quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Absurdolândia 10

Mas o princípio da hipocrisia, que, junto com o do absurdo, norteia a vida na Absurdolândia, tem as suas complexidades, as suas nuances, as suas curiosidades. É que, justamente por se tratar de hipocrisia, ela nunca pode ser assumida. Não. Como faz parte da sua essência, é sempre algo velado, travestido, maquiado. Assim, de tempos em tempos, e aconteceu recentemente a se considerar o momento em que estas linhas são escritas, o povo absurdo manifesta-se em repentinos lampejos de protesto contra o absurdo que é o seu dia a dia. Passeatas são organizadas, inflamados discursos são feitos, greves são articuladas e levadas a cabo e até audiências com altas autoridades são conseguidas. Até à violência, já que, absurdo por absurdo, isso lá é sempre presente, chega-se em nome de uma pretensa busca pela diminuição da absurdidade no país, como se, de fato, assim realmente se quisesse. Mas, conforme sobredito, é apenas uma pitoresca nuance da hipocrisia absurda. Sim, pois, nas poucas vezes em que esse tipo de fenômeno acontece na Absurdolândia, logo se percebe tratar-se de algo raso, vazio, inconsistente, qual uma moda rápida que passa como uma onda, a título de, hipocritamente, fingir-se um pouco que a hipocrisia não é tanta, o que, assim, num circular paradoxo, a ela própria fortalece. De modo que, sempre que tal espírito contestador timidamente dá o ar da graça em terras absurdas, insinuando-se como algo através do que se buscaria afinal, ao contrário do que ilustra a bandeira, alguma união verdadeira e construtiva entre as pessoas, fica logo claro que tudo foi meio que uma encenação, uma farsa facilmente contornada pelos caras-de-pau que detêm o poder, seja com uma pequena concessão irrelevante e paliativa, seja com ameaças covardes nas entrelinhas de seus discursos reticentes, seja através das inúmeras promessas que sempre fazem e nunca cumprem, o que, diga-se de passagem, para o povo absurdo é absolutamente normal, já que esses mesmos promitentes contumazmente indimplentes são de modo contínuo prestigiados, eleitos e reeleitos. É que, por outro lado, novamente em respeito ao princípio da hipocrisia, a mentira é de tal modo oficializada e normal na Absurdolândia que ninguém que lá exerce alguma autoridade se importa se os fatos demonstram claramente o contrário de que é dito, e, como o povo em geral, tão afeito também ao outro princípio, o do absurdo, contra isso não reclama, já que jamais passa de algum eventual agito que não faz mais do que atrapalhar o trânsito aqui ou acolá, que, no fundo, bem se sabe, é apenas mais um tipo de festa onde se dança, canta e requebra, e, sobretudo, avaliza, qual dito, os que comandam a absurdidade desenfreada sempre renovando eleitoralmente os seus mandatos, tudo acaba sendo uma eterna continuidade do que sempre foi, e parece fadado a sempre ser. Didaticamente, é curioso abservar, assim, ainda quanto ao princípio da hipocrisia na Absurdolândia, que dois são os tipos de hipócritas que lá se vê... Os "hipócritas ativos", que meio que se confundem com os "caras-de-pau", a minoria, que nababescamente lucra com o absurdo, e os "hipócritas pasivos", a maioria, que a esse absurdo que tanto os avilta aceita sem nenhum tipo de contestação minimamente séria, quando muito, eventualmente, como houve há pouco, um pequeno vacarnal temporão aqui e ali.

Gugu Keller   

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