sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Absurdolândia 12

Abordando-a de um modo mais específico para que melhor se tenha uma idéia da absurdidade absurda quanto à educação, é interessantíssimo observar coisas que muito provavelmente apenas na Absurdolândia acontecem.  Quem, por exemplo, tendo lido o capítulo anterior, ficou a imaginar que as universidades públicas absurdas são de péssima qualidade, errou por muito. São, ao contrário, em grande parte, excelentes. A USP, Universidade Seletiva de Paulópolis, apenas para uma delas citar, é altissimamente gabaritada mundo afora, e, em comparação com as particulares na própria Absurdolândia, as públicas são a grande maioria entre as de melhor reputação. O que ocorre lá, em nome do princípio do absurdo, é que, absurdamente, no ensino público, apenas o superior é decente. Sim. Hipocritamente, o estado investe generoso nas universidades enquanto deixa à míngua o ensino básico, de sorte que, enquanto aquelas são de excelente padrão, as escolas públicas de primeiro e segundo graus, tirante raríssimas exceções, vitrines da mentira, sabe-se, que no país inteiro conta-se nos dedos, são verdadeiras pocilgas semi-abandonadas onde professores heróis enfrentam todo tipo de carência para, a troco de salários de fome, lograr pouco mais do que alfabetizar os alunos nascidos entre os representados pelas estrelas abaixo da faixa, que não têm como pagar um colégio particular, onde, aí sim, de um modo completamente inverso ao que ocorre no nível superior, o privado, sempre caro e elitizado, inacessível para a gigantesca maioria, 26/27, incomparavelmente supera o público, degradado, deficiente, desnutrido. Mas então é que vem o absurdo mais assustador, ao menos para quem não vive na Absurdolândia, na medida em que, para se ingressar nas renomadas universidades públicas, onde as vagas são obviamente bastante limitadas, há um prova de conhecimentos gerais, o chamado preambular, onde se mede competitivamente a capacidade dos candidatos, em que, é claro, excetuados raríssmos casos de incomensurável esforço pessoal, os que vêm das escolas públicas não têm a mínima chance de concorrer com quem vem das particulares, ou seja, o ensino público de qualidade acaba tendo como beneficiários praticamente apenas os que estão representados pela estrela de cima, já que, através dessa situação absurdamente injusta, elitiza-se o pouco que é gratuito e de qualidade, em perfeita harmonia, assim, com a mentalidade imperante na Absurdolândia. Nas últimas décadas, claramente baseada no princípio da hipocrisia, tem havido uma política de cotas nessas universidades públicas absurdas para alunos vindos das escolas públicas de primeiro e segundo graus, o que, hipocritamente, dá a impressão de haver enfim uma real preocupação em se diminuir esse gigantesco abismo social. Mas, para qualquer observador minimamente atento, fica claro tratar-se de uma farsa palitiva de conseqüências dantescas, afinal como pode alguém cuja base educacional foi extremamente carente acompanhar um curso superior de bom nível? Salvo as referidas raríssimas exceções de gigantesco mérito pessoal, é o mesmo que pretender erguer uma casa sem alicerce. O óbvio ululante, e a Absurdolândia é um país onde as obviedades têm um quê de clandestinas, seria, se se quisesse, numa remota hipótese, contrariar o princípio e diminuir a absurdidade da situação, investir-se de maneira decente na educação pública em todos os níveis, principalmente, até, na mais básica, como aliás, prometem para não cumprir os caras-de-pau que detém o poder há décadas e décadas e décadas. Mas não. Na Absurdolândia não é assim que funciona. Ensino público de boa qualidade lá, só para quem tem dinheiro, para quem nasceu representado pela estrela acima da faixa, um em cada vinte e sete.

Gugu Keller    

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