quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Absurdolândia 11

Conforme já referido, dentro do círculo azul da bandeira, que representa o oceano de desunião do povo absurdo, há, como se nele estivessem refletidas, a iludir, tal qual se explicou, tratar-se de um céu, vinte e sete estrelas. A simbologia aqui está na sua disposição. É que o círculo azul é dividido ao meio por uma faixa braca elíptica onde estão escritas as duas palavras, três se contarmos o "e", sendo que, das vinte e sete, apenas uma está colocada acima da faixa. Sim. As outras vinte e seis estrelas estão na parte de baixo. E o significado é bastante simples... Qual dito no capítulo anterior, a população absurda é composta de uma pequena minoria que se aproveita da absurdidade do país para levar uma vida extremamente farta e confortável, os "hipócritas ativos", os ditos "caras-de-pau", e de uma gigantesca maioria, "os hipócritas passivos", que, justamente para sustentar o conforto dos primeiros, vive na dificuldade, na privação, na exclusão, à margem. Pois bem. A disposição das estrelas na bandeia mostra a proporção em que isso ocorre. Sim. Sincronicamente, de um modo bastante próximo da exatidão através dos tempos, temos que, de cada vinte e sete cidadãos da Absurdolândia, apenas um tem acesso ao que se pode classificar como dignidade em termos de cidadania. E observe-se que para estes, os da estrela de cima, a Absurdolândia é um país de primeiro mundo, a ninguém ficando a dever no que se refere a, por exemplo, saúde, educação, possibilidades e qualidade de vida em geral. Ao contrário, o que lá não falta em relação a tais coisas, quando os beneficiários são os da superior estrela solitária, é uma excelência de nível internacionalmente conhecido. Na Absurdolândia, tudo o que deveria ser básico, inclusive com previsão legal para isso, é totalmente elitizado. Aliás, como essa elitização é ao extremo flagrante, talvez mais do que em qualquer outra área, no campo da educação, e isso, obviamente, com base no princípio do absurdo, é proposital, fica muito difícil para quem tem origem nas classes menos favorecidas transcender a faixa central da bandeira e passar a integrar a estrela só da parte de cima, e os poucos que o conseguem, quase sempre artistas, futebolistas ou felizardos da loteria, não raro, hipocritamente, dão as costas para os ficaram na parte de baixo, esnobando-os e se tornando novos caras-de-pau. Por outro lado, é óbvio que, em respeito à hipocrisia mentirosos contumazes, os que detêm o poder afirmam o tempo todo que a proporção das estrelas tem mudado, que, dentro dessa proposta simbólica do lábaro absurdo, várias delas já teriam migrado para o hemisfério norte do mar azul redondo, na medida em que o povo estaria tendo mais acesso a tudo em termos de cidadania. Chegam a afirmar em sua postura de pínóquios sem nariz que, conforme reza a constituição absurda, a busca constante pela diminuição das injustiças sociais está mais do que nunca na ordem do dia. Sempre a pedir votos, o afirmam sorridentes. Mas todos sabem, tanto os que dizem quanto os que ouvem, hipócritas ativos ou passivos, tratar-se da ladainha da perene farsa. Tal ordem do dia é, na verdade, uma constante alusão à data marcada pelo folclore local para que os absurdos não vivam mais oprimidos pelo absurdo, o dia de São Nunca, a se comemorar a 30 de fevereiro do próximo ano que esse dia tiver. Sim. Voltando a falar em termos didáticos, ao analisarmos essa estrutura social do país, tão bem representada na sua bandeira, temos que a Absurdolândia é claramente uma sociedade absolutista que mantém um sistema de exploração dos nascidos com menos sorte quase que medieval, mas que, hipocritamente, conforme lhe é princípio, através de um sistema capitalista selvagem, covarde e ardiloso, traveste-se de democracia a ponto de dela dizer-se orgulhosa.

Gugu Keller

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