quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Absurdolândia 17

Quem nasce na Absurdolândia, e diferente, considerando o quanto já vimos sobre o país, não haveria de ser, é condicionado desde a infância a pensar hipocritamente e a perceber o absurdo como algo normal.  Um exemplo interessante a tanto relativo eis no que se ensina às crianças já a respeito do primeiro capítulo da história do país, o seu descobrimento... Ensina-se, com convicção e seriedade, que o descobrimento da Absurdolândia, em 1° de abril do ano de 1.500, foi algo absolutamente casual, motivado por um curiosíssimo fato: a falta de ventos. Sim. Segundo a versão oficial, desde o primário lecionada à infância absurda, ao menos à minoritária parte dela que tem a oportunidade de freqüentar uma escola, que os navegadores, que saíram da matriz na Europa a caminho das Índias, por acaso chegaram à costa absurda devido a não haver ventos. Ora. Para qualquer cérebro minimamente apto para o que se costuma chamar de pensar, a estranheza disso flagrantemente salta aos olhos. Se esses navegadores quinhentistas iam da Europa à Ásia pelo Atlántico, já que ainda não existia o canal de Suez, então por óbvio margeavam o continente africano até atingirem o cabo da Boa Esperança, que, aliás, é sempre referido neste mesmo capítulo, o primeiro da história absurda, como um importante ponto de referência nesse trajeto, para, então, chegarem ao Índico. Pois bem. Como pode uma falta de vento ser tamanha a ponto de fazer uma frota ter desviado o seu caminho em, no mínimo, cinco mil quilômetros? Provavelmente jamais em toda a história da meteorologia tanto ar ficou parado por tanto tempo...! Ademais, como conceber que tais navegadores não pereceberam que a costa africana, que cabotavam, havia ficado para trás? Não havia uma âncora para ser jogada? Um remo de que se pudesse lançar mão? Ademais, quanto tempo teriam ficado à deriva até chegar à Absurdolândia apenas ao sabor da correnteza, como uma garrafa com um pedido de socorro? São, repita-se, mais de cinco mil quilômetros! Teriam decerto boiado por anos...! Como sobreviveriam? Mas o mais interessante vem depois... Depois de aprenderem sobre esse esdrúxulo descobrimento casual da Absurdolândia, os alunos de lá se deparam com o fato de que havia um tratado segundo o qual as terras absurdas já haviam sido delimitadas seis anos antes!!! Sim, isso mesmo! Parece absurdo? Na Absurdolândia é assim. Que chance terá uma criança de nove ou dez anos que ouve isso da sua professora, e o lê nos livros de história por ela adotados, de questionar que foi assim que aconteceu? E, nessa sorte, subliminarmente, e de modo mais agudo quando quanto ao que lá é oficial no que se refere às suas instituições, os absurdos vão, desde muito cedo, sendo empurrados goelas abaixo, até tornar-se algo absolutamente normal. Se se perguntar país afora quantas pessoas já se deram conta do quanto essa versão oficial do descobrimento é absolutamente inviável, sobretudo em se considerando a contradição desse famoso tratado, o "tratado de Somentiras", decerto pouquíssimos dirão que sim. E assim segue a história da Absurdolândia, uma absurda sucessão de farsas que, hipocritamente transmitidas de geração em geração, acabam se tornando a absurda verdade oficial, quase nunca, em respeito aos lá princípios maiores, questionada por ninguém.

Gugu Keller

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