sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Absurdolândia 19

Falando em câmera e reportagem, papel interessante desempenha a imprensa na Absurdolândia. É que, hipocritamente, numa estranha mistura de ingenuidade com conivência, ela denuncia, tanto e de modo tão contundente quanto possível, o completo absurdo que, em respeito ao princípio respectivo, impera no país, fazendo-o sempre como se houvesse alguma mínima perspectiva de que, em o denunciando, algo pudesse mudar, ou, em outras palavras, como se ela, imprensa, como instituição, acreditasse que os hipócritas de algum modo se incomodam quando são escancarados os absurdos por que são responsáveis. Assim, e eis o ingênuo como elemento, a imprensa absurda mantêm-se a noticiar, de modo sistemático e não raro como furo de reportagem, em tom de denúncia, de prestação de serviço público, os mesmos absurdos de que todos já estão cansados de saber. É meio como se não houvesse a devida compreensão do óbvio fato de que, sendo a hipocrisia princípio, os caras-de-pau definitivamente não estão preocupados com uma eventual queda de suas máscaras. Não. Mesmo quando as têm espatifadas no chão diante de todos, eles tranqüilamente as continuam negando. Faz parte do princípio. Reforça-o até. Seus rostos sempre sorridentes já são como máscaras. Não há como desmoralizar aquilo cuja desmoralização já é por natureza a sua marca registrada. Como lados de uma mesma moeda, os dois princípios que na Absurdolândia tudo norteiam, hipocrisia e absurdo, estão tão atrelados, tão soldados um ao outro, que simplesmente não há como se romper esse círculo vicioso. Então, sendo o absurdo o normal, a hipocrisia, por mais que absurda seja, também o é, e, por outro lado, sendo a hipocrisia de o negar, ao absurdo, mesmo quando ele é ululantemente óbvio, também normal, ele hipocritamente deixa de soar absurdo, e assim se o torna ainda mais. Ou seja, cai-se num jogo de espelhos absolutamente sem saída. Um exemplo recente ilustra melhor essa questão relativa à imprensa absurda... Uma determinada rede de televisão conseguiu imagens que mostram internos de uma unidade da instituição onde são recolhidos menores infratores na cidade de Paulópolis sendo violenta e covardemente torturados pelos funcionários que os deviam atender. Aí, veiculada a reportagem, um importante membro do ministério público paulopolense dá uma entrevista em tom de extrema indignação afirmando que providências enérgicas serão tomadas prontamente. Pois bem. Na engrenagem do absurdo que impera no país, tudo isso não passa de uma completa encenação. A equipe de televisão que fez a reportagem já deveria de antemão estar ciente de que os fatos mostrados não de modo algum constituem alguma novidade para o ministério público, ou para o poder judiciário, ou para o governador do estado, ou para o secretário da segurança, ou para quem quer que seja. É obviedade escancarada que todo mundo, toda a população está cansada de saber desse tipo de absurdo a ocorrer o tempo todo, assim como muito bem sabe que, por mais que a imprensa o mostre, nada de concreto será feito para que mude. Se, na seqüência da veiculação da matéria, palavras indignadas e promissoras são ditas, petições são protocoladas e novas diretrizes são postas no papel, tudo é apenas uma orquestrada encenação em respeito ao princípio da hipocrisia. Mesmo assim, a ingênua desempenhar o seu papel nessa engrenagem, a imprensa absurda dedica-se incansavelmente à busca desse tipo de pauta, sabendo de antemão que vai noticiar absurdos já sabidos por todos apenas para, afinal, através da reação invariavelmente mentirosa os caras-de-pau responsáveis, reforçar a hipocrisia, e com isso, qual bola de neve, os fazer, aos absurdos, aumentar. Ademais, quando, absurda, a hipocrisia de algum cara-de-pau é que é a notícia da vez, reforça-se ainda mais diante de todos o quanto, como princípio, ela é absurdamente normal, fortalecendo-se, também assim, ainda mais, o absurdo como um todo.

Gugu Keller

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