seu celular, que já havia tirado da bolsa e deixado sobre o criado-mudo, e disca. Dois segundos, três, cinco. A pessoa atende do outro lado...

- Alô!

- Gladston? Sou eu! Natália!

FIM

Gugu Keller 

4 comentários:

  1. Parabéns, muito bom!
    Não resisti em dar uma olhada em seus escritos mais antigos e a cada palavra que leio me surpreendo e me apaixono mais!
    Beijos,

    Karen Gama

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  2. Obrigadíssimo, Karen! Leste o "A Esquina" inteiro?
    GK

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